quinta-feira, 19 de novembro de 2009

DESENCANTO – Assim terminam os clássicos

David Lean é ligado constantemente a épicos monumentais, grandiosos. Não é pra menos, já que o diretor inglês criou coisas que fazem jus a esse título, como Lawrence da Arábia, Doutor Jivago e A Ponte do Rio Kwai. Por isso, quando pensamos em Lean, chega a ser quase impossível conecta-lo a um drama tão simples (relativamente falando, e em alguns aspectos, apenas) e íntimo como o maravilhoso Desencanto (Brief Encounter, no original, ou, traduzindo, "breve encontro"), de 1945, baseado numa peça de Noel Coward. Esse era o quarto filme do diretor, o que lhe deu maior visibilidade (e sua primeira indicação ao Oscar), feito durante a Segunda Guerra antes dos épicos que lhe deixaram famoso (com justiça). A história de Desencanto parece, inicialmente, bem comum: um homem e uma mulher, ambos casados, se conhecem casualmente numa estação de trem e, a partir daí, desenvolvem uma paixão proibida. É um romance belo e melancólico que fala não apenas do amor, mas também, e principalmente, do sentimento de culpa. Existe, no roteiro, uma sutil não-linearidade nos fatos. Não precisa ser muito esperto pra sacar que o final é, na realidade, o começo. Mas é preciso ter bastante atenção pra notar como, no início, por nós, o público, não conhecermos a história por trás daqueles rostos desconcertados, não existe tanta tensão como há no fim, onde nos é mostrado a mesma cena, sob outro ponto de vista. Mas nesse momento já estamos envolvidos, e quase podemos sentir toda a pressão que o casal está sofrendo. Pago pra ver alguém não chorar. Desencanto foi considerado há pouco tempo um dos melhores filmes britânicos da história, pau a pau com O Terceiro Homem. É pro cinema inglês o que Cidadão Kane é pro americano, só pra citar um exemplo. Billy Wilder, que não é bobo, amou tanto o filme que usou um de seus coadjuvantes (o amigo do protagonista, dono do apartamento) em uma de suas melhores comédias, Se Meu Apartamento Falasse, transpondo-o como protagonista. E depois ninguém é perfeito, né?

Pra começar, Desencanto jamais seria feito nos dias de hoje. Por uma porção de motivos. Primeiro que, pro público atual, muito mal acostumado com Hollywood, a trama do casal que se apaixona e não pode viver esse amor soa por demais ultrapassada, brega... Nos nossos tempos ou um filme é 100% infantilóide, ou ele parte pra baixaria sem motivo de ser. Quando temos o desejo sexual proibido transposto em olhares, em gestos, até em diálogos, bah, daí é velharia. A vantagem disso é que Desencanto nunca ganhará um remake, a não ser que seja feita uma revisão na trama. Sabem, com algum esforço dá pra transformar a história do drama em um filme de ação. É fácil. Junte-se ao amor proibido uma raça alienígena prestes a invadir a terra e voilá, fez-se os bons números na bilheteria. Óbvio que desse modo Desencanto perderia sua profundidade, mas quem liga pra isso? Queremos a casa branca aos ares, viva! A desvantagem de Desencanto ser o pesadelo dos adolescentes é que ele certamente está ganhando poeira na prateleira da locadora mais próxima. Suponhamos que o atendente da locadora seja um cinéfilo de bom gosto (eu sei, maior viagem. Se eu falo Hicthcock pro mocinho da locadora aqui perto de casa ele me diz “saúde!”) que indique o filme pra alma perdida que não sabe o que quer da vida. Quais são as opções? Opção A) o sujeito, muito esperto, confere a data de produção do filme no verso do DVD e o devolve a prateleira, fazendo o sinal da cruz; opção B) ele confia no atendente e leva Desencanto para casa, mas arranca-o do aparelho de DVD logo nos créditos, quando descobre que é em preto-e-branco; opção C (e a mais provável) a pessoa em busca de um filme que tenha sido feito, de preferência, depois dele ter nascido, joga Desencanto na cabeça do pobre atendente, que perde os sentidos, cai e bate a cabeça no balcão, falecendo em seguida. Ok, hoje estão no meu estado trágico, mas é que acabei de rever Desencanto, que é pura melancolia, pra escrever sobre ele. Dêem-me um desconto. Outro fator crucial que conta muitos pontos pra gente crer que Desencanto jamais seria feito nos dias atuais é seu ritmo todo peculiar, muito mais britânico do que americano. Hoje em dia as pessoas não têm tempo para pausas reflexivas ou construções psicológicas em longos closes nos rostos arrependidos dos personagens. Se eu obrigasse meus amiguinhos a verem o filme, por exemplo, eles certamente argumentariam que dava pra contar essa mesma história em no mínimo metade do tempo (isso porque ele já é curtinho, menos de uma hora e meia). Era só usar uma edição mais eficiente (lê-se picotada), cortar a maioria das cenas românticas, talvez acrescentar um letreiro preguiçoso ao final que explique o que a edição cortou, e, tcharan, teremos o mesmo filme, e ainda nos restará tempo de sobra pra, ahn... pra... jogar videogame? Ler um livro é que não é.

O que mais gosto em Desencanto é justamente a sua incrível sensibilidade ao contar, sem pressa, toda a construção do amor dos personagens. Não existe amor à primeira vista, vamos combinar. Não é apenas por um olhar que o casal acredita que aquela é sua alma gêmea. Na realidade, a cada novo encontro, às quintas-feiras, os pombinhos vividos pela Celia Johnson e pelo Trevor Howard estão mais apaixonados, mais envolvidos naquele amor. Existe uma construção, degrau por degrau, até chegarmos ao clímax da paixão, e também da culpa. Ta aí outro aspecto. Os dois são casados, e o adultério, na época, era visto como algo muito mais indigno do que hoje em dia. Principalmente pra mulher. Desencanto é muito sincero nesse aspecto, ao contar a trama pelo ponto de vista da personagem feminina. É ela quem nos narra a trama, em tom de desabafo, já que não pode contar a ninguém mais. Ela se encontra casualmente com uma dondoca conhecida sua, e pensa: ah, se eu gostasse o suficiente de você para lhe contar... O que ela mais quer, naquele momento, é desabafar. Como se assim sua culpa pudesse ser amenizada. No entanto, não conhecemos os pensamentos do homem. Também não vemos nenhum membro de sua família, nem o vemos quando ela não está presente, fora dos encontros. Com a personagem da Celia Johnson é diferente. Nós não apenas conhecemos seu marido e filhos, como também acompanhamos todo o seu sofrimento muito mais de perto do que o dele. Daí você me pergunta: sofrimento por que, culpa por que, auto-punição psicológica por que, ó, dúvidas? É verdade que não há o que hoje em dia seria considerado adultério: o sexo. Mas existe o desejo, e, menos do que isso: só o fato de ela se apaixonar por aquele homem, e vice versa, já é mais do que suficiente para suas mentes pesarem. Ainda mais naquela época, com a repressão mais forte do que nunca. E, veja só, chegamos em outro fator pra Desencanto ser um “cruz credo” a muitos, como a maioria dos clássicos: é tudo tão “inocente”. Eles dão alguns beijinhos e já acham que vão queimar no fogo do inferno? Ah, que gente careta! É que esse pessoal não leva em consideração a época, e muito menos que a paixão psicológica conta, por vezes, tanto quanto a carnal. O que me leva a outro filme, esse recente: Fim dos Tempos, do Shyamalan (que eu não achei a maior catástrofe de todos os tempos, como muita gente diz. Mas daí a eu dizer que gostei do filme são outros quinhentos...). Lembro que, desde o começo dele, a Zooey Deschanel se culpa por alguma coisa que não sabemos bem o que é, mas que, por alguns motivos, supomos que seja uma traição. Daí, lá pelas tantas, quando as plantinhas estão prestes a destruir a humanidade, ela confessa ao seu marido, o Mark Wahlberg (não é muito fácil identificá-lo no filme, já que tem uma atuação parecida com a das plantas. Ele é o menos verde), que, ahn, como posso dizer, humm, é muito embaraçoso, ela confessa que comeu uma sobremesa com um desconhecido. Ah, fala sério. E o pessoal reclama da inocência de um Desencanto?

Mas esse clássico não se resume apenas a uma trama de amor proibido ou de culpa. É também sobre o vazio existencial. As cenas em que a colega de viagem faladeira começa a narrar algumas trivialidades sem parar e a câmera foca sua boca se movimentando, enquanto o som vai diminuindo gradativamente, mostra bem isso. A protagonista se pergunta, em determinado momento, “por que temos que ser simpáticos a todo instante?”. Às vezes eu também me pergunto isso. Quem já esteve no meio de um silêncio embaraçoso e se viu na obrigação de fazer algum comentário inútil (“ihh, acho que vai chover”) pra quebrar o clima levante a mão. Um de cada vez. Fora o marido da protagonista, que está a todo momento concentrado em seus livrinhos de palavra-cruzada. Em uma cena a mulher meio que confessa o que andou fazendo, confessa seus encontros com o médico, mas o marido, sem tirar os olhos da revista, apenas faz que “sim, aham, claro”. Óbvio que ele não ouviu uma palavra. E é legal que, mesmo assim, ele não seja visto como o carrasco da história. Na verdade, apesar de parecer se interessar muito mais nas palavras-cruzadas do que na esposa, o marido da protagonista é carinhoso com sua família. Então porque ela se apaixona por outro homem, se seu marido a ama e não a maltrata? E nós escolhemos com quem, onde e quando vamos nos apaixonar, por acaso? No início ela nos conta que seu casamento era feliz, e parece não entender porque, nesse caso, se apaixonou por outro homem. Hoje em dia uma mulher que trai por ter um marido bêbado, vagabundo e que a trata mal, essa pode até ser perdoada. Mas trair tendo um homem carinhoso em casa (mesmo que não o ame), isso é coisa de vadia mesmo. (aviso: trocadilho infame na próxima frase) É, a cada vez mais me convenço de que Desencanto dificilmente encantará a nova geração. Nas mãos de gente errada, filmes como esse podem facilmente virar motivo de piada. E assim terminam os clássicos (?).

terça-feira, 17 de novembro de 2009

RESULTADO DA ENQUETE: QUAL O MELHOR FILME DO ALMODÓVAR?

Almodóvar e Antonia San Juan nas filmagens de Todo Sobre Mi Madre (1999)

Me digam uma coisa: esses produtores querem nos matar ou o quê? Porque se é isso o que eles querem, por que não nos dão logo um tiro? Pra que essa tortura? Abraços Partidos, programado para estrear no Brasil no dia 20 desse mês, foi adiado em duas semanas, assim, de última hora, e agora nós só poderemos conferir o novo longa do Pedro Almodóvar no dia 4 de dezembro. E o que eles acham que eu faço até lá? Porque roer minhas unhas eu já roí, já revi a maioria dos longas passados do maior autor de nosso tempo também. Até já acabei meu estoque de chocolate. Mas vamos ao resultado da enquete, que mobilizou 75 pessoas a votar. Fico feliz que vocês amem Almodóvar tanto quanto eu (mas eu ainda amo mais, viu viu?). E em último lugar, surpreendente pra mim, com 1 votinho apenas, ficou Ata-me!. Não que eu seja o maior fã do filme, porque não sou. Mas ele não é cheio de admiradores por aí? Já ouvi uma porção de gente que o considera o melhor do Almodóvar até hoje. Não acho que o argumento seja lá muito bom, mas ele ta cheio de pequenos toques almodovarianos que o fazem valer. E eu gosto bastante do final. Se bem que, da primeira metade da década de 90 (até 97), eu prefiro De Salto Alto (e A Flor do Meu Segredo também é agradável, Kika um pouco menos). Já viram esse? Não dá pra compará-lo com o que Almodóvar viria a fazer posteriormente, mas aqui a gente já pode ver viárias de suas características mais recentes, como apostar no melodrama (se bem que De Salto Alto ainda é meio kitsch). Confiram que vale a pena. Até a pior coisa que Almodóvar já produziu vale a pena, juro. Não deu pra incluir todos os seus longas na enquete, até porque, pouca gente viu os primeiros e menos famosos filmes. Mas, em homenagem a esses aqui excluídos, ilustro o post com seus cartazes. E não deixem de vê-los.

Em penúltimo lugar, com 3 votos (ou 4%), vem Matador. Ah, esse eu não gosto. Ok, o filme tem lá seus momentos, mas, ainda assim, é o Almodóvar que menos me agrada, acho. Se é pra escolher um dos filmes de começo de carreira (sem contar Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, que esse é coringa), da década de 80, prefira A Lei do Desejo ou Maus Hábitos (ainda não tive a oportunidade de conferir seus dois primeiros filmes: Pepi, Luci, Bom e Labirinto de Paixões, mas vi outro dos primórdios, Que Fiz Eu Para Merecer Isso?, e gostei). Empatado com Matador ficou Carne Trêmula. Isso pra mim é inaceitável. Gente, como assim? Vocês não gostam ou não viram? Ou esse absurdo aconteceu porque a concorrência é forte? Bom, o caso é que Carne Trêmula é a primeira obra-prima da melhor (e mais madura) fase do Almodóvar. Depois de Carne, em 97, ele iria fazer mais quatro filmes de babar (será Abraços Partidos a sexta maravilha consecutiva? Teremos que esperar – ó céus – pra ver). Esse é o tipo de filme que ainda faz o cinema atual sair bem na foto.

Daí, com 9 votos, ou 12%, chegamos a Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, essa delícia de comédia. É importante na carreira de Almodóvar não apenas por ter-lhe dado sua primeira indicação ao Oscar (por filme estrangeiro), mas também por ter aberto espaço no cenário internacional pro seu cinema. Se não bastasse ser um filme incrivelmente divertido e engraçado, ainda teríamos que nos curvar diante dele por ter aberto as portas pro nosso ídolo. Mas Almodóvar daria um jeito de alcançar o cinema internacional com ou sem Mulheres à Beira. Felizmente foi com.

Então chegamos a Tudo Sobre Minha Mãe, esse sim, definiu Almodóvar mundialmente de vez. E é a síntese de seu cinema. Quem o vê e não absolutamente se apaixona, pode desistir de tentar conferir qualquer outro. “Tudo” é um dos mais sensíveis e originais filmes dessa década (que podemos chamar de quase perdida, para o cinema, talvez?), a mais admirável e sincera homenagens às mães (e às mulheres, no geral) que o cinema já viu. E quantos filmes conseguem ter tantas cenas antológicas? Hitchcock já havia nos provado que um filme deve ter pelo menos uma cena marcante. Em Tudo Sobre Minha Mãe é uma sequência memorável atrás da outra. A gente ri, chora, aplaude, rebobina (não uso essa faz tempo) e assiste de novo. Soberbo, lindo, lindo. Por isso que eu fiquei apavorado no começo quando vi todos os trabalhos mais recentes do Almodóvar deslanchando na frente, e “Tudo” com apenas uns 3 votinhos. Somente agora, no finalzinho da enquete, que ele conseguiu arrecadar 12 votos, ou 16%. Ufa!

Má Educação conseguiu 14 votos (18%), ficando com a terceira posição. Já falei (quase) tudo o que queria sobre essa obra-prima espetacular aqui. Em segundo lugar, com 16 votos, ou 21%, está Volver, outro que amo. Por curiosidade, Almodóvar montou o roteiro desse filme com várias ideias que já havia tido no passado (e Volver fala bastante sobre isso, sobre o passado). Ele juntou um roteiro que tinha começado a desenvolver (intitulado Tacones Lejanos, mas que não tem nenhuma ligação com o filme de mesmo nome que ele fez em 91), cuja trama falava sobre fantasmas que não eram fantasmas, com a história central do livro que a Marisa Paredes escreve em outro filme seu, A Flor do meu Segredo. Se vocês virem esse longa de 95, prestem atenção que poderão encontrar Volver “dentro dele”. Só Almodóvar...

O primeiro lugar, com louvor, foi para Fale com Ela, que recebeu 17 votos, um a mais que o segundo lugar. Aliás, três ou quatro filmes ficaram, na enquete inteira, ali ó, pau a pau. Um ficava em primeiro, depois descia pro segundo, subia de novo. Disputa acirradíssima, e eu entendo. É sacanagem minha ter que pedir pra vocês escolherem entre tantas maravilhas, uma diferente da outra. No meu caso, depois de muito sofrimento, acabei conseguindo entrar aqui em outros dois computadores, e três longas ganharam meu votinho: Má Educação, Tudo Sobre Minha Mãe e Fale com Ela. Óbvio que minha consciência só estaria plenamente satisfeita se eu votasse em no mínimo mais dois: Carne Trêmula e Volver. Essas são suas cinco obras mais magníficas, e todas elas podem ser encontradas em DVD no Brasil, assim como alguns dos mais antigos também. Procurem, vejam, revejam, porque Almodóvar é único. Chega logo, 4 de dezembro!

domingo, 15 de novembro de 2009

(500) DIAS COM ELA – Explosão de fofura

O amor é azul como os olhos da Zooey. E lindo como um musical. Mais ou menos.


Fui ver a nova comédia romântica que vem recebendo inúmeros elogios tanto da crítica especializada quanto do público. Particularmente, adoro quando um filme consegue agradar os dois meios. Significa que ele tem todas as maiores características que levam o grande público a deslocar-se de suas casas (entretenimento, principalmente), que são justamente as mesmas características que moviam as pessoas nos primórdios do cinema (quando uma porção de gente não admitia que este fosse considerado arte), mas que também é sinônimo de filme inteligente. Não que eu ache que só porque os críticos elogiam determinado filme ele é inteligente e ponto, e quando o grande público comparece em peso significa que ele não presta. Pelo contrário, eu poderia citar um monte de exemplos de grandes filmes massacrados pela crítica e que foram bem de bilheteria. Mas o caso é que é bem raro, atualmente, a gente usar as palavras “originalidade” e “comédia romântica” na mesma frase. É um gênero que o público comparece sempre, que segue dando dinheiro. Mas que, vamos combinar, precisa de uma reforma urgentemente. (500) Dias Com Ela não é exatamente um grande exemplo de originalidade, e nem a pau que vai fazer uma revolução no gênero. Mas nós, acostumados que estamos com a mesmice, achamos em qualquer coisa levemente diferente um frescor no ar.

