David Lean é ligado constantemente a épicos monumentais, grandiosos. Não é pra menos, já que o diretor inglês criou coisas que fazem jus a esse título, como Lawrence da Arábia, Doutor Jivago e A Ponte do Rio
Kwai. Por isso, quando pensamos em Lean, chega a ser quase impossível conecta-lo a um drama tão simples (relativamente falando, e em alguns aspectos, apenas) e íntimo como o maravilhoso Desencanto (Brief Encounter, no original, ou, traduzindo, "breve encontro"), de 1945, baseado numa peça de Noel Coward. Esse era o quarto filme do diretor, o que lhe deu maior visibilidade (e sua primeira indicação ao Oscar), feito durante a Segunda Guerra antes dos épicos que lhe deixaram famoso (com justiça). A história de Desencanto parece, inicialmente, bem comum: um homem e uma mulher, ambos casados, se conhecem casualmente numa estação de trem e, a partir daí, desenvolvem uma paixão proibida. É um romance belo e melancólico que fala não apenas do amor, mas também, e principalmente, do sentimento de culpa. Existe, no roteiro, uma sutil não-linearidade nos fatos. Não precisa ser muito esperto pra sacar que o final é, na realidade, o começo. Mas é preciso ter bastan
te atenção pra notar como, no início, por nós, o público, não conhecermos a história por trás daqueles rostos desconcertados, não existe tanta tensão como há no fim, onde nos é mostrado a mesma cena, sob outro ponto de vista. Mas nesse momento já estamos envolvidos, e quase podemos sentir toda a pressão que o casal está sofrendo. Pago pra ver alguém não chorar. Desencanto foi considerado há pouco tempo um dos melhores filmes britânicos da história, pau a pau com O Terceiro Homem. É pro cinema inglês o que Cidadão Kane é pro americano, só pra citar um exemplo. Billy Wilder, que não é bobo, amou tanto o filme que usou um de seus coadjuvantes (o amigo do protagonista, dono do apartamento) em uma de suas melhores comédias, Se Meu Apartamento Falasse, transpondo-o como protagonista. E depois ninguém é perfeito, né?
Pra começar, Desencanto jamais seria feito nos dias de hoje. Por uma porção de motivos. Primeiro que, pro público atual, muito mal acostumado com Hollywood, a trama do casal que se apaixona e não pode viver esse amor soa por demais ultrapassada, brega... Nos nossos tempos ou um filme é 100% infantilóide, ou ele parte pra baixaria sem motivo de ser. Quando temos o desejo sexual proibido transposto em olhares, em gestos, até em diálogos, bah, daí é velharia. A vantagem disso é que Desencanto nunca ganhará um remake, a não ser que seja feita uma revisão na trama. Sabem, com algum esforço dá pra transformar a história do drama em um filme de ação. É fácil. Junte-se a
o amor proibido uma raça alienígena prestes a invadir a terra e voilá, fez-se os bons números na bilheteria. Óbvio que desse modo Desencanto perderia sua profundidade, mas quem liga pra isso? Queremos a casa branca aos ares, viva! A desvantagem de Desencanto ser o pesadelo dos adolescentes é que ele certamente está ganhando poeira na prateleira da locadora mais próxima. Suponhamos que o atendente da locadora seja um cinéfilo de bom gosto (eu sei, maior viagem. Se eu falo Hicthcock pro mocinho da locadora aqui perto de casa ele me diz “saúde!”) que indique o filme pra alma perdida que não sabe o que quer da vida. Quais são as opções? Opção A) o sujeito, muito esperto, confere a data de produção do filme no verso do DVD e o devolve a prateleira, fazendo o sinal da cruz; opção B) ele confia no atendente e leva Desencanto para casa, mas arranca-o do aparelho
de DVD logo nos créditos, quando descobre que é em preto-e-branco; opção C (e a mais provável) a pessoa em busca de um filme que tenha sido feito, de preferência, depois dele ter nascido, joga Desencanto na cabeça do pobre atendente, que perde os sentidos, cai e bate a cabeça no balcão, falecendo em seguida. Ok, hoje estão no meu estado trágico, mas é que acabei de rever Desencanto, que é pura melancolia, pra escrever sobre ele. Dêem-me um desconto. Outro fator crucial que conta muitos pontos pra gente crer que Desencanto jamais seria feito nos dias atuais é seu ritmo todo peculiar, muito mais britânico do que americano. Hoje em dia as pessoas não têm tempo para pausas reflexivas ou construções psicológicas em longos closes nos rostos arrepe
ndidos dos personagens. Se eu obrigasse meus amiguinhos a verem o filme, por exemplo, eles certamente argumentariam que dava pra contar essa mesma história em no mínimo metade do tempo (isso porque ele já é curtinho, menos de uma hora e meia). Era só usar uma edição mais eficiente (lê-se picotada), cortar a maioria das cenas românticas, talvez acrescentar um letreiro preguiçoso ao final que explique o que a edição cortou, e, tcharan, teremos o mesmo filme, e ainda nos restará tempo de sobra pra, ahn... pra... jogar videogame? Ler um livro é que não é.O que mais gosto em Desencanto é justamente a sua incrível sensibilidade ao contar, sem pressa, toda a construção do amor dos personagens. Não existe amor à primeira vista, vamos combinar. Não é apenas por um olhar
