Finalmente consegui ver Bem-Vindo à Casa de Bonecas (1995), graças a um amigo, que caridosamente baixou o filme pra mim. Se você não viu, veja! Mas não espere encontra-lo numa locadora mais p
róxima, porque ele não está disponível em DVD no Brasil. E nem vai estar, suponho. É um desses filmes que algum desinformado aluga por achar a capa bonitinha ou a sinopse interessante, mas volta alguns minutos depois à locadora pra reclamar, tipo “que coisa é essa?!”. Não tenho certeza, mas devem ter algumas pesquisas sobre o número de pessoas que vão conferir algum filme do Todd Solondz (do estranho e excelente "Felicidade") e saem na metade da sessão. “Bem-Vindo” conta a história de uma garota, Dawn, que está na sétima série e sofre na escola por ser feia. Vítima de insultos e humilhações, sua vida dentro de casa não é nada melhor. Eu diria até pior, porque, vejam bem, se alguém te trata mal na escola, você logo corre, procurando refugio, no seu lar, né? Mas como, se sua família te trata da mesma forma? Ao contrário do desinformado que alugou o filme (se ele existisse nas locadoras, mas, hipoteticam
ente falando) e logo devolveu, chocado, pensou, aqui não teremos um happy end. Não espere uma história de superação, onde, no fim, todos vão acreditar que a beleza física não conta em nada... Onde todos formam um círculo e cantam uma canção de natal antes de se aconchegarem na lareira e abrirem os presentes (?). “Bem-Vindo” fala da realidade. Eu sou fiel à lei de que o cinema não precisa retratar a realidade do jeito que ela é. Na verdade, acho que o cinema serve muito bem pra ser uma fuga da realidade, pra gente se abster dos problemas por umas duas horas... Se é isso que você procura, vá de algum musical. Aqui, a realidade é o mais real possível. Ou seja, um inferno.Se bem que o Todd Solon
dz, também roteirista, faz um retrato da adolescência e da vida fútil dos subúrbios de uma maneira até meio caricata. Só que sem deixar de ser verdadeira, real. Tem quem ache exagerado demais a visão dele das crueldades da adolescência, que ele coloca tudo que há de ruim no mundo nas costas de Dawn. Mas foi essa a intenção. Fazer uma caricatura da realidade, que não deixa de ser real, oras. O melhor exemplo disso é o ambiente da casa da protagonista. Sua irmã mais nova, de uns 7 anos, é o que todo mundo chama de “ooohhh, que linda!”. Olhos azuis, um rosto angelical, magra, lourinha, etc. E ela vive andando pela casa vestida de bailarina. Mais caricatural impossível. Enquanto a mãe da família baba pela pequena, a mimando em tudo, ela trata mal a pobre Dawn, que é chamada pelos colegas da escola de “cara
de cavalo”. A irmãzinha, tão novinha, logo nota que ela tem vantagem sobre a irmã mais velha, e não perde a chance de usar isso contra Dawn. Essa, por sua vez, olha pra irmã, sempre sendo elogiada por todos, e logo conclui: como você tem sorte. Alguma coisa na cultura de Dawn a ensinou que nascer bonita é ser muito sortuda. E é mesmo. Em dado momento, quando está sendo agredida por uma valentona da escola, Dawn pergunta porque ela a trata mal, no que a agressora responde: “porque você é feia”. Numa das cenas mais cruéis, a mãe reparte um pedaço de bolo para toda a família, mas deixa Dawn sem comer. No final, o seu pedaço do
bolo que ela não teve a chance de experimentar é repartido pela mãe aos dois irmãos. Um é inteligente, a outra, bonita. E Dawn, por causa da má-sorte de ter nascido daquele jeito, fica sem chocolate.Mas tudo isso é tratado da forma mais diferente do convencional possível, e “Bem-Vindo” não é, em absoluto, um melodrama feito sob encomenda pra se chorar do início ao fim. Quer dizer, dá um aperto enorme no coração em várias horas, e é tudo cruel demais. Se a gente quase não aguenta assistir a tanta hostilidade, imaginem pra personagem, como não é. Mas o que mais gosto no filme é que o Todd Solondz, ao invés de fazer daqueles que maltratam a Dawn malvados e ponto, ele, na verdade, dá voz a esses personagens. Nós conhecemos a história por trás de um dos meninos mais detestáveis da escola de Dawn, que, inclusive, am
eaça estupra-la. Vemos que ele sofre por não ser popular, por também ser “diferente”, inclusive não sendo convidado para as festinhas do colégio. Assim, ele desconta tudo naqueles que estão por baixo, por ser agredido por quem está por cima. Mas só enquanto estão todos vendo. Mais tarde, quando ele e Dawn, os dois excluídos, se encontram, fora da escola, eles acabam se tornando amigos. Até se beijam. Mas, ao fim do encontro, o garoto avisa: “se você contar o que aconteceu aqui pra alguém, eu te estupro, e dessa vez falo sério”. Talvez a parte mais tocante acontece quando Dawn sonha que todos ao seu redor dizem que a amam. A gente até tenta ter alguma esperança, mas no fundo sabemos que isso não é bem o estilo do Todd Solondz.
Aliás, o diretor norte-americano já é uma figura e tanto. Começou fazendo produções independentes totalmente fora do padrão, como essa, e, depois de se tornar mais ou menos famoso, continua fazendo produções independentes fora do padrão. É ou não é de tirar o chapéu? Mas ele tem uma visão pessimista do mundo, e trata disso de uma forma ácida, às vezes irônica, e até com uma pitada de humor. Mas bem pouco, e um humor diferente. A gente definitivamente não consegue rir da história de Dawn. É um filme seco, cru, mas que mexe com a gente, mesmo que seja pra nos deixar pra baixo. Cumpre seu objetivo. A protagonista não é apenas uma coitadinha, ela está longe de ser eticamente perfeita. N
a realidade, de tanto sofrer insultos, ela passa a ofender a única pessoa que consegue, seu único amigo, que está mais ou menos na mesma situação que ela. Em outro momento, Dawn se apaixona por um cara mais velho e super popular que começa a tocar guitarra na banda do irmão nerd, em troca de aulas de computação. Mesmo vivendo num mundo completamente hostil, Dawn ainda é uma sonhadora. Ela pede informações ao irmão sobre esse cara, e, de mal grado, ele lhe diz que o tal guitarrista sai com qualquer garota, desde que esta esteja disposta a fazer tudo que ele lhe pedir. E a Dawn: “aquilo das relações sexuais?”. O lugar que Dawn mais gosta de ficar, e que mais tarde é destruído pela mãe para que aconteça uma festa de casamento, é o seu clube no jardim, uma espécie de casa na árvore. Dawn o define como “clube das pessoas especiais”, e quando vai perguntar ao cara que ela se apaixonou se ele quer ser vice-presidente do clube, ele diz: “pessoas especiais? Dawn, você sabe o que isso significa? Pessoas especiais são a mesma coisa que retardados”. Se você curte os anti-Sessão da Tarde, bem-vindo à casa de bonecas.


















































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A partir daí De Olhos Bem Fechados quase vira um filme episódico, onde o Tom começa a se envolver com prostitutas, casos de pedofilia, cafetismo, e até com uma seita ultra secreta. No fim, tudo não dá lá muito certo, e até um suposto caso de assassinato entra no meio




