Ok, meu último comentário foi injusto. A comédia não é “qualquer coisa levemente diferente”. Ela é uma delícia. Acho legal que a visão do filme do amor seja um bocado trágica, quase pessimista. Não tem nada de muito meloso no amor de (500), nada tipo “ele é lindo e dura para sempre e além”, tipo nos filmes do Robin Williams (se eu citar o nome desse ator em vão mais uma vez, to ligado que vou apanhar). Só que, mesmo tendo esse olhar peculiar, poucas vezes visto num filme do gênero, ele super consegue cativar. (500) é bem o tipo de filme que a gente ouve um monte de “ooohhh, que lindo” durante a sessão. Só que não é nada piegas, nada de beijos ao pôr-do-sol. É, na realidade, um romance sincero, simpático e que ganha nossa confiança por seus toquezinhos cool. Agora, se me permitem contar um fato marcante que aconteceu durante a sessão em que eu estava, houve uma briga feia entre um grupinho de amigas que estava conversando e uma senhora que foi bem mal educada com elas. Sério, foi uma berrando com a outra por uns três minutos, uma baixaria. Detesto que conversem no cinema, mas, poxa, povo estressado... No fim precisou do guardinha do cinema para conter os dois lados. Eu quase perguntei quantos anos elas tinham, três?, mas me segurei. Volvendo: na história de (500), um jovem arquiteto que trabalha escrevendo frases de cartões (aquelas tipo “Vim aqui pra te dizer... – abre-se o cartão – ...que te amo muito!”, sabem quais?) se apaixona perdidamente pela nova assistente de seu chefe. Ele, crente no amor dos contos-de-fada, olha praquela mulher e vê nela a pessoa com quem quer passar o resto de seus dias. Já ela, que não acredita em amor eterno, e que detesta rótulos do tipo “namorados”, deseja apenas uma diversão passageira. Não vê nada de sério no relacionamento que acaba de começar, e desde o início deixa isso claro pra ele. Ok, a história é original em alguns aspectos. Eu gostei do roteiro, que é bem simples, mas não creio que ele seja assim um poço de novidades. É legal a ideia de “ele se apaixona, ela não”, mas o filme não consegue fugir de todos os clichês, sinto ter que lhes dizer. Mas é tão cativante que a gente nem liga. A começar pelo casal de protagonistas. A Zooey Deschanel é linda, bem apaixonante (o Renato apelidou o filme de “500 dias babando pela Zooey”). Já tinha reparado nela em Sim, Senhor!. Era ela aquela que roubava todas as cenas do Jim Carrey, lembram? E a atriz já tem a fama de ser fofa, por seu jeitinho e tal, mas aqui a sua personagem meio que bate de frente com essa característica. Ela não acredita no amor, nos relacionamentos, não quer nada sério com seu “namorado”, se preocupa mais com sua vida profissional do que com a amorosa (que ela afirma não ter, deu a livre). Só que a Zooey, ohhh, ela mantém seu jeitinho de ser. Não conseguimos libertar sua persona da personagem, e, acreditam, isso faz bem ao filme. Fica diferente porque, apesar de algumas ações dela serem meio irritantes, esta, ainda assim, não perde a nossa confiança. E o protagonista, o Joseph Gordon-Levitt, ta muito bem, cheio de carisma. De novo, seu personagem é irritante em vários momentos, mas seguimos gostando dele. Os dois são meio anti-heróis, sabem? E tem gente falando que esse é o casal sensação do momento. Eles já viraram queridinhos pela – vamos encher a boca para o clichê – química que têm juntos. Os dois estão longe de serem um casal perfeito, e ta aí a graça. Adoro a cena em que eles literalmente brincam de casinha numa loja de móveis. Eu fazia mais ou menos isso com meus amiguinhos. A gente ficava tirando fotos naqueles sofás enormes, na frente daquelas televisões de plasma... até o segurança nos expulsar. Sendo que nós não fazíamos nada de mais (é proibido fotografar ou é proibido ser feliz?). Mas, em todo caso... Também adorei a cena em que a Zooey ensina o Joseph a se soltar mais, e o manda gritar “pênis” no meio da rua. Ele diz que, “ok, agora chega”. Segue-se um silêncio até que a Zooey, no meio de gargalhadas, grita: “Pêêêniiss”. Uma musiquinha começa a tocar (a trilha sonora é ótima!), a câmera mostra um plano aberto do parque, e o cinema inteiro: “oohhhhh, que meigo”. Eu sei, você já viu isso antes, mas a vantagem é que aqui não há o perigo real de alguém vomitar por excesso de melação. É fofo, meigo, cativante, todas aquelas palavras usadas pelas garotas (os seus acompanhantes do sexo oposto se recusam a proferi-las) ao saírem de uma sessão de alguma comédia romântica. Mas aqui tudo é mais sincero.

Agora, vamos combinar, ta mais do que claro que a maior fonte de inspiração do roteirista e do diretor é Annie Hall (aqui chamado bizonhamente de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa – não tinha um troço mais comprido?), do Woody Allen. Ambos os filmes tem um casal meio fora do padrão, uma visão deturpada do amor e um monte de toques diferenciados. Lembram quando, em Annie Hall, o Woody esperava numa fila de cinema junto à Diane Keaton, e estava incomodado com um cara atrás dele que não parava de falar? O Woody vira e começa a discutir com o sujeito, alegando que ele não entende nada de Marshall McLuhan, um escritor. Depois de muita discussão, o Woody chama em cena o próprio McLuham, que concorda com ele, dizendo que aquele senhor está mudando tudo o que ele escreveu. Woody olha pra câmera e diz: “se a vida fosse tão simples...”. Aqui em (500) não há nada tão ousado (pouca gente tem a coragem de ultrapassar a barreira do cinema como o Woody), mas, ainda assim, há suas gracinhas inventivas. Por exemplo, adoro quando, em dado momento, a tela se divide em dois, apresentando os fatos como realmente aconteceram e, no outro lado, como o protagonista gostaria que acontecessem. Tem também aquelas idas e vindas no tempo. É tudo muito bem feito, e são nesses pontos que o filme ganha seu público. É mais ou menos como usar os mesmos ingredientes pra fazer uma outra receita. Há também referências a A Primeira Noite de um Homem e ao seu final sutilmente melancólico (e sem muitas esperanças no amor eterno) que eu tanto gosto. Inclusive, os personagens vão ao cinema conferir o filme do Mike Nichols. Já vi um monte de gente reclamando que, bah, só porque o filme usa elementos cool e referências à cultura pop americana não significa que ele seja bom. A mesma coisa aconteceu em Juno, lembram? Ok, Juno exagera em querer ser descolado, na minha opinião (principalmente na primeira metade), mas em (500) a coisa flui tão natural... Não sei qual o problema de um filme querer falar a língua de seu público. Posso estar sendo preconceituoso, mas acho que esse tipo de comentário é muito mais recorrente em pessoas mais velhas e altamente conservadoras, aquelas que têm como frase de cabeceira “no meu tempo...”. Não vejo problema em um filme usar a linguagem clássica do cinema, assim como não vejo problema em usar uma linguagem mais moderna. Contanto que seja honesto...

Eu sei que (500) conta com uma história bem íntima e tal (que parece ter sido inspirada na vida do roteirista, como nos deixa parecer uma frase antes dos créditos iniciais), mas não gosto quando uma narração em off diz que, no mundo, existem dois tipos de pessoa: mulheres e homens. Ahn, a gente sobreviveria sem esse tipo de generalização. Mas o filme me ganhou de vez quando ele incluiu um número musical do estilo que eu mais gosto, o pesadelo dos chatos, aquele em que o personagem canta e dança do nada. Aqui ele não canta, mas dança, e é acompanhado por todas as pessoas que passam na rua. Tipo o que a Amy Adams faz em Encantada, mas em proporções menores. É uma alusão ao estado de espírito do personagem, que está tão apaixonado que vê a vida como num musical. Foi durante essa sequência contagiante (a última vez que fiquei com vontade de sair dançando no meio do cinema foi em Quem Quer Ser um Milionário? – tenho problemas com música indiana, são contagiantes demais) que eu decidi que (500) se trata sim de um feel good movie. Pouca gente deu esse posto a ele, e eu juro que não entendo o motivo. Talvez pela sua visão tragi-cômica do amor, por não ser alegre em todos os momentos... Mas um feel good movie não precisa necessariamente ser totalmente feliz. Quem lembra de Pequena Miss Sunshine? Aquilo era um feel good movie sem discussão, mas tinha seus momentos tristes. A semelhança entre os dois se restringe ao fato de que ambos têm uma dancinha legal (só que a de Little Miss Sunshine é bem mais marcante) e nos deixam mais leves livres e soltos (de novo, com vantagem pro filme de 2006 que eu não me canso de rever). No final, quando estávamos saindo da sessão, eu juro que vi todo mundo mais sorridente. Vi também aquelas mulheres que estavam brigando no começo de mãos dadas, saltitando alegremente, mas tenho quase certeza de que essa última parte foi fruto de minha imaginação fértil. Só que uma coisa é certa: eu saí do cinema cercado por uma nuvem radioativa de fofura (não o salgadinho). E gostei disso.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

MICHAEL JACKSON’S THIS IS IT – Pra fãs de carteirinha

Quando disse pra um amigo que ia assistir This Is It, o filme que mostra os bastidores dos ensaios do big show que o Michael Jackson estava preparando para apresentar mundo a for, ele me perguntou: “Você assistiria se ele ainda estivesse vivo?”, e eu fui bem sincero, disse que não. Na realidade, eu não assistiria nem agora que o Michael morreu, porque nunca fui seu fã. Falando só como artista (sem contar a vida pessoal), eu gostava bastante das poucas músicas que conhecia dele, mas nunca fui conhecedor dessa área, e, logo, nunca fui um dos adoradores do astro do pop. Não dá pra negar que ele foi um senhor artista, muitíssimo completo. Só que, ahn, um documentário que mostra tudo o que rolou nos ensaios do show, jura? Isso não é pra mim. Mas fui ver com uma amiga, essa sim, fãzona do MJ, e, sabem, eu gostei. É claro que nem que eu fosse o último ser pensante do mundo seria escolhido como mais cotado para falar de um filme como esse, então, não esperem uma enxurrada de informações legais nessa crônica. Se bem que eu sou a prova viva de que não é tão necessário assim morrer de amores pelo Michael pra gostar do filme, mas desde os créditos iniciais uma mensagem já nos avisa que aquilo ali é feito pensando unicamente nos fãs de carteirinha. Não exatamente com essas palavras.

O pessoal que se sentou na fileira atrás da nossa provavelmente perdeu essa mensagem, e ficou conversando (em voz alta, que fique claro), durante toda a sessão. Quando eles fizeram algum comentário idiota (provavelmente homofóbico) que minha mente fez o favor de apagar, minha amiga, super envolvida no filme, não se aguentou, e pediu, assim, gentilmente (mas num tom de voz também elevado), pra eles pararem. Por favor. Bom, depois disso o grupinho bateu palmas após umas duas músicas, e eu, no auge de minha inocência, pensei que, ohhh, que bacana, eles se renderam ao astro do pop. Mas fontes me informaram que aquilo tinha cunho irônico, então... (e esse foi o segundo ato de falta de respeito que vimos no cinema no mesmo dia. O outro aconteceu quando estávamos conferindo 500 Dias Com Ela – escrevo sobre ele já já). Já vou avisando que o documentário não fala nem por um segundo da vida pessoal do Michael. Na verdade, em nenhum minuto ele (o filme) sai dos palcos dos ensaios. É quase como um making off que viria nos extras de um DVD (só que mais bem bolado e tal). Portanto, pense duas vezes antes de ir ao cinema. Se resolverem arriscar e forem conferir, cuidado com os comentários desrespeitosos, porque certamente a sessão estará lotada de fãs enfurecidos com os intrusos linguarudos (e com razão). Se bem que minha amiga estava tão envolvida no cinema que ela nem notou quando eu tentei acompanhar a letra de Thriller baixinho (e olha que quando eu decido cantar eu chamo a atenção – no mal sentido, claro). Eu olhava pros olhinhos dela, brilhando, e pensava: é assim que eu fico quando to vendo um musical ou, sei lá, algum outro filme emocionante, algum do Almodóvar? Provavelmente. E ver esses fãs emocionados com o filme não pelo MJ ter morrido, mas por ele ser um cara que gostava do que fazia e que fazia com carinho (é o que This Is It passa), isso emociona.

O que mais gostei é que o documentário não coloca o Michael num altar de ouro. É claro que ele é o centro das atenções (e tem como não ser?), mas não me pareceu pretensioso hora nenhuma, e, apesar de haver exaltações ao astro, não é nada que não seja natural. Tem também um espaço pra mostrar toda a equipe do show, porque, é claro, existe um processo de criação por trás do espetáculo. E adorei ver todos aqueles artistas (cantores, dançarinos, etc) se dedicando tanto com a maior boa vontade. Ta todo mundo com um sorriso no rosto, mas, juro, não parece ser só porque eles estão aparecendo na frente das câmeras. Não. Parece sincero, e o é. O sonho de todos eles está se realizando, e o documentário não tenta esconder isso. E eu, que nem conhecia as músicas direito, estava bem curioso em relação ao comportamento do MJ nos bastidores. Do pouco que se vê, ele se mostra bastante perfeccionista, mas não arrogante. Ok, estou certo de que, se existisse alguma imagem do Michael tratando qualquer uma daquelas pessoas de forma indigna, elas não entrariam no documentário. Mas This Is It me passou a imagem de ser tão sincero, que eu nem pensei nisso na hora. Se vocês querem uma opinião mais respeitável, minha amiga amou, assim como a maioria dos fãs andam babando pelo filme. O pessoal só não ta agradando muito da reconstrução do clipe de Thriller, e eu entendo. Ah, como assim, modernizar (o que é aquela aranha gigante?) um troço que já é um dos maiores ícones dos anos 80? Mas, pra mim, a parte menos inspirada é aquela que acompanha a música Earth Song. A gente vê um curta de uma menina que deita debaixo de uma árvore numa floresta verde e linda, e acorda num matagal devastado e queimado. A ideia é nobre, a realização não. Ficou piegas que dói. Claro que, se eu estivesse no meio do show e visse esse vídeo no telão, iria me emocionar demais, porque, querendo ou não, é diferente. No cinema não rolou. E, outro aviso: o Michael não solta o gogó com vontade e com todas as suas forças em nenhum momento dos ensaios. Ele estava deixando o melhor pro show, que, como disse um dos técnicos, deixaria o pessoal de boca aberta de tão inovador. É triste quando a gente lembra que o máximo que os fãs vão ver são esses ensaios. Acho que a gente pode usar aquela expressão “é melhor do que nada”. Depende. Se você for fãzão, provavelmente vai preferir “é muito melhor do que nada”.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

MÁ EDUCAÇÃO – Almodóvar mal educado, graças a deus

Hoje vou falar sobre Má Educação, que, sem brincadeira, é um dos melhores produtos cinematográficos dos últimos anos. Quiçá da década. Não ouso comparar nenhum dos filmes do Almodóvar, principalmente seus últimos trabalhos, com qualquer coisa feita em Hollywood, porque é covardia demais. Tipo assim, me peçam pra escolher entre uma barra grande do melhor chocolate ao leite ou um daqueles bom-bonzinhos baratos. Pois é. Só não digo que Almodóvar é o caviar do cinema, porque, ugh, ovas de peixe? Fiquem com a analogia do chocolate, que é melhor. Aliás, comparar a importância do chocolate na minha vida com a do cinema de Almodóvar pode até soar forçado, mas, gente, faz total sentido. Eu não consigo viver sem nenhuma das duas coisas. Minha existência de cinéfilo pode ser facilmente divida entre antes de conhecer Almodóvar, quando eu ainda tinha pouca noção do que era realmente se emocionar vendo um filme, sem ser necessariamente um melodrama, e depois de ver meu primeiro filme do cineasta espanhol, quando minha visão sobre o cinema avançou anos luz. O que me faz lembrar de uma vez em que estava conferindo Volver, e minha avó, claramente assustada, me perguntou: “É um filme? Por que eles estão falando em espanhol?”. Quem sou eu para culpá-la, com todas as salas de cinema sendo ocupadas pelo lixão americano? A gente tem que se curvar diante de Almodóvar não apenas por ele fazer cinema em outra língua que não o inglês, e não apenas pelo seu inegável talento, mas também por abrir a cabeça das pessoas a outras culturas, a outro tipo de cinema, bem menos empacotado. Bem mais emocionante e apaixonado. Quando fui comprar os ingressos do novo do Almodóvar em sua última exibição na Mostra de São Paulo, chegando três horas antes para garantir minha entrada, e mesmo assim encontrando tudo esgotado, eu fiquei triste, lógico. Poxa, eu estava animado pra conferir Abraços Partidos. Mas, depois, pensei a respeito e, sabem, fiquei feliz. As pessoas estão comparecendo em peso, e isso significa que, aleluia, muita gente ama Almodóvar tanto quanto yo. A gente bem que podia fazer uma campanha, né? Deixe de ir conferir a última comédia romântica no cinema e fique em casa (re) vendo qualquer grande Almodóvar (ou algum filme brasileiro, francês, austríaco, mexicano, alemão, japonês...). Ok, da última vez que propus uma campanha (“Sorria para um desconhecido na rua”), as consequências foram catastróficas (hoje a corrente segue com apenas dois membros: eu e meu cachorro), mas não custa tentar... Olha, se fosse algum sacrifício que eu estivesse pedindo, vá lá, mas conferir filmes tão excepcionais como Má Educação, querem prazer maior? Fiquei perturbado quando soube, pelos comentários, que muitos de vocês nunca viram nenhum Almodóvar. Dêem seus testemunhos: como é viver assim? Opa, mas a magia do DVD existe pra que, afinal? A partir de hoje vou andar na rua com um broxe na minha camiseta dizendo: “Não conhece Almodóvar? Quer conhecer? Garantia de vida mais feliz: fale comigo, converta-se, aleluia!”. É ou não é uma campanha nobre?

Mas vamos a Má Educação. Acima de todos os filmes do Almodóvar, esse é o mais difícil de se resumir em uma sinopse. Recomendo que vocês confiram o filme sabendo o mínimo possível da trama. Mas aqui vocês não precisam temer, porque minha boca é um túmulo lacrado. Só vou contar o básico do básico. Vamos lá, na ponta dos pés: o filme começa com Ignácio (que adotou o nome artístico Angel), um ator, indo de reencontro com um velho amigo da escola, o agora cineasta Enrique. Ele vem trazer um roteiro para um filme que é baseado na infância dos dois. Daí, Enrique começa a lê-lo, e adentramos, pelo relato escrito, no passado dos personagens. Descobrimos que, quando criança, ambos estudavam em um colégio católico, onde se apaixonaram. O padre com posto mais alto do colégio constantemente abusava sexualmente de Ignácio. Quando Enrique é expulso do colégio, os dois se separam, e só voltam a se ver agora, para rodarem um filme juntos. Isso, minha gente, é só a base. A trama está tão cheia de camadas, de idas e vindas, que Almodóvar chegou a confessar que esse é o seu filme que fica melhor quando visto pela segunda vez. E é mesmo. Lembram de quando O Sexto Sentido estreou, e todo mundo foi conferir uma segunda vez, para pegar as pistas soltas durante o filme sobre o Bruce Willis ser o fantasma? Aqui é parecido, mas, claro, muitíssimo mais complexo e interessante. Prestem atenção em cada detalhe, porque nada está ali por acaso. Até algumas cenas que pra alguns podem soar gratuitas, como a da piscina, se encaixam perfeitamente. Sabem aqueles closes que o Almodóvar insiste em fazer na cueca molhada do Gael García Bernal, nessa sequência? Então, a chave do filme está nesses closes. Pensem nisso... Só que eu não digo que este é o melhor do Almodóvar, mas nem sob tortura. É que são tantos filmes maravilhosos que citar um como o melhor é sinônimo de ficar com dor na consciência (já deu pra notar que votar na nossa enquete ta sendo duro, né?). Mas uma coisa eu posso dizer: pra mim esse é o melhor roteiro que ele já escreveu, o mais bem bolado. É tão genial que chega a me emocionar. Aqui está acontecendo um filme dentro de um filme. Uma mesma situação é contada de três pontos de vista diferentes: o de Ignácio, que escreveu o roteiro, o de Enrique, que o filma, e, mais tarde, a do padre, o real. Há também alguns personagens que são representados por mais de um ator, dentro e fora da ficção. Outros mudam de faceta (e de nome) durante seu percurso. Ah, só Almodóvar pra transformar o protagonista, a figura carismática que é o centro do filme, no vilão, assim, de uma hora pra outra, sem parecer forçado. Pelo contrário, fazendo completo sentido, soando da forma mais natural. E sem prejudicar o ritmo, que é invejável. Entre a infância dos personagens, o presente, a ficção, a não-ficção, o filme que está sendo rodado, o roteiro que está sendo lido e a verdade por trás de tudo isso, Almodóvar nos fascina com seu talento para fazer uma história tão difícil fluir belamente. Às vezes me pego pensando: será que eu não superestimo esse filme? Não sei se é por viver numa época em que tudo é refilmado, copiado e reciclado, mas... Não, não é por isso não! Má Educação é genial e ponto. Seja hoje, ontem ou amanhã. Não importa a época ou o contexto, só Almodóvar pra criar um filme como esse. Ah, gente, fala sério, até os créditos iniciais dos filmes do cara são mais prazerosos de se ver do que os do cinemão. Até os cartazes de seus filmes são mais bonitos...