que o casal acredita que aquela é sua alma gêmea. Na realidade, a cada novo encontro, às quintas-feiras, os pombinhos vividos pela Celia Johnson e pelo Trevor Howard estão mais apaixonados, mais envolvidos naquele amor. Existe uma construção, degrau por degrau, até chegarmos ao clímax da paixão, e também da culpa. Ta aí outro aspecto. Os dois são casados, e o adultério, na época, era visto como algo muito mais indigno do que hoje em dia. Principalmente pra mulher. Desencanto é muito sincero nesse aspecto, ao contar a trama pelo ponto de vista da personagem feminina. É ela quem nos narra a trama, em tom de desabafo, já que não pode contar a ninguém mais. Ela se encontra casualmente com uma dondoca conhecida sua, e pensa: ah, se eu gostasse o suficiente de você para lhe contar... O que ela mais quer, naquele momento, é desabafar. Como se assim sua culpa pudesse ser amenizada. No entanto, não conhecemos os pensamentos do homem. Também não vemos nenhum membro de sua família, nem o vemos quando ela não está presente, fora dos encontros. Com a p
ersonagem da Celia Johnson é diferente. Nós não apenas conhecemos seu marido e filhos, como também acompanhamos todo o seu sofrimento muito mais de perto do que o dele. Daí você me pergunta: sofrimento por que, culpa por que, auto-punição psicológica por que, ó, dúvidas? É verdade que não há o que hoje em dia seria considerado adultério: o sexo. Mas existe o desejo, e, menos do que isso: só o fato de ela se apaixonar por aquele homem, e vice versa, já é mais do que suficiente para suas mentes pesarem. Ainda mais naquela época, com a repressão mais forte do que nunca. E, veja só, chegamos em outro fator pra Desencanto ser um “cruz credo” a muitos, como a maioria dos clássicos: é tudo tão “inocente”. Eles dão alguns beijinhos e já acham que vão queimar no fogo do inferno? Ah, que gente careta! É que esse pessoal não leva em consideração a época, e muito menos que a paixão
psicológica conta, por vezes, tanto quanto a carnal. O que me leva a outro filme, esse recente: Fim dos Tempos, do Shyamalan (que eu não achei a maior catástrofe de todos os tempos, como muita gente diz. Mas daí a eu dizer que gostei do filme são outros quinhentos...). Lembro que, desde o começo dele, a Zooey Deschanel se culpa por alguma coisa que não sabemos bem o que é, mas que, por alguns motivos, supomos que seja uma traição. Daí, lá pelas tantas, quando as plantinhas estão prestes a destruir a humanidade, ela confessa ao seu marido, o Mark Wahlberg (não é muito fácil identificá-lo no filme, já que tem uma atuação parecida com a das plantas. Ele é o menos verde), que, ahn, como posso dizer, humm, é muito embaraçoso, ela confessa que comeu uma sobremesa com um desconhecido. Ah, fala sério. E o pessoal reclama da inocência de um Desencanto? 
Mas esse clássico não se resume apenas a uma trama de amor proibido ou de culpa. É também sobre o vazio existencial. As cenas em que a colega de viagem faladeira começa a narrar algumas trivialidades sem parar e a câmera foca sua boca se movimentando, enquanto o som vai diminuindo gradativamente, mostra bem isso. A protagonista se pergunta, em determinado momento, “por que temos que ser simpáticos a todo instante?”. Às vezes eu também me pergunto isso. Quem já esteve no meio de um silêncio embaraçoso e se viu na obri
gação de fazer algum comentário inútil (“ihh, acho que vai chover”) pra quebrar o clima levante a mão. Um de cada vez. Fora o marido da protagonista, que está a todo momento concentrado em seus livrinhos de palavra-cruzada. Em uma cena a mulher meio que confessa o que andou fazendo, confessa seus encontros com o médico, mas o marido, sem tirar os olhos da revista, apenas faz que “sim, aham, claro”. Óbvio que ele não ouviu uma palavra. E é legal que, mesmo assim, ele não seja visto como o carrasco da história. Na verdade, apesar de parecer se interessar muito mais nas palavras-cruzadas do que na esposa, o marido da protagonista é carinhoso com sua família. Então porque ela se apaixona por outro homem,
se seu marido a ama e não a maltrata? E nós escolhemos com quem, onde e quando vamos nos apaixonar, por acaso? No início ela nos conta que seu casamento era feliz, e parece não entender porque, nesse caso, se apaixonou por outro homem. Hoje em dia uma mulher que trai por ter um marido bêbado, vagabundo e que a trata mal, essa pode até ser perdoada. Mas trair tendo um homem carinhoso em casa (mesmo que não o ame), isso é coisa de vadia mesmo. (aviso: trocadilho infame na próxima frase) É, a cada vez mais me convenço de que Desencanto dificilmente encantará a nova geração. Nas mãos de gente errada, filmes como esse podem facilmente virar motivo de piada. E assim terminam os clássicos (?). 































Hoje vou falar sobre Má Educação, que, sem brincadeira, é um dos melhores produtos cinematográficos dos últimos anos. Quiçá da década. Não ouso comparar nenhum dos filmes do Almodóvar, prin

























































































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