Eu não ia falar sobre isso, mas como sei que muita gente vai comentar a respeito, já deixo aqui meu parecer sobre a questão da homossexualidade. Bom, como disse, é sacanagem comparar Almodóvar com Hollywood. Não tem comparação. Enquanto Filadélfia, de 93, deixava de incluir um beijo gay com medo de chocar o público, Almodóvar, em 87, com A Lei do Desejo, já apresentava uma história onde a sexualidade dos personagens (existe um transexual e um casal gay com uma relação conturbada que protagoniza cenas de sexo) pouco importava. Era algo natural, sabem? Gosto de Brokeback Mountain, e admiro que o Ang Lee tenha se esforçado para criar uma história de amor comum, sem ser diferente só por ser gay, mas, infelizmente, não existe completa naturalidade. Um montão de gente se refere a Brokeback como “romance gay”. Já Almodóvar, ele cria filmes onde a sexualidade dos personagens é apenas um item, como Má Educação. Quer dizer, o filme não fala exatamente sobre preconceitos contra gays, nem muito sobre homofobia. O centro do filme não é o relacionamento homossexual. Os personagens de Má Educação podiam muito bem ser casais heteros. Daí você me pergunta: e porque eles são gays, então? E eu ataco: por que não? Os personagens de Má Educação são gays porque são, mas, dane-se. Você me diz: mas se a sexualidade não é o tema central, porque aquelas cenas de sexo? Porque elas são importantes pra trama. Assim como uma porção de filmes têm cenas de sexo hetero (e nem por isso são chamados de “filmes heteros”), apesar do que, novamente, não dá pra comparar a importância que esse tipo de sequência tem num filme do Almodóvar com a (des) importância em um monte de outros.

Pra exemplificar melhor o que tenho pra dizer, vamos a outro ponto: Má Educação é, entre outras coisas, um filme noir. Não gosto muito quando, o diminuindo, dizem que ele é uma homenagem aos filmes noir. É uma homenagem sim, não só aos filmes negros, como são chamados, mas a todo o cinema, do jeito que Almodóvar sempre faz. Mas, mais do que uma homenagem, Almodóvar cria realmente uma originalíssima trama de filme noir. Ele transpõe todos os personagens comuns a esse tipo de filme para o universo almodovariano. Por exemplo, nos filmes noir sempre existe um detetive, geralmente investigando um assassinato. Bom, o assassinato está presente, então, já se foi um item. Já o detetive, este pode muito bem ser o cineasta. Ele vai investigar o passado de Ignácio/Angel/Juan, mas não porque é contratado para isso. E sim por ser um artista. Os artistas são curiosos e adoram conhecer os limites e os labirintos da mente humana. Por ser diretor, e por criar personagens humanos, ele se interessa em investigar aquela mente muito da interessante, ele quer saber até onde Juan vai chegar. Em dado momento, ao sair de uma sessão de filmes noir, um personagem exclama: “é como se todos esses filmes falassem de nós”. O clima de Má Educação lembra muito o do cinema noir, mas com um toque a mais. Esse tipo de filme também apresenta, obrigatoriamente, uma femme fatale. Uma mulher sedutora que usa o sexo não exatamente para conseguir prazer, mas muito mais para conseguir dinheiro, sucesso e poder. Para conseguir o que ela quiser, resumindo. Lembram da Barbara Stanwyck em Pacto de Sangue, do Billy Wilder, um dos melhores exemplos de filme noir? Mas aqui, por ser Almodóvar, por não ter medo de reinventar, ele faz o “femme fatale” ser o personagem do Gael García Bernal. Todas as características estão lá: ser sedutor, fatal, sem receio de passar por cima do outro, usando o sexo como pretexto para manipular alguém, etc. O que o diferencia das femme fatale da década de 40 é que ele é um homem. E um leitor ainda encucado me pergunta: por quê? Porque sim, ué. Do mesmo jeito que uma mulher pode ter essas características, um homem também pode. Almodóvar simplesmente escolheu que as relações presentes em seu filme seriam homossexuais, mas isso não diferencia o filme se fossem heterossexuais. Só que, claro, nem todos conseguem tratar isso com naturalidade. Sem querer bater na mesma tecla, mas a maioria dos diretores americanos fariam da homossexualidade do filme maior do que tudo. Maior do que a trama, maior do que qualquer outra característica do psicológico dos personagens. Mas Almodóvar sabe tratar disso com naturalidade. Não gosto de pensar que ele é a frente de seu tempo, porque, poxa, século XXI, né? Não é Almodóvar que está à frente, é a grande maioria das pessoas que está atrás. Mas filmes como esse fazem sim uma mudança na mentalidade de muitos. Ou se não, vejamos: Almodóvar é assumidamente gay, mas alguém se importa? A imprensa não se refere a ele como “Pedro Almodóvar, cultuado cineasta espanhol gay...”. Não. Porque ser gay ou hetero é o de menos. O que importa é que ele faz cinema de qualidade. E que qualidade...

Mas não vou gastar muito tempo nesse ponto, se nem o próprio Almodóvar se gasta com essa questão. A trama está cheia de toques interessantes, e um deles é a própria crítica à igreja. Tudo bem, hoje em dia não é novidade pra ninguém que existem padres pedófilos, que a igreja é uma instituição cheia de corrupção e tal. Mas enquanto filmes como O Crime do Padre Amaro se focam apenas nos podres da igreja, e acham que estão sendo revolucionários, em Má Educação isso é apenas um dos temas. O mais presente deles é a questão do noir, do mistério por trás dos personagens e de uma certa história de assassinato, mas a exposição da igreja se encaixa muito bem a tudo isso. E Almodóvar sabe quando ele tem que ser sutil. Por exemplo, a primeira vez que o garoto Ignácio é violado pelo padre, com a tela dividindo seu rosto em dois, assim como sua vida passou a ser, dividida, é de uma sutileza genial. Almodóvar é mestre em falar de temas pesados com a sua naturalidade costumeira. Não que ele ache que o abuso sofrido pelo garoto seja natural, banal. Não, longe disso. Mas essa trama não é tratada como um dramalhão chocante, como seria óbvio. E toda essa parte foi baseada na infância do próprio Almodóvar, que não só estudou numa escola católica, como também cantava no coral e era escolhido pelos padres para lhes ajudar nas missas. Mais tarde o cineasta veio a afirmar que recusou a (má) educação religiosa: “notei que pertenço ao pecado”, ele disse. E demos graças a isso.

Uma curiosidade: vocês sabiam que a ideia original do roteiro era que o personagem do Gael fosse mais parecido com o do Antonio Banderas em A Lei do Desejo, com alguns toques de humor? Mas Almodóvar diz que um personagem deve se adaptar a quem vai interpretá-lo, e, segundo ele, o Gael se encaixou muito mais com um Juan cruel e sem escrúpulos do que com um mais carismático. De qualquer forma, ele gostou do resultado final, e quem somos nós pra discordar? O Gael ta realmente muito bem na performance mais difícil de sua carreira. Sério, quantas vezes o roteiro do Almodóvar obriga o ator a mudar o tom de sua atuação? E quantos atores aceitariam um papel desses? Outro ponto interessante é que esse, ao contrário de grande parte dos filmes do Almodóvar, não apresenta nenhuma personagem feminina. Quer dizer, existem umas duas mulheres, mas nenhuma delas tem presença marcante (se bem que a mãe de Ignácio é importante para alavancar uma das reviravoltas). Talvez por isso esse seja seu trabalho mais sombrio, mais duro e amargo. Mas, mesmo assim, não é um filme frio, nem distante. Pelo contrário: toda a emoção a flor da pele (e as cores), a maior característica do Almodóvar, está lá, e conseguimos, mais uma vez, notar a relação de afeto que ele tem com seu próprio cinema. Certa vez, enquanto Almodóvar distribuía Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos mundo a fora, ele se encontrou com Billy Wilder, que lhe deu a seguinte dica: jamais caia na tentação de fazer um filme em Hollywood. E ninguém conhece mais a indústria do cinema do que o Billy Wilder. Eu realmente espero que Almodóvar continue seguindo essa dica, porque ir ao cinema e ouvir diálogos em espanhol é muito bom, mas estou certo de que, se algum dia ele vir a fazer algum filme em Hollywood, não vai ser diferente do que é agora. Ele vai seguir fazendo com toda a sua paixão. “Afinal, o essencial é isso: sobreviver e manter a paixão”. Palavras do mal educado.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

BOOH! OS MELHORES FILMES DE TERROR DA HISTÓRIA

O David Naughton em Um Lobisomem Americano em Londres se transformando no bicho do título, num show de maquiagem

A Fabrícia pediu pra que eu comentasse essa lista da Entertainment Weekly sobre os 20 filmes mais assustadores de todos os tempos. Ok, o título “de todos os tempos” me incomoda, sempre prefiro listas menos abrangentes, tipo “dos últimos X anos”. Mas até que esse apanhado da EW ta justo. Fãs dos filmes de terror, concordam? Todos os maiores clássicos estão aqui. Vejam os dez primeiros:

1- O Iluminado; 2- O Exorcista; 3- O Massacre da Serra Elétrica; 4- O Silêncio dos Inocentes; 5- Tubarão; 6- O Chamado; 7- Halloween; 8- Psicose; 9- Seven; 10- O Bebê de Rosemary

Acho que eu só mudaria a ordem (veja a lista completa aqui). Por exemplo, como assim, O Bebê de Rosemary atrás de O Chamado, Halloween e Seven? Pode uma coisa dessas? Sou suspeito pra falar, porque “Rosemary” não é só o meu filme de terror favorito (meio pau a pau com O Iluminado), como também um dos que mais gosto, assim, de todos os gêneros. A construção de tensão e de clima no filme é invejável, com a protagonista não tendo pra onde fugir, mesmo morando no centro de Nova York: totalmente apavorante. Eu o colocaria em primeiro ou segundo lugar, mas provavelmente pouca gente concorda comigo. A briga maior, que eu sempre vejo por aí, é entre O Iluminado e O Exorcista mesmo. A lista prefere o primeiro, e eu também. O Exorcista é realmente muito assustador, e, embora eu aprecie mais o clima de O Iluminado, gosto bastante dele. Sei que estou correndo o risco de ser apedrejado por isso, mas eu vou ter que concordar com os críticos americanos que consideram o filme do William Friedkin misógino. Ah, gente, não dá pra negar: a possessão da garota pelo demônio representa a fase da puberdade, da perda da inocência. Ta cheio de nojos a essa fase feminina, como mostrar a garota se masturbando com um crucifixo. E os padres (homens) vão até ela para expulsar o demônio, ou, humm, para voltá-la àquela inocência pura a qual as mulheres nunca deveriam sair. Eu li o livro do William Peter Blatty que o filme se baseou, e ele é igualmente misógino, mas o William Friedkin reforçou ainda mais a ideia. Claro que se considerarmos O Exorcista como um filme de terror de puro entretenimento (sem deixar de ser arte), feito para assustar, pô, ele super cumpre seu objetivo. Mas tem esse outro lado... Em breve eu tomo coragem de escrever um texto sobre ele analisando melhor esse ponto.

Sobre O Massacre da Serra Elétrica, eu nunca vi inteiro. Vi uns pedaços soltos e achei o clima bem original, bem estranho e assustador. Assim que possível confiro ele todinho. E fiquei feliz de terem incluído O Silêncio dos Inocentes em quarto lugar. Um batalhão de críticos não consideram “Silêncio” um filme de terror, porque eles não conseguem levar o gênero a sério, e amam esse filme, logo usam expressões como “drama psicológico”. Balela. É terror sim, e sem medo de ser, do mais puro e inteligente. Se bem que aí podemos entrar em outra questão: até que ponto a linha que divide o suspense do terror existe? Porque, sinceramente, eu concordo com a inclusão de Psicose na lista (só que, de novo, numa posição mais privilegiada), mas sei que um monte de gente reclama que “ah, não é terror, é suspense...”. Bom, pra mim é um suspense com toques de terror, assim como outro do Hitchcock, Os Pássaros. Opa, descobri um que está faltando na lista. Ah, e se incluíram O Chamado (que eu gosto), porque não O Sexto Sentido, ou O Nevoeiro? Outro filme que gostei de ver aí foi Enigma do Outro Mundo (14ª posição), provavelmente meu favorito do John Carpenter. Já viram? Mas, bem, agora que to pensando, faltou A Mosca, do Cronenberg. É um filme bem cultuado (e muito bom). Só que, vem cá, Evil Dead (15º lugar)? Eu sei, eu sei, é um marco do trash, é um cult, foi feito com uma ninharia de orçamento, não dá pra levar a sério, etc etc. Mas colocá-lo na frente de Carrie (16º), A Noite dos Mortos Vivos (17º) e A Profecia (18º)? Tudo bem que em uma outra lista da Entertainment Weekly, dos 500 melhores filmes de todos os tempos (desafio alguém a criar um troço mais abrangente), Evil Dead foi o filme de terror mais bem colocado, na frente de O Iluminado (!). Bizonho... Carrie sem comentários, pra mim o filme merece estar em qualquer lista só por conter a cena que mais me faz gritar com a tela (àquela do coroamento, do pré-banho de sangue). Ninguém sabe usar a câmera lenta a favor do suspense como o De Palma (vide Os Intocáveis e o carrinho do bebê caindo da escada). E é incrivelmente superior ao romance do Stephen King. A Profecia não acho nenhuma maravilha, mas até gosto. Tem umas cenas antológicas, e assusta, então ta OK. Ah, e eu sou muito estranho por nunca nem ter ouvido falar de Henry: Portrait of a Serial Killer (20ª posição)? Agora, Um Lobisomem Americano em Londres (19ª posição), gente, é demais. Adoro esse filme. É uma das melhores misturas de terror e comédia já feitas, e ele ganha muitos pontos por se levar o mínimo a sério possível. É divertidíssimo e constantemente descrito como o melhor filme sobre lobisomens. Ouvi uma notícia de que ele vai ganhar um remake, agora, me digam uma coisa: existe alguma chance da refilmagem incluir a cena do cinema pornô? Não, né? E aquela em que o David Naughton anda por Londres pelado? Ou qualquer das aparições do amigo morto? É, eu acho que não. Fiquem com o original, que é o que há em matéria de humor negro. E, eu sei, o Halloween já passou, mas nunca é tarde pra rever algum desses filmes. Eu jamais serei uma pessoa plenamente realizada sem terminar um texto sobre filmes de terror com essa frase: bons sonhos, booooohhhh (onomatopéia referente aos fantasmas – ah, me deixem ser feliz).

sábado, 7 de novembro de 2009

BEM-VINDO À CASA DE BONECAS – “Pessoas especiais” não são bem-vindas

Finalmente consegui ver Bem-Vindo à Casa de Bonecas (1995), graças a um amigo, que caridosamente baixou o filme pra mim. Se você não viu, veja! Mas não espere encontra-lo numa locadora mais próxima, porque ele não está disponível em DVD no Brasil. E nem vai estar, suponho. É um desses filmes que algum desinformado aluga por achar a capa bonitinha ou a sinopse interessante, mas volta alguns minutos depois à locadora pra reclamar, tipo “que coisa é essa?!”. Não tenho certeza, mas devem ter algumas pesquisas sobre o número de pessoas que vão conferir algum filme do Todd Solondz (do estranho e excelente "Felicidade") e saem na metade da sessão. “Bem-Vindo” conta a história de uma garota, Dawn, que está na sétima série e sofre na escola por ser feia. Vítima de insultos e humilhações, sua vida dentro de casa não é nada melhor. Eu diria até pior, porque, vejam bem, se alguém te trata mal na escola, você logo corre, procurando refugio, no seu lar, né? Mas como, se sua família te trata da mesma forma? Ao contrário do desinformado que alugou o filme (se ele existisse nas locadoras, mas, hipoteticamente falando) e logo devolveu, chocado, pensou, aqui não teremos um happy end. Não espere uma história de superação, onde, no fim, todos vão acreditar que a beleza física não conta em nada... Onde todos formam um círculo e cantam uma canção de natal antes de se aconchegarem na lareira e abrirem os presentes (?). “Bem-Vindo” fala da realidade. Eu sou fiel à lei de que o cinema não precisa retratar a realidade do jeito que ela é. Na verdade, acho que o cinema serve muito bem pra ser uma fuga da realidade, pra gente se abster dos problemas por umas duas horas... Se é isso que você procura, vá de algum musical. Aqui, a realidade é o mais real possível. Ou seja, um inferno.

Se bem que o Todd Solondz, também roteirista, faz um retrato da adolescência e da vida fútil dos subúrbios de uma maneira até meio caricata. Só que sem deixar de ser verdadeira, real. Tem quem ache exagerado demais a visão dele das crueldades da adolescência, que ele coloca tudo que há de ruim no mundo nas costas de Dawn. Mas foi essa a intenção. Fazer uma caricatura da realidade, que não deixa de ser real, oras. O melhor exemplo disso é o ambiente da casa da protagonista. Sua irmã mais nova, de uns 7 anos, é o que todo mundo chama de “ooohhh, que linda!”. Olhos azuis, um rosto angelical, magra, lourinha, etc. E ela vive andando pela casa vestida de bailarina. Mais caricatural impossível. Enquanto a mãe da família baba pela pequena, a mimando em tudo, ela trata mal a pobre Dawn, que é chamada pelos colegas da escola de “cara de cavalo”. A irmãzinha, tão novinha, logo nota que ela tem vantagem sobre a irmã mais velha, e não perde a chance de usar isso contra Dawn. Essa, por sua vez, olha pra irmã, sempre sendo elogiada por todos, e logo conclui: como você tem sorte. Alguma coisa na cultura de Dawn a ensinou que nascer bonita é ser muito sortuda. E é mesmo. Em dado momento, quando está sendo agredida por uma valentona da escola, Dawn pergunta porque ela a trata mal, no que a agressora responde: “porque você é feia”. Numa das cenas mais cruéis, a mãe reparte um pedaço de bolo para toda a família, mas deixa Dawn sem comer. No final, o seu pedaço do bolo que ela não teve a chance de experimentar é repartido pela mãe aos dois irmãos. Um é inteligente, a outra, bonita. E Dawn, por causa da má-sorte de ter nascido daquele jeito, fica sem chocolate.

Mas tudo isso é tratado da forma mais diferente do convencional possível, e “Bem-Vindo” não é, em absoluto, um melodrama feito sob encomenda pra se chorar do início ao fim. Quer dizer, dá um aperto enorme no coração em várias horas, e é tudo cruel demais. Se a gente quase não aguenta assistir a tanta hostilidade, imaginem pra personagem, como não é. Mas o que mais gosto no filme é que o Todd Solondz, ao invés de fazer daqueles que maltratam a Dawn malvados e ponto, ele, na verdade, dá voz a esses personagens. Nós conhecemos a história por trás de um dos meninos mais detestáveis da escola de Dawn, que, inclusive, ameaça estupra-la. Vemos que ele sofre por não ser popular, por também ser “diferente”, inclusive não sendo convidado para as festinhas do colégio. Assim, ele desconta tudo naqueles que estão por baixo, por ser agredido por quem está por cima. Mas só enquanto estão todos vendo. Mais tarde, quando ele e Dawn, os dois excluídos, se encontram, fora da escola, eles acabam se tornando amigos. Até se beijam. Mas, ao fim do encontro, o garoto avisa: “se você contar o que aconteceu aqui pra alguém, eu te estupro, e dessa vez falo sério”. Talvez a parte mais tocante acontece quando Dawn sonha que todos ao seu redor dizem que a amam. A gente até tenta ter alguma esperança, mas no fundo sabemos que isso não é bem o estilo do Todd Solondz. Aliás, o diretor norte-americano já é uma figura e tanto. Começou fazendo produções independentes totalmente fora do padrão, como essa, e, depois de se tornar mais ou menos famoso, continua fazendo produções independentes fora do padrão. É ou não é de tirar o chapéu? Mas ele tem uma visão pessimista do mundo, e trata disso de uma forma ácida, às vezes irônica, e até com uma pitada de humor. Mas bem pouco, e um humor diferente. A gente definitivamente não consegue rir da história de Dawn. É um filme seco, cru, mas que mexe com a gente, mesmo que seja pra nos deixar pra baixo. Cumpre seu objetivo. A protagonista não é apenas uma coitadinha, ela está longe de ser eticamente perfeita. Na realidade, de tanto sofrer insultos, ela passa a ofender a única pessoa que consegue, seu único amigo, que está mais ou menos na mesma situação que ela. Em outro momento, Dawn se apaixona por um cara mais velho e super popular que começa a tocar guitarra na banda do irmão nerd, em troca de aulas de computação. Mesmo vivendo num mundo completamente hostil, Dawn ainda é uma sonhadora. Ela pede informações ao irmão sobre esse cara, e, de mal grado, ele lhe diz que o tal guitarrista sai com qualquer garota, desde que esta esteja disposta a fazer tudo que ele lhe pedir. E a Dawn: “aquilo das relações sexuais?”. O lugar que Dawn mais gosta de ficar, e que mais tarde é destruído pela mãe para que aconteça uma festa de casamento, é o seu clube no jardim, uma espécie de casa na árvore. Dawn o define como “clube das pessoas especiais”, e quando vai perguntar ao cara que ela se apaixonou se ele quer ser vice-presidente do clube, ele diz: “pessoas especiais? Dawn, você sabe o que isso significa? Pessoas especiais são a mesma coisa que retardados”. Se você curte os anti-Sessão da Tarde, bem-vindo à casa de bonecas.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

FALE COM ELA – Momentos que falam

Leia a primeira crônica que escrevi sobre Fale com Ela, há um ano, aqui.

Pra muitos, Almodóvar vem, com o passar dos anos, perdendo as maiores características que o fizeram famoso. O pessoal que prefere o cineasta de começo de carreira, onde ele se dedicava mais à comédia e ao kitsch, normalmente não é lá muito fã de filmes como Fale com Ela, de 2002. Bom, eu já penso diferente. Pra mim Almodóvar amadureceu com o tempo, e está, agora, no ponto máximo de sua carreira. Suas últimas cinco obras (consecutivas!) são, na minha opinião, obras-primas: Carne Trêmula, Tudo Sobre Minha Mãe, Fale com Ela, Má Educação e Volver. Discordo que Almodóvar deixou de lado as situações extremamente bizarras dos seus primeiros trabalhos, nesses últimos filmes. Elas ainda estão presentes, assim como outras de suas marcas pessoais, mas o fato é que Almodóvar amadureceu. Além disso, agora ele está investindo mais no melodrama, gênero que uma porção de diretores tenta fugir ao máximo, com medo de cair na pieguice. Almodóvar não tem medo de ser sentimental, porque, de fato, ele tem controle sobre nossas emoções, sobre as situações impostas por seus roteiros altamente originais. Talvez um dos únicos autores ainda em atividade que se dedicam muito mais ao sentimento que uma imagem ou uma cena traz do que ao choque, que pode levar às lágrimas fáceis. Não existe lágrima num filme do Almodóvar que não seja necessária. Nem dos personagens e nem nossas.

Na história, um enfermeiro cuida de uma bailarina em coma por quatro anos, segundo ele, os melhores de sua vida. No começo, pela dedicação do homem, pensamos que os dois deviam ter uma relação muito próxima, muito íntima. Mas estamos enganados. Num flashback que mostra a vida de ambos antes do acidente que a fez parar numa cama de hospital, descobrimos que os dois mal se conheciam. A casa dele ficava em frente à escola onde ela fazia aulas de balé, e, sendo solitário e passando horas de seu dia na janela, ele se apaixona por aquela desconhecida. Depois de um ou dois encontros meio desastrosos, ela entra em coma. Ele, que já havia feito cursos de enfermagem para cuidar da mãe doente, passa a se dedicar àquela moça. Além dos cuidados básicos, ele também faz algo inesperado: fala com ela. Conta-lhe o enredo de um filme que viu, de uma peça que lhe emocionou, conversa com ela da forma mais natural possível porque, como o próprio personagem diz, como podemos ter certeza de que ela não está ouvindo? E essa é só uma das histórias. Na outra, um jornalista começa a namorar uma toureira, que, num dia em que tem que tomar uma difícil decisão para sua vida pessoal, acaba sofrendo um acidente com o touro, que também a deixa em coma. Agora os dois homens começam a conviver juntos. Quantos filmes ruins Hollywood consegue fazer com uma história dessas?

E Almodóvar, sendo o mais sensível diretor em atividade, sabe o que fazer. Existem momentos em Fale com Ela de uma simplicidade quase banal, que em outras situações nós nem notaríamos, que dirá nos emocionaríamos. Mas Almodóvar adora fazer desses momentos simples algo maior, cheio de poesia. É o caso da troca de roupas da toureira, ou de outra troca de roupas: àquela em que a câmera focaliza por cima a moça em coma, enquanto os enfermeiros a trocam. Almodóvar sabe o que filmar, a hora de filmar, como filmar, qual música colocar ao fundo, se deve ser em câmera lenta ou não, além de como os atores devem reagir a algo. Ele sabe como construir momentos de uma emoção tão verdadeira, mas tão verdadeira, raramente vista no cinemão, que nós perdemos qualquer argumentação. Fale com Ela é, acima de qualquer outro do Almodóvar, um filme de momentos. A mais antológica cena é aquela em que vemos um filme mudo (ele também gosta de usar a metalinguagem de filmes dentro de filmes) onde um homem toma uma poção e encolhe, encolhe, encolhe até... adentrar dentro da vagina de sua amada. Pra nunca mais sair. Começa pelo fato de que Almodóvar não tem nenhum receio de simplesmente dar pausa na trama central pra contar outra trama, que dura quase dez minutos. Ele tem controle sobre seu filme, e não tem medo de que o ritmo do mesmo pise na maionese. Nós deixamos o envolvimento com aqueles personagens que já estamos apegados para acompanhar essa pequena história que, por sinal, faz completo sentido com o enredo principal. Em quantos outros filmes podemos ver um homem entrando dentro de uma vagina gigante? Melhor: em quantos filmes uma cena dessas é poética, e não chocante, impactante? É isso que faz de Almodóvar especial. Ele é único.


Não dá pra negar que grande parte de seus filmes mostram muito mais personagens femininos do que masculinos. Almodóvar não nega que se interessa e que gosta muito mais de filmar as mulheres e suas tramas de solidão, incertezas ou neuroses. Eu demorei um pouquinho pra notar que existe algo em Almodóvar muito mais complexo do que simplesmente uma paixão pelo “universo feminino”. É mais do que isso. Quando vi Tudo Sobre Minha Mãe pela primeira vez, foi paixão à primeira vista, e ficou mais do que claro pra mim de que ali havia uma das maiores homenagens às mulheres já concebidas pelo cinema. Mas tinha mais... Os personagens homossexuais, homens presos em corpos (que sonham em mudar) que não lhes parecem apropriados: aquilo me encucou. Talvez eu só tenha notado essa fusão dos gêneros depois de conferir Fale com Ela. É exatamente isso que Almodóvar parece querer dizer. Apesar de sua paixão assumida pela mulheres, aqui ele mostra os homens de uma forma pouco vista no cinema. Um dos personagens masculinos chora sem dó quando vê um belo número de dança, e depois vamos descobrir que é por ele não poder compartilhar esses momentos com a mulher que ama. Sem contar a questão mais social, já que uma das personagens femininas exerce uma profissão normalmente exercida por homens. Ela é toureira. Fica claro pra mim que Almodóvar quer confundir os sexos, anular as características que o cinemão impôs a cada um dos dois. Isso sem falar no personagem do Javier Cámara, que é, de longe, o mais complexo deles (e o favorito do Almodóvar, de todos os seus filmes, contando apenas os masculinos). Depois de viver anos cuidando da mãe, ele acaba sendo um pouco assexuado. É uma criança inocente, sem maldade. Mas aí ele se apaixona por àquela moça que vê pela janela, e as coisas se complicam, porque uma criança nunca está pronta para um relacionamento adulto. O próprio Almodóvar o definiu, entre outras coisas (já que seus personagens não podem, de maneira nenhuma, serem redimidos a apenas uma expressão), como “psicopata doce”. Ele não tem noção de seus atos, em alguns momentos, e se leva pela emoção. Por isso nós não julgamos suas ações finais. Nós seguimos gostando dele, torcendo por ele. Ninguém, até aqui, havia conseguido fazer um personagem que comete atos como estes, e que, no fim, não cai no nosso conceito. Nós o compreendemos, porque Almodóvar nos mostra seus motivos, nos mostra seu passado, abre espaço em seu psicológico para que o entendamos.

Fale com Ela é uma história de amor. Em todos os sentidos. É uma história de amor entre seus quatro personagens centrais, mas é também uma história de amor entre Almodóvar e seu cinema. Almodóvar ama sua trama, ama seus personagens e suas situações. Ele ama o que faz. Isso fica claro no cuidado com que focaliza cada um dos momentos, como já disse acima, e também na forma como faz sua trama caminhar. Acostumados que estamos com o cinema da expectativa, que nos prepara desde a primeira cena para as reviravoltas finais (às vezes desde o marketing, com frases do tipo “não revele o final”), nos assustamos com o que Almodóvar cria aqui (e não só aqui, já que todos os seus últimos filmes contém essa característica). A história de Fale com Ela (e de Má Educação, mas falo dele mais pra frente) apresenta uma das maiores surpresas que eu já tive o prazer de presenciar em um filme. Só que, o mais espantoso, é que as reviravoltas da trama soam de forma incrivelmente natural. O roteiro vai percorrendo, nós vamos nos envolvendo com os personagens, com as situações, nos emocionando, e, de repente, sem avisar, sem dar margem para uma preparação, ele parte pra outra rota. Demoramos um pouquinho pra nos recompormos, mesmo que essa surpresa não apareça de forma chocante. E ta aí outro ponto. Fale com Ela trata de temas pesados, fortes mesmo. Mas, com a maestria de um gênio, esses temas não aparecem saltados à tela. Nenhum deles é maior do que a história. Nada é maior no filme. Tudo anda em harmonia, em equilíbrio. Da complexidade dos personagens às reviravoltas, tudo é natural, cheio de lirismo. É cinema de amor, feito com cuidado, como um pintor que se dedica a um quadro, como um compositor que gasta horas compondo uma canção. É uma relação de amor de Almodóvar com seu cinema e de nós com o cinema de Almodóvar.

E, se vocês permitem que eu use apenas uma palavra para definir tal obra-prima, diria que Fale com Ela é um filme sobre a comunicação. Não é engraçado como ligamos essa palavrinha à boca e ao ouvido? Ao falar e ao escutar? Mas a comunicação de Fale com Ela não está ligada ao óbvio. Ele, na verdade, quer nos dizer que existem outras formas de se comunicar. Não apenas na fala. Às vezes num som, numa música. Aqui Almodóvar apresenta dois momentos que contam com importante participação da música brasileira: um deles mostra um show de Caetano Veloso, com uma performance verdadeiramente sincera, e em outro, uma canção do Tom Jobim e do Vinicius de Moraes, cantada pela Elis Regina, é tocada ao fundo de uma tourada (Almodóvar faz até das touradas um troço belo, vê se pode?). Há também a comunicação pela dança, pelos movimentos do corpo. O filme abre com duas bailarinas num palco, de olhos fechados, que usam toda a expressão que seu corpo lhes permite para transmitir as sensações, os sentimentos. Um homem, também no palco, tira várias cadeiras da frente das mulheres, pra que elas não se choquem contra esses obstáculos enquanto caminham com seus olhos cerrados. Além de uma metáfora à própria trama do filme, essa representação é também o modo de Almodóvar nos mostrar outras formas de expressão. E o que dizer da homenagem ao cinema mudo, que transmite emoções sem precisar da fala? O maior exemplo dessa mensagem da comunicação é o da própria situação dos personagens. As duas mulheres estão em coma, e, claro, não podem falar. Só que, mesmo não podendo utilizar as falas, elas causam naqueles homens grandiosas sensações. Ambos se emocionam com elas, nós nos emocionamos com elas, e as duas permanecem sem falar. O verbo presente no título do filme não está se referindo apenas ao ato simples de abrir a boca e soltar palavras. É um falar diferenciado, o falar pelas emoções. Coisa que Almodóvar sabe melhor do que ninguém. E está nos ensinando.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

UM ANO DEPOIS...

Esse é o filme e essa é a cena que melhor representam a felicidade. E hoje eu to muito feliz. Com um sorriso no rosto mesmo

É com muita emoção que venho aqui para dizer que hoje o bloguinho está completando um ano de existência! O nosso bloguinho, como sempre gostei de deixar claro, onde eu tento expor um pouquinho minha relação de amor com o cinema. Não gosto que chamem meus textos de críticas, e nem que me chamem de crítico. Crítico, eu? Prefiro que me chamem de “amante do cinema”, ou de “aquela-criatura-que-escreve-sobre-filmes-com-toda-a-paixão-e-emoção-que-lhe-vêm-no-momento”. Ou de Luciano mesmo, pode ser. Ah, o bloguito é nosso, de todos nós, porque, vem cá, o que é um blog sem seus leitores e comentaristas? Pode ser o mais estupendo do mundo, mas, corrijam-me se eu estiver errado, se ninguém o lê, ahn... qual a graça? E eu tento abrir o máximo de espaço pra vocês me darem sugestões sobre quais filmes comentar, sobre novas enquetes, além de joguinhos legais, vídeos, etc. Tento fazer desse espaço o mais aberto possível. Mas os bolos e as barras de chocolate pra comemorar o nosso 1 ano juntos vocês podem mandar pra mim, que eu faço o sacrifício de comer por todos vocês. Vai ser difícil, mas o que não faço pelo bloguinho?

Pra quem nos acompanha desde 3 de novembro de 2008, sabe muito bem das mudanças e dos perrengues que já passamos. Primeiro, comecei escrevendo e postando um texto novo a cada dia. Mas minha vida foi ficando cada vez mais apertada, e, quando eu comecei a ver uma queda na qualidade dos meus textinhos, resolvi mudar. Agora escrevo dia-sim, dia-não. Eu sei que os dias-não são tristes pra vocês (cof, cof), mas pra mim desse jeito ficou bem melhor. Dá pra eu respirar, de vez em quando. Apesar de eu adorar escrever (só não gosto da hora de postar – sempre dá problema com as imagens), todo santo dia fica cansativo. Se bem que meus textos estão ficando cada vez maiores. Não é minha intenção, juro. Eu não me esforço em momento algum pra fazer um troço grande, e assim parecer (só parecer) respeitável. Mas também não sei explicar bem o motivo de meus textos virem crescendo e crescendo a cada dia. Só sei que no começo eu apenas citava algumas coisinhas sobre o filme que estava comentando, falava sobre as cenas que mais me marcaram, às vezes sobre a repercussão dele, etc. Modéstia ao quinto dos infernos, mas meus textos tiveram uma evolução bem notável, não acham? Assim como os comentários de vocês, que vêm ficando cada vez melhores. Como já disse, o que mais gosto no blog, e o que mais acho importante, é a interação entre todos nós. Minha intenção maior ao criar um blog era conhecer pessoas que amassem o cinema tanto quanto eu. E eu cumpri meu objetivo. Fiz grandes amigos aqui. E as discussões que rolam nos comentários são sempre um máximo. É bem comum, num blog, aparecer um chato que não concorda com a opinião de alguém e que parte pra baixaria. Quando comecei isso aqui, um monte de gente me avisou pra preparar o capacete pras pedradas dos fãs de Speed Racer. Mas isso só aconteceu umas duas vezes (e nem foram com os admiradores do filme dos carrinhos). No geral, existem muitas opiniões diferentes, nos comentários, mas todos vocês respeitam os pontos de vista contrários aos seus próprios. Isso me alegra demais!

Ah, e os leitores mais antigos provavelmente se lembrar daquela vez em que, sem querer, eu apaguei 25 postagens, junto com os comentários de vocês referente a elas, sem mais nem menos. Foi uma catástrofe! Depois custou pra eu recolocar os textos, que, felizmente, eu tinha guardados no computador, mas, mesmo assim, os comentários de vocês foram pro beleléu (não me perguntem onde isso fica). Bom, vamos aos números. Em um ano de bloguinho foram mais de 40 mil visitas (se bem que não dá pra confiar nesse contador, porque a técnica dele de contar não é lá muito honesta) e 214 postagens (essa é a 215ª), além de um monte de comentários que o blogger não diz quantos, no total (agradeço enormemente a cada um de vocês, que passam aqui sempre pra deixar um “oi” pra mim ou pra deixar seu parecer sobre algum filme – os comentários são a coisa mais importante pra um blogueiro, podem acreditar). Foram também 8 enquetes (sem contar a que ta acontecendo agora), com uma média de 76 votos pra cada uma delas. E... acho que é isso! Ufa! Torço pra que vocês continuem acompanhando e comentando, porque eu não pretendo parar. Agora, pra finalizar, em homenagem ao bloguinho, vou contar a única, porém engraçadíssima, piada sobre filmes que conheço. Seguinte: um cara chamado Oscar tinha uma horta no jardim de sua casa, e a adorava. Cuidava dela todo dia. Daí, certa noite, uma tempestade destruiu a horta de Oscar, e ele, destruído, saiu correndo, sem rumo, sem destino, desolado... Qual o nome do filme? Oscar sai doido da horta perdida. Entenderam? Ah, gente, Indiana Jones. E vocês que achavam que meu maior dom era escrever crônicas de cinema, né? Isso porque ainda não tinham conhecimento de meus dotes piadísticos. Telefone para contato e agendamento de shows: 3066-66... Favor falar com meu agente. Ah, ano que vem, na comemoração de dois anos do bloguinho, tem mais (piadas). Eu sei, vocês mal podem esperar.

domingo, 1 de novembro de 2009

TIROS EM COLUMBINE – Abaixe esse pedaço de frango, senão eu atiro

Tiros em Columbine é um desses filmes acima do bem e do mal. Quem somos nós, meros mortais, para fazermos qualquer crítica a um dos documentários mais Importantes dos últimos anos? O Michael Moore, talvez o documentarista mais famoso de todos os tempos, alcançou enorme prestígio (e muitos inimigos) quando lançou “Tiros”, em 2002. Ficaram famosas as histórias dos 13 minutos seguidos que o filme foi aplaudido durante sua primeira exibição, e do discurso do Mike ao ganhar o Oscar. Ele disse algo como: “Faço não-ficção em um país que numa eleição fictícia elegeu um presidente fictício que nos mandou para uma guerra fictícia”, e finalizou com “tenha vergonha, Mr. Bush”. Isso porque fora proibido qualquer menção à guerra do Iraque nos discursos da cerimônia. Mas, óbvio, todo mundo já sabia que o Michael não ia ficar calado, se ganhasse o Oscar. E “Tiros” estava sendo tão aclamado, que se ele não levasse o prêmio de melhor documentário daquele ano, o pessoal se revoltaria. Mas esse discurso só foi novidade pra quem não conhecia o autor do best-seller Stupid White Men (Estúpidos Homens Brancos), e àqueles que detestam o Michael e, contra ele, na falta de argumentos, usam sempre expressões do tipo “esse gordo” como ofensas sem fundamento. Vejam o desnível: em Stupid White Men, o Michael, o maior crítico do ex-“presidente”, talvez um dos únicos americanos de esquerda (além de feminista!), fala sobre um planeta dominado por homens (não no sentido generalizado, mas sim àqueles com pênis) brancos que pensam que nos enganam destruindo o planeta pra encher seus bolsos de verdinha e aumentar seu nível de poder (o livro parte da eleição de mentirinha que elegeu o “presidente” Bush). E como vários americanos, irados, respondem a isso? O chamando de gordo, como se isso fosse a maior ofensa do mundo. O Mike realmente deve se importar demais com essas coisas (bocejo). A gente merece...

Mas vamos a Tiros em Columbine, pra muitos o melhor documentário do cara (eu não tenho certeza, já que também adoro Roger e Eu, Fahrenheit e Sicko). Aqui, o Michael parte do fato dos dois alunos que entraram numa biblioteca de uma escola num subúrbio americano, e mataram vários alunos, sem nenhuma razão clara. O filme começa com uma narração nos dizendo que se iniciava mais um dia comum na América: o fazendeiro fez suas tarefas, o leiteiro entregou o leite, o presidente bombardeou mais uma cidade cujo nome não conseguimos pronunciar... Já vão se acostumando, porque o Michael fala de temas sérios, mas sempre com o bom humor ácido e irônico que lhe é costumeiro. O tiroteio na escola de Columbine é só o começo de um leque de questões que o documentário vai abordar. Fala, principalmente, sobre a cultura do medo e da paranóia que existe nos Estados Unidos. Quer dizer: o nível de criminalidade está diminuindo, mas o medo coletivo só aumenta. Os americanos não param de comprar trancas pra suas portas, além de armas pra colocar debaixo do travesseiro (em um caso, literalmente). E, vejam bem, no Canadá, na Alemanha, na Inglaterra e em vários outros países, é vendido o mesmo tanto de armas que nos Estados Unidos. Então porque, ó dúvida, mais pessoas são assassinadas na Terra das Oportunidades? É essa a maior pergunta que o Michael faz durante o filme, e, até o fim, teremos uma resposta.

Pra vocês que acham que documentários são uma grande chatice, não temam: “Tiros” é divertidíssimo, engraçado mesmo. O Michael sabe usar tudo à favor do humor: a narração, a edição, os discursos hipócritas dos conservadores. Por exemplo, depois que nos é narrado os acontecimentos em Columbine, nós conhecemos as consequências do massacre. A principal delas é a paranóia americana, que já era presente antes, e só aumentou. O Michael nos conta um caso real de uma criança de 8 anos que foi suspensa da escola por apontar um pedaço de frango pra professora e dizer “bang, bang!”. O Mike não perde a chance, e inclui seu parecer numa narração: “Realmente, todas as crianças viraram monstros”. Mas, de quem é a culpa? Do Marilyn Manson. Num dos melhores momentos de “Tiros”, o Michael vai entrevistar o cantor de rock, que é acusado pela direita-cristã de ser má influencia para os jovens, e, consequentemente, o culpado pelas mortes em Columbine. Podia ser apenas uma entrevista interessante, onde o Marilyn Manson daria seu parecer sobre as acusações que caíram sobre ele. Mas o Mike vai além. Ele usa a edição para nos fazer rachar de rir com a burrice dos conservadores cristãos. Dois momentos são entrelaçados pela edição sarcástica: no primeiro, a entrevista com o Manson, sereno e muito inteligente em suas colocações; e, no outro, um protesto de um pobre cidadão contra o cantor, alegando que o problema da violência é totalmente culpa dele. Tipo assim: enquanto ouvimos protestos de um ser praticamente comparando Manson ao demônio, vemos o próprio roqueiro na entrevista mais coerente do filme, e, pasmem, nenhum pouco demoníaca.

Para quem costumava dormir nas aulas de História, o Michael apresenta um curta em desenho animado rápido, eficiente e, óbvio, muito engraçado, sobre a trama dos Estados Unidos desde as colonizações até à cultura do medo que se instalou no país. Michael acredita que toda essa paranóia que assola os Estados Unidos, único e exclusivamente, é culpa da mídia. É hilariante quando um âncora de um jornal diz: “Seja discreto. Evite que notem que você é americano”. O Mike, pra corrobar melhor sua tese, vai até o Canadá e, sem visar, sai pela rua abrindo a porta de todas as casas. E todas elas estão abertas. Não existe todo esse pavor inconsciente. Por que na América, apenas? Porque a paranóia gera lucro? Humm, pode ser. Pra finalizar, o Michael vai entrevistar o Charlton Heston, o presidente da Associação Nacional dos Rifles, que fez um discurso pró-armas poucos dias depois de Columbine, e, mais uma vez, depois que um garoto de 6 anos matou sua colega de escola da mesma idade, com a arma que trouxe de casa. Michael o joga contra a parede. Ao perguntar por que nos EUA, por que, Heston responde que isso se deve pelo “nosso passado sangrento”. No que o Michael ataca: “ué, mas a Alemanha e a Ingleterra não tiveram um passado sangrento?”. É claro que, lá pelas tantas, Heston deixa a sala, se negando a finalizar a entrevista, no que deve ser uma das maiores façanhas do Michael. Se bem que eu prefiro um outro momento do filme, quando o Mike entrevista o produtor daqueles programas de perseguição policial (branco) ao criminoso (negro), que fazem a cabeça dos americanos (“uau, deram uma porrada no bandido! Massa! Me passa o ketchup?”). Desculpa, gente, mas tenho que dizer: às vezes eu acho difícil acreditar que o Michael seja americano. Ele faz filmes e escreve livros cheios de humor inteligente (e já começa aí meus questionamentos sobre a real nacionalidade do Mike), nos faz rir e pensar, nos faz querer colocar a mão na massa pra mudar algumas coisinhas, e, acima de tudo, implementa em nossas cabeças a seguinte pergunta: esse é mesmo o país com maior poder da Terra? Oh, estamos perdidos. Mas se existem americanos como o Michael, e se seu humor corrosivo conseguir fazer com que outros americanos levantem o traseiro de seus sofás de couro e o sigam nessa luta contra a hipocrisia, então, aí sim, podemos crer em algo melhor pro futuro desse planetinha. Quantos filmes o Michael Moore precisa fazer até que o primeiro americano note como o resto do mundo ta se rachando de rir deles, e não com eles? Vocês podem achar que eu to sendo injusto, mas, sério, experimentem conversar com um americano, se tiverem coragem. Impressionante como eles acham que o mundo ta girando ao redor de seu umbigo. Se você perguntar pra dez americanos se eles gostariam de vir pro Brasil, eu tenho certeza que pelo menos metade vai responder: “ugh, aquele lugar cheio de índios?”. Não é culpa deles não entender muito de geografia e história. É que não há tempo pra essas coisas sem importância. Estão todos preocupados demais em comprar o máximo de munição pra proteger seu belo país contra esses africanos invasores. Depois de Tiros em Columbine, a gente vai pensar duas vezes antes de comer frango perto de algum americano. Pelo menos eu vou, que não quero meus miolos espalhados por aí.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

ENQUETE: QUAL O MELHOR FILME DO ALMODÓVAR?

María Barranco, Rossy de Palma, Julieta Serrano e Carmen Maura: as mulheres à beira de um ataque de nervos do Almodóvar

Serei bem sucinto (vou conseguir, vocês vão ver). Aproveitando que a estreia nacional de Abraços Partidos, o novo filme de um dos mais aclamados (e com razão) diretores da atualidade, o genial Pedro Almodóvar, está próxima (dia 20 desse mês), vamos para uma das enquetes mais difíceis de votar que já fizemos. Quiçá A Mais difícil. Porque, sério, como escolher um filminho só da carreira do Almodóvar, com no mínimo cinco obras-primas? Impossível sem ficar com dor na consciência. Mas creio que ninguém ficará tão indeciso na hora de votar quanto eu, fã número um do Almodóvar. Se pra escolher quais filmes entrariam na enquete eu já quase entrei em curto circuito, imaginem na hora de escolher apenas unzinho. Seguinte, primeiro pensei em incluir todos os seus longas, que não são tantos, em comparação com outros diretores (só que a carreira do Almodóvar está longe de terminar, eu espero). Mas aí pensei: poxa, pouca gente viu seus primeiros filmes, como Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón (1980), Labirinto de Paixões (82), Maus Hábitos (83), Que Fiz Eu Para Merecer Isto? (84), e A Lei do Desejo (87). Nem o fã número 1 do Almodóvar (moi) teve o prazer de conferir todos esses. E é quase unanimidade: Almodóvar amadureceu com o tempo, e seus primeiros filmes estão longe de serem tão bons quanto os últimos. Então, deixei esses de lado (mas, se tiverem oportunidade, não deixem de vê-los). Da década de 80, a primeira do Almodóvar, inclui apenas os mais famosos: Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (88) e Matador (86). Na década de 90, a mesma coisa. De Salto Alto (91), Kika (93) e A Flor do Meu Segredo (95), apesar de bons filmes, não estão no mesmo nível dos melhores do cara, e pouca gente os viu (nem sei se todos eles estão disponíveis em DVD no Brasil – acho que só Kika). Mas o primeiro dessa década, Ata-me! (1990), não posso deixar de incluir de jeito nenhum, senão vocês me comem vivo. Muita gente ama esse filme. Agora, de 97 pra cá, é óbvio que eu inclui todos. São suas cinco maravilhas, na minha opinião, seus melhores filmes: Carne Trêmula (97), Tudo Sobre Minha Mãe (99), Fale com Ela (2002), Má Educação (2004) e Volver (2006). Posso até ver a cena: o fã número 1 do Almodóvar (já sei, se eu falar isso de novo vocês param de ler) na frente do computador, tentando encontrar um motivo para votar em um desses cinco filmes, e não no outro. Complicado. Vocês têm pouco mais de duas semanas para votar, enquanto ficamos no aguardo do dia 20 (dica: para aliviar o nível de ansiedade, comam chocolate, porque está comprovado cientificamente que ajuda. E revejam os outros trabalhos do Almodóvar. Ver algum desses grandes filmes enquanto comemos chocolate – o que mais podemos querer da vida?).

Obs: releiam a primeira frase desse textinho. Ér... acho que não foi dessa vez.
Obs 2: já escrevi sobre alguns do Almodóvar. Meus textos de Carne Trêmula, Fale com Ela e Volver estão aqui, aqui e aqui, respectivamente. E, até o fim da enquete, quero escrever sobre mais alguns.
Obs 3 (e última, juro): hoje seria a última exibição de Los Abrazos Rotos na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e eu fui comprar o meu ingresso, feliz e saltitante, três horas antes da sessão começar. E, mesmo assim, estava esgotado. Agora só 20 de novembro mesmo. Se me dão licença, vou até ali comprar algumas barras de chocolate.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

E QUE MENTE...

Vocês já viram esse curta intitulado A Mente de Tarantino, de uma dupla carioca de diretores que o pessoal chama (não me perguntem o porquê) de 300ml? Provavelmente já. Acho que todo o mundo já tinha visto esse filme de 15 minutos. Menos eu. Quando meus amiguinhos dizem que eu vivo numa bolha, eu lhes lanço um olhar mortal, e daí eles retiram o que disseram, porque não são bobos. Mas às vezes eu tenho que concordar com eles (que os próprios não me ouçam). Nunca tinha ouvido falar de Tarantino’s Mind, eu, fã do próprio que dá título ao curta. E também gosto do Selton Mello, o protagonista. Fora que ele é bastante conhecido. Foi um dos filmes mais votados num festival de São Paulo internacional de curtas e tal. Opa, até dois dias atrás eu não sabia nada sobre o filminho. Hoje sou praticamente um expert no assunto. Como vocês, que não vivem numa bolha, provavelmente já viram, não vou resumi-lo. Agora, vamos combinar, a ideia de dois amigos (o Selton e o Seu Jorge) sentados num bar discutindo a teoria de que todos os filmes do Tarantino (menos Jackie Brown, que tem roteiro adaptado) são, na verdade, apenas um filme, é muito massa. Vocês podem atacar dizendo que é tudo viajado demais. Algumas coisas sim, é verdade (o que não as desmerece, porque ainda são engraçadas e interessantes). Mas outras... Por exemplo, minha parte favorita é aquela em que o Selton explica que um dos personagens de Pulp Fiction é o mesmo de um de Cães de Aluguel, com, inclusive, o sobrenome igual. Segundo nos diz o Selton, a maleta que o John Travolta e o Samuel L. Jackson vão buscar no começo de Pulp (cujo conteúdo nós não conhecemos – apenas vemos o reflexo de umas luzes brilhantes vindo de dentro dela) é a mesma que o Steve Buscemi leva consigo no final de Cães, contendo os diamantes roubados. Coincidência? Em se tratando da mente do Tarantino? Duvido. Também adoro quando ele diz que a noiva de Kill Bill é a própria personagem da Uma Thurman em Pulp, anos depois. Para estruturar sua tese, o Selton nos lembra que a Uma explica ao John, na deliciosa sequência do bar, que havia participado de um programa piloto onde interpretava uma especialista em... facas. Além do que, as duas personagens se expressam bastante pelos pés (mas isso tem mais a ver com a tara que o Tarantino tem pelos pés da Uma). Ah, e o curta tem mesmo o estilo dos filmes do Taranta, com os diálogos sem conexão com nada de relevante e com o Selton Mello (hilário!) soltando palavrões originais. Mas só é recomendado pra quem já viu os filmes do Tarantino. Quem ainda não viu, só tenho uma perguntinha: vocês vivem numa bolha?!

A mala dos diamantes de Cães de Aluguel?

domingo, 25 de outubro de 2009

O CRIME DO PADRE AMARO – A gente já conhece essa instituição caquética

Esses dias vi O Crime do Padre Amaro na escola, já que esse filme mexicano é baseado numa obra do Eça de Queirós (o vestibular nos aguarda, ó, pressão), com toda a minha sala de, ahn, 35 alunos. Eu pensei: se eles sobreviveram a Denise Está Chamando, a Adeus, Lênin! e a Roger e Eu (não tenho tanta certeza quanto ao último, já que 99,9% do pessoal dormiu de babar e roncar – foi assustador), “Padre Amaro” vai ser fichinha. E foi. Eles gostaram, eu acho. Mais do que eu, talvez. Não que eu não tenha gostado. Gostei sim, e qualquer filme contra a Igreja Católica (porque a gente escreve isso com letras maiúsculas?) merece todo o meu respeito. Mas “Padre Amaro” não é lá muito marcante, e, perdão, não merece o título que alguns lhe deram de “o filme que revolucionou o cinema mexicano”. Cuma? Será que essas pessoas conferiram os bárbaros Amores Brutos e E Sua Mãe Também, ambos anteriores a “Padre Amaro”, ambos filmes mexicanos bem mais interessantes?

Mas tenho um palpite do motivo pelo qual esse longa de 2001 ter sido considerado, na época, um marco para o cinema do país. É que ele fez uma dinheirama ao redor do mundo. Quer dizer, não pros padrões de Hollywood, que a bilheteria total de “Padre” é, certamente, o mesmo custo do cachê do gatinho coadjuvante de Garfield, mas prum filme mexicano, ele fez bonito. E o Gael García Bernal, que vive o protagonista, e que está bem, não brilhante, já era um rostinho conhecido antes do filme. Depois, então, vish, se tornou o ator mexicano mais aclamado atualmente. Pessoalmente, sou fã do Gael, e, mesmo sua carreira estando longe de se encerrar, ele já tem um número de excelentes atuações no currículo pra dar e vender. É sério! Qual outro ator pode dizer que participou de tantos grandes filmes? Mas, é claro, poucos atores (principalmente americanos) aceitariam fazer metade dos papéis que o Gael já fez (vide Má Educação). E, mesmo hoje sendo um ícone, ele ainda não se entregou às comédias românticas do cinemão. Pra mim não é só um dos melhores, como também um dos mais inteligentes atores em atividade. Opa, mas vamos a “Padre Amaro”. Na história, o padre do título é um recém-ordenado que se muda para a cidade de Los Reyes, para ajudar um outro padre, já velhinho. Daí ele vai conhecer toda a corrupção por trás da igreja e, mais tarde, se envolver num caso de paixão carnal com uma jovem. Pra ser sincero, achei tudo café-com-leite demais. Sei lá, imaginava um troço um tiquinho mais ousado, mais diferente. Até no estilo. Ele é, na verdade, muito convencional. Não que isso seja necessariamente um ponto negativo, até porque, é um filme bem feito, mas eu queria inovação na forma da história ser contada. Todas as críticas à igreja são bem-vindas, mas não há nada de novo, nada que nós já não saibamos. Se bem que eu não entendo um monte de coisas no cristianismo. Vamos ficar no básico: como que, mesmo hoje, séculos depois da época em que a igreja comandava e estava acima do bem e do mal, anos depois da revolução sexual, essa instituição continua vivinha da silva? Nunca escondi que acho que um dos primeiros passos para chegarmos numa sociedade igualitária é dando uma bela revisada nas leis de convivência e nas regras de mandamento do catolicismo (e nem vou entrar nas questões da pedofilia e corrupção que acontecem nesse meio). Há quantos anos essas regras foram feitas? Há um tempinho, né? E como a gente bem sabe (alguns fingem não saber), o mundo dá voltas, como diria a música pegajosa e deliciosa de Hairspray, e algumas coisas estão indiscutivelmente datadas. Eu disse algumas coisas? Se eu fosse parar pra falar o tanto que acho o catolicismo (e outras religiões também, mas, de novo, prefiro ficar com o que está mais próximo da minha realidade) machista, xiii, ficaríamos aqui a tarde toda.

A cena em que houve maior alvoroço entre meus amiguinhos foi uma em que o padre leva o manto de uma santa para fazer uma espécie de joguinho sexual com sua parceira. Ele pede para ela se cobrir, nua, com o manto. Foi um tal de “ohhh, como ele pode?”. Vai entender... Só uma curiosidade: minha escola é católica, mas não muito conservadora, e dou graças a isso. Quer dizer, nossa aula de ensino religioso abrange todas as religiões, e tem muito a ver com cada um encontrar a religião em que mais se encaixa, em que mais se sente bem. Tenho um amigo que estuda em outro colégio, também católico, e vive dizendo que, em sua aula de religião, ele é obrigado a rezar não sei quantas ave-marias e pais-nosso, sem dizer nenhum palavrinha a mais. Sem contestação. Isso porque vivemos numa época em que cada um tem o direito de se expressar como bem entender, porque se não...

E não é engraçado como o livro que inspirou o filme, escrito em 1875, tenha temas nenhum pouco envelhecidos, pros dias de hoje? Quem quer prova maior de que nada na igreja mudou durante os séculos de sua existência? Toda uma sociedade lutando por direitos iguais, várias minorias se unindo pra provar que o conceito da palavra “normal” é equivocadamente usado, e a igreja dando discursinho anti-camisinha? Ahh, dá licença. “Padre Amaro” não é “um dos filmes mais controversos já feitos”, como diz o seu cartaz, e nem de longe é melhor que Cidade de Deus, filme que bateu de frente com ele (e perdeu) em várias premiações, mas ele merece certo respeito por, pelo menos, tentar. E, surpreendentemente, tocou na ferida. Ou vocês realmente acham que a igreja ia ficar calada? Há! Aconteceram protestos por parte de católicos mexicanos, condenando o filme. Me digam uma coisa, esse pessoal é burro ou o quê (com todo respeito aos animais originais)? Porque até parece que quem faz esse tipo de protesto não sabe que tudo o que é proibido atrai multidões. Ta aí a bilheteria que não me deixa mentir. E, juro, eu não queria falar sobre isso, mas o texto foi correndo, e, vejam só, acabamos chegando no assunto das coisas proibidas. Diz um dos mandamentos católicos que é proibido desejar a mulher do próximo (porque não “o homem do próximo”? Porque os mandamentos são feitos por homens e pros homens). E a gente escolhe quem a gente deseja, por um acaso? Porque não se concentrar em mandamentos mais dignos, como “não estuprarás”? Ah é, porque a igreja não considera o estupro um pecado tão terrível assim, em comparação com o aborto. Foi mal. O que me faz lembrar de outra coisa: em um dos filmes do Monty Python, O Sentido da Vida, um casal católico com mais de uma dezena de crianças canta, no melhor estilo musical, uma canção cujo refrão repete: “não desperdice o esperma”. E tem gente que acha O Crime do Padre Amaro uma novidade bombástica e revolucionária?

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

UM BONDE CHAMADO DESEJO – Olé! Nada pode censurar tanto desejo

Quase 60 anos depois, A Streetcar Named Desire continua ardente, e ainda é o maior parâmetro de atuações e de "olé!" na censura

Me recuso prontamente a chamar Um Bonde Chamado Desejo, que está próximo de completar 60 anos de existência, pelo título que lhe foi dado aqui no Brasil. Uma Rua Chamada Pecado, como hoje é, felizmente, bem menos conhecido, não é constantemente incluído na lista dos top top clássicos à toa. A história por trás do filme deveria estar registrada em todos os livros de História, pra todo mundo ter conhecimento de como a sociedade vem caminhando, e de como ela era e tratava certos temas há alguns anos. No caso, o sexo, o desejo. Palavras que resumem o filme e que aqui no Brasil foram substituídas por uma só: pecado. Vejam só vocês, o sexo e o desejo eram ligados a arder eternamente no fogo do inferno. Mas as coisas mudaram, certo? Ok, alguns ainda acreditam nessa ideologia, não têm capacidade para mudar suas cabecinhas duras. E já dizia o ditado que quem vive do passado, é museu.

Mas esse ditado só se refere a esses pensamentos ultrapassados, não a obras imortais como “Bonde”. É triste que essa nossa geração viva cheia de preconceitos e não tenha tempo a perder com essas velharias. O que me faz lembrar de um fato que, se não fosse triste, seria engraçado. Uma amiga me pediu O Iluminado, o livro, emprestado, no que eu respondi que, ah, desculpa, eu não tenho, mas tenho o filme, serve? Ela, claramente apavorada, respondeu: “Eca! Não, nem morta. É muito antigo. Deve ser mal feito”. Eu: “Mal feito? Não! E nem é tão antigo assim. É da década de 80”. Ela: “É em preto-e-branco?”. Triste, triste... Tem um diálogo em “Bonde” que resume bastante isso. É quando a Blanche DuBois, uma professora, diz ser muito difícil dar aulas de inglês, já que seus alunos adolescentes não dão a mínima pras obras literárias escritas antes deles nascerem. É o mesmo que acontece hoje, com “Bonde” e com qualquer outro filme dos anos 90 pra baixo (o que explica o motivo dessa maldição que assola a terra, os remakes). Se forem filmes sobre relacionamentos humanos cheio de diálogos então, vish, é melhor desistir.

Mas se você é livre de preconceitos, parabéns, “Bonde” está disponível em DVD com uma versão sem cortes, do jeitinho que o diretor queria que fosse na época (com sorte você o encontra nas locadoras – ou lojas – mas, como bem disse uma leitora querida, a Camila, numa cidade – a dela – em que o filme mais procurado da locadora é Carga Explosiva 2, fica complicado encontrar os clássicos). Mas vamos do começo. O filme é baseado numa peça do Tennessee Williams, que já havia sido montada na Broadway e em algumas outras partes do mundo. Inicialmente, nenhuma produtora queria passar o texto de Williams pro cinema, fugindo de qualquer ousadia e da perseguição da censura como o diabo foge da cruz. Até que a Warner decidiu que, ah, vamos tentar! Pro filme foi chamado quase todo o elenco da peça, incluindo Marlon Brando, da montagem da Broadway, e Vivien Leigh, que fora Blanche numa montagem de Londres, e que já havia vivido uma personagem marcante do cinema há alguns anos, em E O Vento Levou. Williams participou da adaptação, e o diretor escolhido para o projeto foi Elia Kazan, o mesmo da Broadway. Kazan era conhecido por dar completa liberdade aos seus atores. Ele detestava que diretores dissessem que um ator deveria agir assim ou assado. Pra ele, o próprio ator deveria encontrar o personagem dentro de si, e sua versão dele poderia muito bem ser diferente da que o diretor havia pensado. Assim, tudo pronto para o início das filmagens, um órgão que censurava os filmes na época, ao ler o roteiro, exigiu que algumas partes fossem cortadas. Isso porque, pra época, a trama de “Bonde”, em que uma mulher, Blache DuBois, deixa sua cidade, no Sul dos Estados Unidos, para passar um tempo com sua irmã, Stella, e com seu cunhado, Stanley, que não gosta dela, era incrivelmente ousada. É um filme que fala, principalmente, sobre sexo. Blanche, professora de inglês, havia se envolvido com alguns de seus alunos, mais jovens do que ela, e, por isso, fora expulsa de sua cidade (Kazan chegou a cogitar em realmente mostrar essas cenas, mas no fim decidiu por manter do jeito que era na peça, com o passado da personagem apenas sugerido nos diálogos). Stella, mesmo tendo um marido grosso, arrogante e crianção, não conseguia parar de desejá-lo. Quando Blanche chega ao lar do casal, a tensão sexual entre ela e Stanley é muito forte, e só tende a aumentar até o clímax. Além do ex-marido de Blanche, agora viúva, ter sido homossexual. Esperando cortar o máximo dessa pouca vergonha, a censura tirou do roteiro qualquer menção à sexualidade do ex-marido de Blanche. E também queria cortar uma das cenas chave do filme, a do estupro.

Nesse ponto, Kazan e Williams se revoltaram, alegando que não tinha jeito de tirar essa sequência. Os censores pediram para que o estupro não fosse real, fosse apenas um sonho, o que não faria sentido algum. Finalmente, depois de muita insistência, o diretor e o roteirista conseguiram permissão para rodar a cena, contanto que ela fosse feita com “bom gosto”. Ah, e a censura só cedeu com uma condição: Stanley, o estuprador, tinha que ser punido no fim, sendo abandonado por sua esposa definitivamente, fato que não ocorre na peça. Tudo acertado, era ora de gravar.

As filmagens correram perfeitamente bem, até que “Bonde” finalmente estava pronto para entrar em cartaz. Na pré-estreia, uma cena em especial causou enorme alvoroço nos espectadores. A plateia gargalhou nervosamente quando Blanche flerta com um jornaleiro muito mais jovem do que ela. Como esse não era o objetivo, já que “Bonde” é um filme sério, Kazan resolveu cortar um pouco dessa sequência. Como se vê, o público também não estava lá muito acostumado com os temas da peça, o que só vem corrobar a tese de que “Bonde” sempre foi muito à frente de seu tempo. Daí, agora sim, se preparando para entrar em circuito oficialmente, a Legião da Decência, um órgão criado por católicos em 1933, condenou o filme, o que fez vários cinemas se recusarem a exibi-lo. E isso significaria suicídio de bilheteria. Tentando entrar em um acordo, a Warner, sem a autorização de Kazan, cortou mais cenas que a tal Legião considerava absurdas. Talvez a sequência mais famosa do filme, aquela em que Stanley grita “Stellaaa” (parodiada em alguma animação da Dreamworks – Os Sem-Floresta? – onde um animal gerado por computador grita “Stella”, imitando Marlon Brando), foi picotada por essa Legião católica. Cortaram justamente a expressão de Stella ao ouvir seu marido, que mostra todo o seu desejo por ele. Refizeram a trilha sonora dessa parte, tornando-a menos sensual e muitíssimo mais genérica e clichê. Tiraram também uma das falas antológicas, onde as duas irmãs conversam sobre o bonde que passa pela cidade, chamado desejo. Stella pergunta se Blanche já andou nesse bonde, no que ela responde: “Ele me trouxe até aqui, onde não sou bem-vinda”. Kazan ficou decepcionado, mas não conseguiu voltar com essas partes, e o filme acabou sendo classificado pela Legião da Decência com um “B”, de parcialmente condenável.

O impressionante é que, mesmo cortando todas as partes mais explícitas que mostram o desejo dos personagens, num filme que fala justamente – vejam só! – sobre desejo, mesmo assim, ele continuava pegando fogo. Até hoje “Bonde” é considerado um dos maiores exemplos de “olé!” na censura de todos os tempos. Eles podiam cortar o tanto que quisessem, mesmo assim “Bonde” continuaria irresistível. Prova disso é que o longa redefiniu o cinema a uma nova era, à era sem essa indecência não-sei-o-quê-da-Decência. Depois dele, se alguém ainda tinha alguma dúvida de que isso de sair cortando o filme alheio era uma falta de respeito não só com os realizadores, mas com o público também, passou a ter completa certeza. Hoje, felizmente, a versão que vemos é a completa, sem os cortes. E toda essa tramóia da censura é só um dos fatores pra “Bonde” ser um marco. O outro são suas atuações, que é quase unanimidade entre os atores e estudantes de artes cênicas como as melhores de toda a história. Ver Vivien Leigh e Marlon Bando em cena entoando os diálogos imortais de Tennessee Williams é uma experiência única, inesquecível, que algumas pobres almas nunca vão conhecer, por puro preconceito.

Não vou tentar reproduzir aqui alguns dos diálogos do filme, porque certamente cometerei injustiças e vou acabar esquecendo de vários. Só digo que adoro todos. Destaco o momento em que Blanche confessa grande parte de seu passado pra Mitch, um amigo da família, que a põe na parede. Nessa sequência, Mitch acende todas as luzes da casa, deixando Blanche desconfortável, já que ela gostava de estar sempre no escuro, talvez com medo de verem como ela não era mais uma mocinha. Uma bela metáfora, já que é nessa parte que Blanche aparece mais transparente, sem máscaras. Nós realmente a vemos. Outro ponto interessantíssimo é que não há vilão ou mocinho na história. Vocês podem atacar dizendo que Blanche era manipuladora, que pensava apenas em si própria, que tentava acabar com o casamento da irmã. Mas e as coisas que ela sofreu? Presenciou o suicídio do marido, foi expulsa de sua cidade, não é bem-vinda na casa da irmã, é estuprada. Daí chegamos a Stanley, que muitos consideram o vilão, equivocadamente. Por mais que ele seja grosso, trate mal as mulheres em vários momentos e abuse de sua cunhada, mesmo assim, ele vê seu casamento prestes a ser destruído, e ama sua mulher (ou não?). Por isso que seu grito, “Steeellaa”, ficou tão marcado. Nesse momento, se alguém tinha alguma raiva de seu personagem, deixa de ter, porque vê que ele era vítima de si mesmo e de sua impulsividade. Marlon Brando chegou a declarar que detestava Stanley, e que detestava qualquer homem como ele. Mas como era Brando, ele conseguiu dar mais nuances a um personagem que já era complexo, em sua atuação. Se bem que, ao contrário de 99% dos fãs da peça/filme, que preferem a Blanche ou o Stanley, meu personagem favorito sempre foi a Stella. O que não desmerece os outros dois, de forma alguma. Na verdade, os personagens de “Bonde” são alguns dos que mais gosto em toda a história do cinema. O relacionamento de Blanche e Stanley é interessantíssimo porque, primeiro, ela é uma sonhadora, uma romântica, e ele, o completo oposto. Stanley desperta nela o sentimento mais real de todos, poucas vezes visto em um conto-de-fadas: o desejo. Mas a Stella merece meu respeito porque ela vai contra ao que muita gente pensa sobre uma dona-de-casa, sobre uma mulher casada, e, principalmente, vai contra às mulheres “de família” que o cinemão atual cria. Não sei de onde tiraram que uma mulher, após se casar, está morta, não tem mais sentimento algum, não tem mais nenhuma vontade, já está completamente realizada. Corrijam-me se eu estiver errado, mas, na maioria dos casos, um casamento não significa a morte de ninguém. Stella é casada, mas segue viva, e, como tal, está cheia de desejos. Ela deseja o marido com todas as suas forças, morre de tesão por ele. Por isso eu adoro as expressões da Kim Hunter quando ela desce as escadas, porque, naquele momento, vemos como Stella tem ódio do marido ao mesmo tempo em que o deseja. Por mais que ele faça coisas inaceitáveis, mesmo assim, oras, ela é humana, e a carne fala mais alto. O desejo fala mais alto. E ela se entrega.

Anos mais tarde, em 1999, Pedro Almodóvar usou de várias referencias desse clássico (e de outro também: A Malvada) em uma de suas obras-primas, Tudo Sobre Minha Mãe. Mais um motivo pra gente se curvar diante do Almodóvar, por ele ressuscitar “Bonde”. Não que o filme estivesse morto e enterrado, não, longe disso. Mas, como eu disse, nem todos têm conhecimento do que estão perdendo, e fazem o sinal da cruz quando o ano do filme lhes é anunciado. 1951? Sai de mim que eu não te pertenço. Bom, eu faço minha parte apresentando “Bonde” e outras maravilhas a algumas almas perdidas, sempre correndo o risco de ser igualado a um dinossauro por gostar “dessas coisas”. Quer saber, que se dane! Sorte de quem conhece e ama o filme. O resto, aqueles que se recusam ao menos a tentar conferir, esses podem ficar com o último filme do Robin Williams, onde nos é ensinado uma lição inédita, que “o amor verdadeiro é lindo e puro”. Cruzes! Fico feliz de ter à minha inteira disposição todo o desejo desse bonde.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA – No caos do mundo dos homens, onde estariam as esperanças sem as mulheres?

Agora que comprei o DVD e revi Ensaio Sobre a Cegueira (só tinha assistido uma vez, no cinema), me sinto na obrigação de escrever mais umas palavrinhas sobre esse grande filme. Até porque, o primeiro texto que escrevi sobre o longa (também um dos primeiros do bloguinho), ta fraquinho que só ele. Não quero apagar esses meus textos mais antigos, mas sim, com o tempo, escrever coisas melhores sobre alguns desses filmes. Começo com “Ensaio”, que agora já li o romance do José Saramago. Na verdade, o li há um tempinho, e já to doido pra ler de novo. Se bem que é um desses troços inesquecíveis, assim como o filme. O Saramago não vendia os direitos de nenhum de seus livros, mas nem por reza brava. Segundo ele, a maioria dos diretores pensam que só porque têm os direitos de determinado livro podem fazer o que bem entenderem com ele. Mas aí, eis que surge Fernando Meirelles, interessado em adaptar o romance, e o escritor cedeu, que ele não é bobo. Saramago bem sabia que o diretor brasileiro de Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel tinha talento pra dar e vender. Só que, claro, não foi tão fácil como eu faço parecer ser. O F. Meirelles já havia tentado comprar os direitos há alguns anos, em vão. Daí ele resolveu adaptar um outro livro, e fez Cidade de Deus. Anos mais tarde, finalmente conseguiu os direitos. O resultado? Saramago, após ver o filme pela primeira vez, ao lado de Fernando, claramente emocionado, se mostrou mais do que satisfeito com a visão do diretor do livro que lhe rendeu o prêmio Nobel.

Na história, uma epidemia de cegueira se alastra por toda a humanidade. Começa com um homem que, no trânsito de uma grande cidade, tem seus olhos inundados por uma estranha brancura. Fica cego, mas não de uma cegueira comum, de trevas, e sim uma cegueira branca. Numa tentativa desesperada do governo de parar a epidemia, os primeiros a cegarem são mandados para um exílio, um lugar fechado bem parecido com uma prisão, com um manicômio. A única que não cega é a Juliane Moore, a mulher do médico, que vai para este lugar por vontade própria, para cuidar do marido. A adaptação é incrivelmente fiel ao livro do Saramago, até com alguns diálogos iguais, inclusive. Acho que só uma pequena sequência do livro não está presente no filme (provavelmente, por questões de ritmo). Essa fidelidade é justamente uma das maiores críticas que “Ensaio” recebeu. Dizem alguns que ele não tem liberdade própria, que é muito preso ao livro. É verdade que o filme é super fiel à sua fonte, mas ele não deixa de ser criativo, de ter vida própria. Inclusive em aspectos técnicos. A fotografia, abusando de tons brancos, é um personagem à parte, e é responsável por alguns dos mais poéticos e simbólicos momentos do filme. Mas o melhor de “Ensaio” é sua trama corajosa, pesada e cheia de significados. Todo o elenco anda junto para contar essa história. A Juliane Moore dispensa comentários, mas aqui até o Mark Ruffalo apresenta um atuação sincera e tocante. Tem também a brasileira Alice Braga, que a cada dia vem mostrando mais e mais que não é apenas “aquela lá” de Eu Sou a Lenda, e o Danny Glover, cujo personagem ganha nova dimensão no filme. O Gael García Bernal até como vilão (se bem que eu detesto esses títulos de “vilão” e “mocinho”) mostra seu carisma natural. Aliás, a sequêcia em que ele imita o Stevie Wonder foi improvisada pelo próprio ator, que ia sempre cheio de bom humor às gravações. Todo o elenco passou por uma longa preparação antes de começarem as filmagens. Fernando Meirelles disse em entrevista que o que ele mais temia que ocorresse era que “Ensaio” virasse um “filme de zumbi”. Pra que isso não ocorresse, os atores tiveram um preparo especial, onde seus olhos foram tampados para que eles pudessem aguçar e aprender a usar melhor seus outros sentidos. Assim como, em alguns momentos de maior carga dramática, lentes especiais foram postas em seus olhos, para que eles realmente cegassem. No fim, a sinceridade de algumas cenas emotivas, sem nunca ser piegas, é impressionante, e a gente conclui que tanto trabalho valeu à pena. Adoro o instante em que eles presenciam sua primeira chuva depois de muito tempo. É como se lavassem a alma. Dá pra sentir a excitação e a alegria dos personagens.

Mas nem todos gostaram. A maioria dos críticos, principalmente os americanos, detestaram o filme. Foi ele que abriu o festival de Cannes em 2008, com uma recepção bem fria. Acho que esses críticos se sentiram envergonhados com “Ensaio” por ele mostrar a humanidade em degradação. E como a gente bem sabe que americano se choca à toa... Já viu, né? Bom, é claro que algumas cenas, como a do estupro, causam mais do que incomodo. É apavorante ver mulheres sendo tratadas daquela forma, em qualquer circunstância. Mas elas não têm nada de gratuitas. A gente já viu um monte de cenas de estupro muito mais chocantes do que essa. E o Fernando Meirelles não banaliza esse momento, ele não quer o fazer parecer algo natural, sem grande importância. Para isso, era necessário um impacto. E, ao mesmo tempo, a sequência consegue ser sutil. Se isso não for genialidade, por favor, me digam o que é. Se bem que, pra mim, os momentos que precedem e que procedem ao estupro coletivo são ainda melhores e mais significativos. Antes, quando os membros da Ala 3, que tem posse sobre toda a comida, anunciam que só vão liberar os alimentos se lhes forem dados mulheres em troca, todos os maridos de plantão ficam chocados com tal oferta. Alguns homens, no entanto, dizem que, bah, o que é isso, em comparação com morrer de fome? A Alice Braga diz: “Quantos voluntários teríamos se eles tivessem pedido homens?”, no que algum homem responde: “Mas aí não é a mesma coisa”. É claro que é diferente, porque, nesse caso, a preocupação não seria com a dor e o sofrimento físico, e sim com a reputação. Em compensação, o primeiro cego não quer deixar sua mulher ir de jeito nenhum, nem depois que esta se diz disposta a juntar-se ao grupo de voluntárias. São as mulheres que vão ser estupradas, mas quem fica ferido? O orgulho e a dignidade dos machos, lógico.

É verdade que o filme fala sobre o ser humano, no geral. Como a humanidade reagiria em meio a uma catástrofe como essa? Quem seria solidário, num mundo de caos? E a ideia de não dar nome nem à cidade onde o filme e o livro se passam, nem aos personagens, não poderia ser mais acertada. Assim, “Ensaio” quer dizer que essa situação poderia acontecer em qualquer lugar com qualquer um de nós. É um filme de tema universal. Mas fica mais do que claro, no livro e no filme, um tratamento diferenciado entre os homens e as mulheres. Geralmente o pessoal generaliza, mas não é bem assim... Reparem como tem sempre um homem no ambiente para acabar com a paz deste. Eu simplesmente amo como, logo depois que as mulheres voltam do estupro, todas elas, juntas, limpam o corpo de sua companheira, que morreu. É um momento não só de solidariedade, mas também de força. Um tempo depois, a Juliane Moore anuncia a um dos estupradores que agora elas estão em número menor, já que uma das mulheres morreu. “Mas não se preocupe, que ela era um peixe-morto”, diz ironicamente ao agressor, que fica abalado. Os únicos momentos de companheirismo completo no filme, sem nada para atrapalhar, são aqueles que apresentam apenas mulheres. Sei que estarei arranjando encrenca e criando polêmica ao dizer isso, mas um mundo só de mulheres, não seria melhor? Peguem um livro de História qualquer e dêem uma folheada, depois me respondam. No filme, a cena mais feliz de todas é aquela em que três mulheres tomam seu primeiro banho em tempos. Elas conversam despreocupadamente. Toda a esperança contida no filme está nessa cena (e no final). Acaba com aqueles mitos de que duas mulheres conversando é sinal de problema, que um grupinho de mulheres reunidas não pode ter outro assunto em pauta que não fofocas, que mulheres não têm amigas, só concorrentes. Sem contar que a única pessoa que enxerga ser uma mulher não é mero acaso. Gosto de acreditar que existam pessoas tão boas quanto a personagem da Julianne Moore. Ao contrário desses dramas empacotados de Hollywood, Ensaio Sobre a Cegueira realmente nos faz querer ser pessoas melhores, como ela. Todos os horrores mostrados no filme são postos em contraponto com os atos da mulher do médico. E num mundo tão masculino como o nosso, a coragem de mostrar situações onde a mulher se apresente mais forte e solidária que o macho, já fazem dele um senhor filme de respeito.

domingo, 18 de outubro de 2009

PULP FICTION – Overdose de originalidade

Aproveitando a estreia de Bastardos Inglórios, o novo longa de Quentin Tarantino, vou falar um pouquinho desse que pra muitos é seu melhor filme. Grande parte dos críticos, cinéfilos e fãs do Taranta colocam Pulp Fiction no maior dos altares, um degrauzinho acima de Cães de Aluguel e Kill Bill (vai saber porque essas mesmas pessoas costumam ignorar o maravilhoso Jackie Brown). É batata, qualquer lista dos melhores filmes dos anos 90 inclui Pulp entre os mais mais. E seu diretor, entre os mais influentes, com justiça em primeiro lugar. Taranta é a prova viva de que trabalhar numa locadora faz bem. A todos nós, cinéfilos, sufocados e sedentos por um pouquinho de frescor no ar. Daí surge esse ex-atendente de locadora, super nerd, e nos apresenta uma surpreendente obra-prima. Ok, ele já tinha provado todo o seu potencial em seu filme de estreia, “Cães”, mas alguém realmente esperava que essa produção de 8 milhões de dólares (uma ninharia pros padrões de Hollywood) viraria um dos ícones máximos de toda uma cultura cinematográfica? Duvido.

E todas as características do Taranta estão aqui, pro nosso deleite. Eu até compreendo que algumas pobres almas (que deus as ilumine) não gostem do diretor. É uma ideia assustadora, mas aceitável. Isso porque não é todo mundo que entende o consegue se acostumar com seu estilo. Mas vamos do começo. Pulp trata de três (ou quatro?) histórias, com algum personagem em comum entre elas. E tudo de forma não-linear, marca do Taranta. Quem viu “Cães” ou Jackie Brown e se assustou um pouco com as idas e vindas da trama, provavelmente vai ficar encabulado com Pulp. Começa com uma mensagem nos explicando o significado de “Pulp Fiction”, revistas feitas com papel barato e com conteúdo de qualidade discutível. Depois vemos dois assaltantes (o Tim Roth e a Amanda Plummer) num restaurante, conversando casualmente. Mal podemos imaginar que ambos estão escondendo uma arma e estão prestes a começar um assalto. Em seguida, somos levados a dois gângsters (o John Travolta e o Samuel L. Jackson) que, enquanto se encaminham a uma casa para fazer uma cobrança, conversam sobre trivialidades. É esse, pra mim, o maior charme dos filmes do Tarantino. Seus diálogos. Onde mais a gente pode ver dois mafiosos conversando sobre hambúrgueres? É o que faz de seus personagens e de suas situações tão reais e, ao mesmo tempo, tão engraçadas. Quer dizer, tudo é muito realista, afinal, nós, mortais, conversamos sobre essas coisas. Ou vai dizer que não? Mas no cinema, até aparecer o Taranta, todos os diálogos se referiam apenas ao que era importante à trama. Nenhum personagem ia ao banheiro se não houvesse um motivo ultra-importante para isso. Nos filmes do Taranta, os personagens vão ao banheiro porque eles são seres humanos, oras, e tem suas necessidades fisiológicas. Sei que é difícil acreditar, mas gângsters também precisar se aliviar, de vez em quando. Nem todos têm essa ousadia, é claro. Ou alguém imagina o James Bond entoando algum diálogo tarantinesco? Mas se esses diálogos e esses personagens são reais, porque eles são engraçados? Porque a realidade é engraçada, oras. E porque a gente não ta acostumado em ver assuntos do nosso dia-a-dia sendo entoados por pessoas que, com sorte, não fazem parte do nosso dia-a-dia. É por isso que é tudo tão cativante. Nós nos identificamos mais do que nunca com eles. Em alguns momentos, inclusive, os personagens não têm o que dizer, e segue-se aquele famoso silêncio constrangedor. Eles têm que encarar esse silêncio, aquelas intocáveis pessoas na telona. Eles contam e ouvem piadinhas sem graça. Tudo isso traz Pulp e seus personagens mais pra perto da gente.

A outra trama, provavelmente minha favorita, mostra um dos gângsters, o John Travolta, em uma missão especial, levando a namorada de seu chefão (o Ving Rhames, que até a metade do filme, mais ou menos, só aparece de costas ou da cintura pra baixo, mantendo sua imagem quase mítica) pra se divertir. Isso acontece pouco depois que ouvimos certo boato de que o tal gângster-mor empurrou um homem da janela porque ele fez massagem nos pés de sua noiva, a Uma Thurman. Ou seja, já ficamos tensos, imaginando o que raios vai acontecer nesse encontro. O que a gente imagina? Que eles vão ter um caso? Que vão fugir juntos? Isso seria o de praxe, num filme comum. Mas não estamos falando de um filme comum. Estamos falando de um filme do Tarantino. E nos filmes desse gênio, a mais previsível das ações se transforma em imprevisível. O John leva a Uma pra jantar, e lá eles conversam, apenas. Amo os diálogos dessa cena, pra mim estão entre os melhores e mais inspirados do Taranta. É o exemplo máximo daquilo que eu falei, dos personagens conversarem casualmente, independente se eles são gângsters ou lutadores de kung-fu. É nessa parte também que se encontra a famosa sequência da dança protagonizada pelo John e pela Uma. Aliás, a trilha sonora é um item fundamental, como em todos os seus filmes. Aquela música que a Uma dubla minutos antes de ter uma overdose, “Girl, You’ll Be a Woman Soon”, eu acho um máximo. Nessa marcante cena da dança já começamos a desconfiar da obsessão do Taranta pelos pés e pelas mãos da Uma (e passamos a ter certeza absoluta disso depois de Kill Bill). Outro fator que está super presente em todos os filmes do cara, principalmente aqui, e que muita gente critica, é seu humor negro afiadíssimo. Poucos diretores além do Taranta (e dos irmãos Coen) conseguem misturar tão bem a tensão, a violência e o humor. Em algumas sequências nós nem temos certeza se devemos rir, se essa é a intenção. Por exemplo, quando o John tem que apunhalar uma seringa no coração da Uma, que corre perigo de vida, a gente não se aguenta de tanta tensão. Todos os ângulos de câmera, as pausas, a contagem, tudo é muito bem manipulado pro público gritar com a tela: “Vai logo, sua besta!”. Mas, mesmo assim, o Taranta consegue colocar humor na situação. Não que esse humor nos faça relaxar um pouco, faça dessa sequência menos impactante. Na verdade, a junção desses dois itens forma Pulp Fiction do jeitinho que ele é. Outro bom exemplo é quando o John, sem querer, atira na cabeça de um cara, dentro de seu carro (neste que deve ser o tiro mais imprevisível de todos os tempos, junto com aquele do personagem do Tim Roth, em “Cães”). Qual sádico ri de um homem levando um tiro no meio da cabeça, e tendo seus miolos arremessados por todo o capô de um carro? Mas toda a situação acaba sendo engraçada, pelo modo como acontece. Os dois gângsters assustados, tão surpresos quanto a gente, sem saber o que fazer, e o modo como o tiro é dado. Taranta faz da cena hilária, aquele doente.

E temos ainda mais uma trama meio paralela. O Bruce Willis vive um boxeador que é pago para perder uma luta. Mas ele a ganha, e foge com o dinheiro. Aquela perseguição no meio da rua é de uma freneticidade de causar inveja em qualquer filme de ação lotado de explosões e efeitos especiais. A gente vibra. E ri, de novo, na “hora errada”. Quando o Bruce Willis está procurando uma arma para atacar seu detrator, por exemplo, e a cada virada ele encontra um objeto melhor, deixando o outro de lado, essa sequência é hilária. E notem o contexto: tem um homem sendo estuprado no recinto ao lado, e nós sabemos disso. E rimos da situação. Adoro também aquela tramóia do relógio, aquele flashback da infância do Bruce, com participação especial do Christopher Walken. Amo Pulp Fiction inteirinho, não tem jeito.

E as idas e vindas da trama aqui estão em sua melhor forma. Por exemplo, em dado momento, em mais um instante inusitado, um personagem é baleado e morre. Um personagem importante. Mas, mais tarde, ele volta. Não que ressuscite, mas é que os fatos nos são mostrados de forma não-cronológica, tornando tudo mais interessante. E a gente aceita isso numa boa. Não achamos estranho que aquele personagem tenha “voltado da cova”, porque, àquela altura do campeonato, já nos acostumamos com o estilo do Tarantino. E já nos apaixonamos. Aliás, chuto que deve ser muito divertido pros atores trabalhar com ele. Vendo seus filmes, sempre tenho a ideia de um diretor-amigo, sabem? Não sei exatamente o porquê. Talvez por todos os atores estarem sempre totalmente à vontades. Os diálogos sem relação direta com a trama, por exemplo, soam tão naturais que até parece que os atores estão improvisando. Até o Taranta dá as caras, na divertidíssima sequência em que os dois gângsters tem que limpar o carro, depois do assassinato-acidental (e também gosto muito da participação do Havey Keitel, nesse momento). A(s) história(s) de Pulp Fiction até parecem ser simples. Mas Tarantino transforma seu filme em uma obra grandiosa, pretensiosa e mais do que genial. Não é exatamente pela trama, mas pelos vários detalhes e toques de mestre, que Pulp deu certo. E como deu. Fez milhões ao redor do mundo, faturou o Oscar de roteiro original e entrou no subconsciente da cultura pop mundial. Pra nunca mais sair.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

SEVEN – OS SETE CRIMES CAPITAIS – O mundo é um lugar bom e vale a pena lutar por ele?

Vou falar um pouquinho de Seven, que deve ser meu favorito do David Fincher, que nem de longe é um dos meus diretores favoritos (por falar nisso, recentemente revi Benjamin Button, e gostei menos do que quando vi pela primeira vez, assim como houve um tempo que eu apreciava bem mais O Quarto do Pânico e Clube da Luta). Ele ficou reconhecido mundialmente por esse suspense de 95, já que antes só havia dirigido uma terceira parte de Alien (que eu fiz questão de não ver). Claro que depois de Seven o diretor também cometeu mais bons filmes, e hoje ele é super aplaudido por boa parte da crítica. Alguns o consideram um dos diretores mais promissores da atualidade. Menos, gente, menos. Essas pessoas que o elevam aos céus geralmente esquecem de mencionar o pavoroso Vidas em Jogo, uma bomba monumental lançada depois de sua consagração com Seven. Quanto a este, gosto muito. Só não aceito comparações com O Silêncio dos Inocentes. Principalmente quando essas comparações o colocam num patamar maior do que o longa de 91. Mil perdões, mas Seven é um ótimo filme, enquanto “Silêncio” é uma obra-prima, um clássico, um dos maiores thrillers da história. É sacanagem comparar.

Sem comparações, Seven é original, com uma trama interessante, bem contada e atuada. A gente só tem que reclamar que depois dele vieram inúmeros filmes de serial killers onde um agente do FBI tem que procurar pistas em locais desertos, à noite (sem jamais acender a luz). Mas isso não é culpa de Seven. Em sua história, dois policiais passam a investigar e a seguir pistas de um assassino que parece matar suas vítimas conforme os pecados capitais. Tipo, o primeiro cadáver encontrado é o de um cara que foi obrigado a comer até explodir (ahn, literalmente). Daí, depois da gula, segue-se a preguiça, a inveja, a vaidade, a luxúria, a ira e a avareza, não necessariamente nessa ordem. E é tudo bastante instigante. A fotografia dá o tom. Meio obscuro, meio pessimista, a paisagem caótica e o clima até nos faz pensar em um neo-noir, ou algo do gênero. E não posso falar de Seven sem mencionar seus aspectos técnicos. A fotografia é realmente de babar. Ou eu queria dizer “de chocar”? Tudo muito claustrofóbico. A maquiagem de todos os cadáveres (principalmente o da gula e o da preguiça) é incrivelmente realista. Nada é gratuito, ao contrário desses torture porns que se vêem por aí (O Albergue, Jogos Mortais, etc). Isso porque aqui há uma trama, existe um motivo pros vários closes desconcertantes naqueles cadáveres. Há algo bem maior por trás de tanto sadismo.

Mas o que mais gosto no filme é a relação entre os dois protagonistas. Não sei se vocês já notaram, mas nesses thrillers policiais atuais a gente sempre vê uma dupla composta por um homem e uma mulher, brancos, heteros e solteiros. No começo eles não se dão lá muito bem, mas o filme não vai terminar sem que ambos troquem juras de amor e beijos apaixonados. Depois se casam e vão para a cama. Se possível, necessariamente nessa ordem, que é pra ganhar o joinha da direita cristã. Sério, esse tipo de relacionamento amoroso previsível cansa demais. Em Seven a relação entre os parceiros é muito mais interessante. O Morgan Freeman vive um policial prestes a se aposentar, cético, inteligente e sem muita esperança na humanidade. Isso porque ele já viveu demais, já viu muita coisa, ele sabe que esse mundinho não presta. Está mais do que cansado das coisas que presencia todos os dias. Já o personagem do Brad Pitt é um policial jovem e impulsivo que vai substituir o Morgan. Ele representa a nova geração, ainda inocente, com muita coisa a aprender. E que não sabe controlar suas próprias emoções (coisa que a gente saca logo no começo, quando descobrimos seu passado policial, e vamos confirmar na última sequência). Fica claro que daqui a alguns anos o personagem dele vai estar igualzinho ao do Morgan. No fundo eles não são tão diferentes assim. Só viram e vivenciaram coisas diferentes, um de mais, o outro de menos. Daí, quando os dois se juntam pra desvendar esses crimes em série, a gente pensa, inicialmente, que essa parceria não vai dar muito certo. E não é que dá? A inteligência e a racionalidade de um versus a impulsividade de outro. As duas coisas se equilibram. O problema é quando um desses itens acaba pesando mais do que o outro.

Curiosamente, alguns anos depois, em 2007, o mesmo David Fincher viria a dirigir outro filme sobre serial killers, o muito bom Zodíaco. E aí vocês pensam: ih, isso de repetir a fórmula que já funcionou uma vez não é lá muito honesto. Mas o incrível é que Zodíaco é completamente diferente de Seven. Os objetivos de ambos são distintos. Zodíaco ta mais pra um filme sobre obsessão do que pro famoso “quem é o assassino?”. O clima, os personagens, a fotografia, a montagem, o ritmo. Tudo é diferente nos dois filmes.

Por falar nisso, adoro o ritmo de Seven, que não deixa a peteca cair em momento algum. Sem cenas desnecessárias apresentando personagens desimportantes. Seven vai direto ao ponto. E nada está lá por acaso. Até algumas cenas que podem parecer desconexas, como a do jantar, no fim fazem total sentido, se mostram bastante importantes. E Seven tem clima, isso não dá pra negar. O item mais importante num filme desses, na minha opinião. Pra nos deixar tensos, pra nos manter envolvidos até o final. E, por falar nele (sem falar demais, não temam), acho muito inteligente. Não da ideia do final, exatamente, mas do modo como ele é conduzido. É até surpreendente, mas o David Fincher não o faz parecer apenas uma pegadinha no espectador, como grande parte dos filmes de terror hoje em dia fazem. O final não é um item à parte, o filme não foi pensado a partir do desfecho. Na verdade, ele está muito bem amarrado com todo o resto, pega a gente de surpresa, mas sem parecer forçado. Na realidade, tudo é bem sutil. Quer dizer, foram-nos mostradas durante o filme todo imagens chocantes de cadáveres, então por que raios não podemos ver aquele item fundamental, na última cena? Porque assim, sugerido, é muito mais interessante. Ele nos dá as cartas, e deixa nossas mentes fazerem o resto. Até porque, qualquer imagem chocante jogada na tela ficaria muito aquém de qualquer expectativa. Vai dizer, assim não é muito mais assustador? Pra finalizar, deixo aqui a última (e melhor) frase do filme. Alguém diz: “O mundo é um lugar bom e vale a pena lutar por ele”, no que o personagem do Morgan Freeman responde: “Concordo com a segunda parte”. Depois que vejo Seven, eu meio que preciso urgentemente assistir a um musical. Qualquer um. Só pra dar uma equilibrada.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

BASTARDOS INGLÓRIOS – A palhaçada da Segunda Guerra, por Quentin Tarantino

Confesso que, mesmo sendo fã do Tarantino, mesmo estando com altas expectativas para seu novo filme, mesmo assim, eu consegui me surpreender muito com Bastardos Inglórios. Vindo de um dos diretores que salvaram a década de 90 do fracasso de originalidade total, eu aguardava no mínimo algo bom. Mas não tão bom. Talvez pelas críticas mornas que andei lendo, talvez pela péssima recepção que o filme teve em Cannes (o diretor voltou com ele pra sala de edição, depois do evento), eu já estava abaixando minha bola, com medo de esperar demais e acabar caindo do cavalo. Não imaginava que o Tarantino tinha feito mais um grande filme. E não é que ele fez? Bastados Inglórios é ge-ni-al.

Na história, um grupo de soldados americanos judeus tem como objetivo matar o máximo de nazistas que puderem, se disfarçando dos próprios para conseguirem seu feito. Tudo isso na França ocupada pelos alemães. Parece simples, né? Pode até ser. Acho que um diretor menos talentoso conseguiria transformar a história de “Bastardos” num filme banal, insignificante até, sem muito esforço. Mas o Tarantino enche seu longa de toques de gênio. A começar pelo capítulo um. Nele, acompanhamos um “caçador de judeus” indo procurar uma família inteira fugitiva numa fazenda. Ele entra, senta, faz algumas perguntas ao dono do local enquanto bebe leite. Daí a câmera do Taranta, bem devagar, sem pressa, desce um andar, e, voilá, descobrimos que os judeus estão literalmente embaixo do nariz do nazista. Embaixo do assoalho. Agora, pra quem ainda não viu, imaginem essa cena. Imaginaram? Agora imaginem essa cena, só que na ótica do Quentin Tarantino. A gente já viu algo parecido em várias produções sobre o holocausto, mas o Taranta tem um estilo próprio inconfundível, e ele faz de “Bastardos” algo muito maior do que simplesmente um filme sobre a Segunda Guerra. Esse é só o capítulo 1, e já dá o tom, já nos mostra o que esperar. As quase duas horas e meia seguintes estão todinhas entupidas de reviravoltas, tramas paralelas, personagens que se encontram e que se desencontram. Só que tudo no melhor estilo tarantinesco. Eu nem pisquei.

Concordo que muitos diretores com estilo próprio acabam se esquecendo, por vezes, de coisas fundamentais. Tipo a direção de elenco. Não é o caso, é claro. Todos os atores estão bárbaros. O Brad Pitt está muito bem, caricato e claramente divertido no papel. Gostei de seus exageros. Mas, pra mim, quem rouba a cena mesmo é o Christoph Waltz, como o caçador de judeus que citei acima. O cara ta fantástico! Cruel, mas meio debochado, engraçado em alguns momentos. Mas sem perder o tom sério. Só discordo de quem afirma que a cena em que ele deixa a garota fugir mostra como, no fundo, havia um lado bom nele. Lado bom? Perdão, eu até acredito que tenham existido sim, nazistas com alguma pontada de arrependimento e até piedade (o Polanski mostrou isso em O Pianista, lembram?), mas o seu Coronel Hans Landa não tem nada de bom. Ele deixa a menina escapar porque tem certeza de que ela não tem nenhuma chance de sobreviver ou de vir-lhe a causar alguma dor de cabeça futura. Está enganado, é claro, porque a gente conhece o Taranta e sabe que ele não vai perder a chance de colocar uma pitada de vingança em seu filme.

E grande parte de suas características estão presentes aqui. A não linearidade do roteiro um pouco menos do que em seus outros trabalhos, mas ela também dá as caras. Adorei os flashbacks relâmpago, super rápidos, parando determinada cena e voltando no passado para mostrar um fato que ainda não conhecemos, pra podermos compreender melhor a cena principal. E existe um Q de Pulp Fiction, de vários núcleos de personagens mais ou menos paralelos que se encontram no final. Ah, e pra mim esse é seu filme mais violento. Isso não é uma reclamação, é mais uma constatação. Vocês podem atacar mencionando Kill Bill, que, realmente, era bastante violento. Mas a violência de KB era mais tosca, mais de cartoon. Enquanto aqui, bem, aqui o troço é um pouquinho mais sério. Quer dizer, por “sério” entendam que eu estou me referindo ao sangue, às cabeças esfoladas e aos couros cabeludos arrancados, porque seu humor negro está mais presente do que nunca. Tem todo aquele jeitão meio debochado que ele tanto gosta de tratar a violência. É por isso que “Bastardos” é especial. Poderia muito bem ser um dramalhão sobre o holocausto com narrativa convencional, o que o transformaria em mais um no meio de tantos. E quem pode imaginar um filme sobre a Segunda Guerra que nos faça rir? O melhor exemplo disso é a caricatura que o Tarantino faz do Hitler. O personagem é estressado, estouradinho e panqueca das ideias, do jeito que a gente desconfia que o verdadeiro tenha sido. Lembram do que o Chaplin fez do Hitler em O Grande Ditador? Então, é parecido.

Mas a melhor coisa de “Bastardos”, como não poderia deixar de ser, são os diálogos. Se você ainda não se convenceu em ir conferi-lo, vai aqui um toque: em quantos filmes você tem a oportunidade de ver um nazista dialogando sobre as diferenças de um rato e de um esquilo? Não em muitos, né? E tem também aquela cena em que um grupo de falso-nazistas jogam uma brincadeira de cartas na mesa de um bar com um nazista real, prestes a desmarcara-los. Essa cena é um show. E reparem como ela é longa, sem perder o ritmo ou a tensão em momento algum. É por isso que a violência do Tarantino não me incomoda. Porque há uma construção, ela não é gratuita. Quero dizer, em um filme de ação convencional que a gente vê aos montes por aí, um arma na mão de um cidadão americano em busca da paz é um perigo. Morrem uns vinte coadjuvantes por minuto. O final dessa sequência do bar, em “Bastardos”, é super violenta, mas nós ficamos mais de dez minutos numa constante e crescente construção de clima. Pra cada bala, há um motivo, um diálogo e uma situação por trás. Aliás, se a gente for reparar bem, existem várias sequências e cenas longas aqui, todas cheias de diálogos. Algumas tensas, outras engraçadas. Outra as duas coisas. Ou então, o que dizer do momento em que o Brad Pitt e seus comparsas devem fingir um sotaque italiano pra poderem enganar um nazista? Essa foi a sequência que o cinema mais riu, e é realmente engraçado vê-los tão desengonçados, se esforçando, enquanto o nazista fala italiano fluentemente. Mas, mesmo assim, é uma cena muito tensa. Tememos por eles serem capturados. E o Tarantino nos faz rir (sem nos fazer relaxar). Imperdível!

Só tenho uma reclamação. Em dado momento, um momento importante, algoz e vítima se reencontram. E nós, grudados na cadeira, já esperamos ansiosos pelo que vem a seguir. E o que vem? Um flashback de uma cena que já vimos, nos lembrando que, no passado, esses dois já haviam se cruzado. Eu me senti ofendido. Até parece que o Taranta ta duvidando da minha inteligência, nesse momento. Estragou o que seria uma cena incrível. Mas essas são implicâncias minhas com um grande filme. Hoje as críticas ainda não estão lá muito entusiasmadas, mas anotem essa informação confidencial vinda direto do futuro: não vai demorar muito pra “Bastardos” se tornar um clássico. Ok, ok, tem quem amou o filme tanto quanto eu, mas essas afirmações sempre são seguidas por um “porém”. Todo mundo anda o colocando anos luz atrás de Pulp Fiction, Cães de Aluguel e até Kill Bill. No meu caso, fico com todos, por favor. Pra viagem.

E é um máximo que, durante todo o filme, várias línguas sejam usadas. Quem diria, Tarantino também é cultura. Imagino que os americanos tenham aprendido muita coisa quando conferiram “Bastardos”. Como assim, existe outra língua além do inglês? Eu sei, também estou chocado. A gente que aprendeu que até os extraterrestres falam a língua ianque. Quando algum personagem alemão ou francês de “Bastardos” entoa seus diálogos em inglês, existe um motivo pra isso. Mas na maioria do tempo eles estão falando suas línguas originais mesmo. E, óbvio, em se tratando de Tarantino, aguardem várias referências. Tem quem não goste do Taranta por achar que ele é um diretor que pega vários estilos já consagrados e junta em um só filme, e isso é copia e cola, não tem nada de original. Eu respeito quem pensa assim, mas, gente, como se fosse fácil juntar estilos diferentes e criar um estilo único. Todas as homenagens de seus filmes só servem pra deixá-lo ainda mais interessante, mas sem essas referências, eles seriam igualmente geniais. Aqui Tarantino homenageia o cinema mundial. Ele lembra os esquecidinhos que não é só um país que sabe e que faz cinema.

Confesso que, durante todo o filme criava-se uma expectativa tão grande a cerca do evento derradeiro, que eu tava até começando a ficar com medo do desfecho não cobri-las. Mas estava enganado... de novo. A sequência final é de tirar o fôlego. Há toda uma construção de ritmo e tensão. Existem quatro coisas acontecendo ao mesmo tempo em quatro lugares diferentes, todos interligados. Uma coisinha que aconteça em um desses lugares com uma dessas pessoas acaba, consequentemente, mudando o rumo da outra. E nós não nos decidimos sobre qual das ações mais estamos interessados, mais queremos ver. Saímos de uma e já vamos pra outra, sem deixar a peteca cair. E é tanta tensão acumulada que, quando o fim chega, com todas as quatro tramas culminando num único e antológico fim, nós vibramos. Acho que, nessa hora, eu quase gritei, pulei da cadeira. Agora sei o que os pré-adolescentes que gostam de brincar de carrinho sentiram ao verem Transformers 2 (me dá sono só de lembrar). E quem imaginaria final melhor (e mais surpreendente) para o personagem mais marcante do filme, o do Christoph Waltz? Aquela sacada de “marcar os nazistas” só podia ter vindo da mente (meio perturbada, e demos graças a isso) do Taranta. Quando os créditos subiram, eu tinha uma certeza: que ele sabe melhor do que ninguém do que o público gosta. Porque, afinal, antes de qualquer coisa, Tarantino era esse público. O ex-atendente de locadora que, de tanto ver filmes, acabou fazendo seus próprios, entende das nossas necessidades. Nós queremos cinema original, queremos coisas novas. Nós estamos pagando para nos envolvermos com aqueles personagens e com aquelas situações. O público quer é diversão. Tarantino se diverte fazendo seus filmes, e nos lembra, com Bastardos Inglórios, que o cinema é entretenimento, afinal. E ele ainda dá uma lição que parece ter sido esquecida: entretenimento não é sinônimo de burrice ou de mediocridade. Nós não merecemos isso. Taranta é amigo de seu público, ele quer agradar a todos que deixam suas casinhas na esperança de ver algo novo na telona. A última frase do filme (e não se preocupem, não vou estar estragando nada), é a seguinte: “essa é minha obra-prima”. Vish, não é que é mesmo? Mais uma pra coleção.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

CONTOS DE NOVA YORK – Três gênios e um filme pouco genial

Woody Allen e sua caricatura da mãezona salvam Contos de Nova York

Esses dias assisti Contos de Nova York, de 89, pela primeira vez, cheio de expectativas. Poxa, é um filme que reúne três curta-metragens (de 40 minutos) de três diretores, todos com suas tramas passadas em Nova York. E não são três diretores de aluguel que se vêem aos montes por aí. São três dos grandes: o Woody Allen, o Coppola e o Scorsese. Mas confesso que não gostei nadinha do filme, achei até chato. Já começa pelo fato de que as três tramas não têm tanto a ver com a cidade, assim (com exceção, talvez, da do Woody). Quero dizer, elas se passam em Nova York, mas não há nenhum momento antológico envolvendo algum ponto da cidade. Não há nenhuma cena parecida com a do prólogo de “Manhattan”, do próprio Woody, talvez a maior homenagem que a cidade já ganhou.

A do Scorsese é a primeira, e se chama Lições de Vida. É bonitinha e tal, mas a gente espera mais do realizador de Taxi Driver (e entra aquela velha história: dá pra separar um autor de sua obra? Acho que não). Na trama, um pintor tem que decidir o que fazer de sua vida amorosa, agora que sua assistente deu um ponto final em sua relação. Há sequências interessantes, e a trilha sonora é bem bonita, mas, no geral, não é lá grandes coisas. Se bem que grande parte da crítica, pelo que andei lendo, considera esse o melhor segmento do filme. Comparado ao próximo, pelo menos, esse Lições de Vida é praticamente uma obra-prima. O segundo curta, do Coppola, eu juro que não entendi. Não que seja ruim. É, na realidade, pavoroso, vergonhoso de tão ruim. O que era aquilo? Um filminho infantil? Acho que deve estar aí o motivo de Contos de Nova York ser fraquinho, no geral. É que falta uma conexão de clima entre os contos. Todos são de tons muito diferentes. Fica estranho. Claro, são diretores autorais de estilos próprios, mas, pô, qual foi a intenção do Coppola ao dirigir esse A Vida sem Zoe? É praticamente um filme infantil de segunda. Esses que são feitos direto pra TV americana e que aqui passam na sessão da tarde, sabem quais? Podia muito bem se chamar “Uma Hóspede do Barulho”, pra vocês terem ideia do nível. E isso depois que a gente acompanhou uma história bem adulta sobre relacionamento e obsessão, que é o curta do Scorsese. Entendem o que quero dizer com a falta de conexão? E é ainda mais triste descobrir que ele foi escrito pelo próprio Coppola, em parceria com a Sofia Coppola. A Sofia tem o dom de escrever histórias de uma sensibilidade incrível (vide As Virgens Suicidas), e nem preciso falar nada do Coppola como diretor, já que a década de 70 foi do realizador de Poderoso Chefão e Apocalypse Now. Logo, é incompreensível pra mim de onde surgiu esse conto. Pra piorar, no fim, quando os pais ausentes de uma garota rica voltam pra casa, ambos tem tratamentos diferenciados. A mãe é uma víbora mesquinha que está pouco ligando pra filha, enquanto o pai é um herói, um exemplo de pessoa. Ué, eu pensei que os dois eram pais ausentes. Sem mais comentários.


O melhor conto, e, talvez, o que salva o filme de ser um fiasco total, é a do Woody Allen. Já disse que sou fã do Woody mais de uma vez, e suas tramas sempre me cativam. Ainda mais uma tão honesta e com um clima tão despretensioso como esse Édipo Arrasado. Deve ser uma das maiores homenagens às mães que o Woody já fez. Na trama, o personagem/persona do Woody tem uma mãe que sempre lhe causa enorme constrangimento. Tudo muda quando ela é chamada por um mágico ao palco em seu show (cena que nos remete ao recente e divertidíssimo Scoop) e, ao entrar num caixote, desaparece. Mas desaparece mesmo, já que nem o mágico sabe explicar onde foi parar a senhora. Gags como a da mãe que mostra fotos do filho pequeno pelado na banheira pra suas namoradas devem fazer muita gente se identificar. É uma graça, e tem todo o estilo delicioso do Woody. Mas aí fica a questão: será que vale à pena ver um filme de 2 horas por apenas 40 minutos dele? Não sei não. Vale pela curiosidade, pelo menos. Mas não esperem tanto quanto eu esperei. Hoje em dia ele é meio cult, mas eu não gostei.

HAIR – Deixemos o Sol entrar

Acho que eu tenho pena de quem detesta os musicais, porque, vejam só que tristeza, essas pobres almas perdem maravilhas como Hair por puro preconceito. Esse musical do Milos Forman adaptado de uma peça da Broadway completa agora 30 anos de existência. E continua incrivelmente vivo, nenhum pouco datado. Não sei se posso dizer isso com felicidade, já que preferiria que as guerras tivessem ficado lá pra trás. Infelizmente, não foi assim. E a mensagem de Hair, totalmente anti-guerra, segue irretocável. É um desses filmes acima de qualquer crítica, de temática universal.

E olha que eu nem tenho certeza se ele é meu favorito do Milos Forman (também amo Amadeus e Um Estranho no Ninho), e não é o musical que eu mais aprecio. Mas é um clássico indiscutível. A história começa com um caipira deixando sua casa em direção à Nova York, com o objetivo de se alistar na guerra do Vietnã. Quando ele chega, conhece uma moça da alta classe pela qual se apaixona, e um grupo de hippies que tentarão convencê-lo a desistir dessa história de guerra (semelhanças com Across the Universe não são mera coincidência, já que esse também grande musical ta cheio de referências a Hair). O primeiro número já é arrebatador, provavelmente um dos mais marcantes. Nele vemos hippies e policiais (montados em seus cavalos) sincronizados em uma coreografia de cair o queixo, ao som de Aquarius. Aliás, números musicais de arrebentar é o que não falta em Hair. Todas as músicas são incríveis (algumas não vão sair da sua cabeça por um bom tempo, já vou avisando), e as coreografias, idem (pra mim é um dos musicais com as coreografias mais inspiradas de sempre, junto com West Side Story). Não sei direito o motivo dos críticos americanos o terem recebido com tão pouca animação, na época de seu lançamento. Opa, acho que eu tenho um palpite. Hair critica o conservadorismo de uma maneira tão, mas tão inteligente, que deve ser um ultraje pra esse tipo de gente assistir ao filme. Quer dizer, Hair parece querer nos dizer que esse puritanismo todo é tão ridículo que o melhor que a gente tem a fazer é levar na brincadeira. Tipo: só pode ser piada, né? E ele faz piada com os conservadores. Ou então, o que dizer da divertidíssima sequência em que os amigos hippies entram numa festa, de penetras? Essa parte se finaliza com um inspirado número musical, onde um dos personagens cabeludos sobe na mesa do banquete e lá dança e canta I Got Life (cena que nos faz lembrar de Rent). É hilário que uma senhora da alta classe se identifique com o hippie, suba com ele na mesa e o acompanhe na coreografia. Muito bacana a ideia do Milos Forman de fazer a voz discordante da festa ser justamente uma mulher de idade (se bem que ela não abre a boca. Seu rebolado e seu sorriso falam por um todo). Uma vergonha pros jovens, mas muitas vezes é essa a verdade. Os tempos mudam, mas nem todas as cabeças conseguem acompanhar essas mudanças. Ta aí Hair que não me deixa mentir. Na época de seu lançamento, o filme foi muito perseguido pela censura. Inclusive no Brasil, onde ele veio a estrear apenas alguns anos mais tarde. E a peça homônima dos anos 60 sofreu mais ainda. Os produtores do espetáculo receberam processos por parte de pessoas que se chocaram com tanta “obscenidade”. Ninguém merece.

E talvez seja por isso que Hair até hoje siga com o merecido posto de grande musical. Por sua ousadia. Poxa, gente, ele veio logo depois de Grease. E ta cheinho de cenas e sequências que ficam mais engraçadas quando a gente nota que o Milos Forman sabia, enquanto filmava, que aquilo iria desconcertar os americanos conservadores. Ele brinca com essa ideia, se diverte com ela. Por exemplo, todo aquele número em que as mulheres brancas cantam como os negros são sexy, e as mulheres negras cantam a mesma coisa sobre os homens brancos, e todas são, ainda por cima, acompanhadas no gogó pelos soldados do exército, é a prova viva do que eu to falando. Já dizia Nabokov que existem pelo menos três temas que são extremamente tabus para os americanos. Um deles, na voz desse grande escritor, é: “o casamento de um branco e uma negra (ou vice-versa) onde ambos sejam gloriosamente felizes e tenham muitos filhos e netos”. Quem sou eu pra discordar?

Um dos segredos de Hair ser tão encantador é que ele conta com personagens muito carismáticos. Todos os hippies são um poço de simpatia, e a gente gosta deles logo no começo, quando usam o pouco dinheiro que têm para poderem realizar um sonho pessoal. Eles alugam um cavalo. É isso que os faz tão especiais. O que eles querem, afinal? Eles querem se amar, se divertir sem ter que destruir a vida do outro pra isso, querem paz. O corte de cabelo deles (ou melhor, a falta de corte) é só um símbolo de suas inconformidades com a sociedade. Uma forma de protesto, talvez. Ao sistema. À guerra. E a gente vê na tela o tanto que isso incomoda todos que andam às suas voltas. Pra mim um dos diálogos que mais exemplificam essa cultura é quando uma das hippies conversa com a mulher de seu amigo, que acaba de conhecê-la. A hippie está grávida, e, ao ser questionada sobre quem é o pai, ela responde que não tem certeza, está em dúvida entre dois caras. E ela diz isso da forma mais normal possível, porque, afinal, quem disse que isso é anormal? Quem inventou o significado da palavra “normal”? O que é ser anormal? A moça, é claro, se espanta, porque alguém a ensinou que isso é sim, anormal. Assim como todas as pessoas estão vivendo com a ideia imposta de que a guerra é algo não só super normal, como necessário. E mais de uma vez algum personagem que segue direitinho às leis impostas de como é a maneira certa de se viver (que maneira certa, cara pálida? Guerreando?), ameaçam cortar as madeixas de nossos heróis. O cabelo deles é a prova de como o que é diferente incomoda às pessoas. Por exemplo, no momento em que eles são presos, um policial pergunta para o hippie que protesta contra cortarem seu cabelo: “Você sente atração sexual por outro homem?”. No que ele responde, claramente divertido com a situação (e vemos mais uma vez aquilo de levar esse puritanismo como se fosse engraçado – e é mesmo): “Ta perguntando se eu sou homossexual? Não, não sou, mas confesso que eu não expulsaria o Mick Jagger da minha cama”. E o policial: “Então porque você não corta esse cabelo?”. A resposta vem com um número musical, e não teria maneira melhor pra se terminar uma cena dessas. Sério, como tem gente que reclama das pessoas cantarem “do nada” em musicais, como? É perfeito!

Mas, claro, essas gracinhas se equilibram com algumas partes mais sérias, mais tristes. A mulher do hippie negro que voltou cantando Easy to Be Hard é de arrepiar. E o final é muito triste. Isso porque toda aquela sequência do grupo indo salvar um de seus amigos, que foi parar no campo de treinamento do exército, é divertidíssima. Se no começo desse terceiro ato nós nos lembramos dos horrores mostrados em “Nascido para Matar”, logo, logo estamos em outro clima, naquele de “putz, como a guerra é ridícula!”. Mas, no final, cai a nossa ficha. A guerra é ridícula, mas ela existe, é real. E mata. Apesar disso, o filme ainda termina com uma pontada de esperança, com a última música, onde várias pessoas cantam Let the Sunshine In (Deixe o Sol Entrar). É um desses filmes que nos enche de esperanças na humanidade, que nos faz crer que algum dia o amor voltará a fazer o mundo girar. Ok, não é pra tanto, que Hair é lindo, mas não faz milagres. Ou faz?