sábado, 7 de novembro de 2009

BEM-VINDO À CASA DE BONECAS – “Pessoas especiais” não são bem-vindas

Finalmente consegui ver Bem-Vindo à Casa de Bonecas (1995), graças a um amigo, que caridosamente baixou o filme pra mim. Se você não viu, veja! Mas não espere encontra-lo numa locadora mais próxima, porque ele não está disponível em DVD no Brasil. E nem vai estar, suponho. É um desses filmes que algum desinformado aluga por achar a capa bonitinha ou a sinopse interessante, mas volta alguns minutos depois à locadora pra reclamar, tipo “que coisa é essa?!”. Não tenho certeza, mas devem ter algumas pesquisas sobre o número de pessoas que vão conferir algum filme do Todd Solondz (do estranho e excelente "Felicidade") e saem na metade da sessão. “Bem-Vindo” conta a história de uma garota, Dawn, que está na sétima série e sofre na escola por ser feia. Vítima de insultos e humilhações, sua vida dentro de casa não é nada melhor. Eu diria até pior, porque, vejam bem, se alguém te trata mal na escola, você logo corre, procurando refugio, no seu lar, né? Mas como, se sua família te trata da mesma forma? Ao contrário do desinformado que alugou o filme (se ele existisse nas locadoras, mas, hipoteticamente falando) e logo devolveu, chocado, pensou, aqui não teremos um happy end. Não espere uma história de superação, onde, no fim, todos vão acreditar que a beleza física não conta em nada... Onde todos formam um círculo e cantam uma canção de natal antes de se aconchegarem na lareira e abrirem os presentes (?). “Bem-Vindo” fala da realidade. Eu sou fiel à lei de que o cinema não precisa retratar a realidade do jeito que ela é. Na verdade, acho que o cinema serve muito bem pra ser uma fuga da realidade, pra gente se abster dos problemas por umas duas horas... Se é isso que você procura, vá de algum musical. Aqui, a realidade é o mais real possível. Ou seja, um inferno.

Se bem que o Todd Solondz, também roteirista, faz um retrato da adolescência e da vida fútil dos subúrbios de uma maneira até meio caricata. Só que sem deixar de ser verdadeira, real. Tem quem ache exagerado demais a visão dele das crueldades da adolescência, que ele coloca tudo que há de ruim no mundo nas costas de Dawn. Mas foi essa a intenção. Fazer uma caricatura da realidade, que não deixa de ser real, oras. O melhor exemplo disso é o ambiente da casa da protagonista. Sua irmã mais nova, de uns 7 anos, é o que todo mundo chama de “ooohhh, que linda!”. Olhos azuis, um rosto angelical, magra, lourinha, etc. E ela vive andando pela casa vestida de bailarina. Mais caricatural impossível. Enquanto a mãe da família baba pela pequena, a mimando em tudo, ela trata mal a pobre Dawn, que é chamada pelos colegas da escola de “cara de cavalo”. A irmãzinha, tão novinha, logo nota que ela tem vantagem sobre a irmã mais velha, e não perde a chance de usar isso contra Dawn. Essa, por sua vez, olha pra irmã, sempre sendo elogiada por todos, e logo conclui: como você tem sorte. Alguma coisa na cultura de Dawn a ensinou que nascer bonita é ser muito sortuda. E é mesmo. Em dado momento, quando está sendo agredida por uma valentona da escola, Dawn pergunta porque ela a trata mal, no que a agressora responde: “porque você é feia”. Numa das cenas mais cruéis, a mãe reparte um pedaço de bolo para toda a família, mas deixa Dawn sem comer. No final, o seu pedaço do bolo que ela não teve a chance de experimentar é repartido pela mãe aos dois irmãos. Um é inteligente, a outra, bonita. E Dawn, por causa da má-sorte de ter nascido daquele jeito, fica sem chocolate.

Mas tudo isso é tratado da forma mais diferente do convencional possível, e “Bem-Vindo” não é, em absoluto, um melodrama feito sob encomenda pra se chorar do início ao fim. Quer dizer, dá um aperto enorme no coração em várias horas, e é tudo cruel demais. Se a gente quase não aguenta assistir a tanta hostilidade, imaginem pra personagem, como não é. Mas o que mais gosto no filme é que o Todd Solondz, ao invés de fazer daqueles que maltratam a Dawn malvados e ponto, ele, na verdade, dá voz a esses personagens. Nós conhecemos a história por trás de um dos meninos mais detestáveis da escola de Dawn, que, inclusive, ameaça estupra-la. Vemos que ele sofre por não ser popular, por também ser “diferente”, inclusive não sendo convidado para as festinhas do colégio. Assim, ele desconta tudo naqueles que estão por baixo, por ser agredido por quem está por cima. Mas só enquanto estão todos vendo. Mais tarde, quando ele e Dawn, os dois excluídos, se encontram, fora da escola, eles acabam se tornando amigos. Até se beijam. Mas, ao fim do encontro, o garoto avisa: “se você contar o que aconteceu aqui pra alguém, eu te estupro, e dessa vez falo sério”. Talvez a parte mais tocante acontece quando Dawn sonha que todos ao seu redor dizem que a amam. A gente até tenta ter alguma esperança, mas no fundo sabemos que isso não é bem o estilo do Todd Solondz. Aliás, o diretor norte-americano já é uma figura e tanto. Começou fazendo produções independentes totalmente fora do padrão, como essa, e, depois de se tornar mais ou menos famoso, continua fazendo produções independentes fora do padrão. É ou não é de tirar o chapéu? Mas ele tem uma visão pessimista do mundo, e trata disso de uma forma ácida, às vezes irônica, e até com uma pitada de humor. Mas bem pouco, e um humor diferente. A gente definitivamente não consegue rir da história de Dawn. É um filme seco, cru, mas que mexe com a gente, mesmo que seja pra nos deixar pra baixo. Cumpre seu objetivo. A protagonista não é apenas uma coitadinha, ela está longe de ser eticamente perfeita. Na realidade, de tanto sofrer insultos, ela passa a ofender a única pessoa que consegue, seu único amigo, que está mais ou menos na mesma situação que ela. Em outro momento, Dawn se apaixona por um cara mais velho e super popular que começa a tocar guitarra na banda do irmão nerd, em troca de aulas de computação. Mesmo vivendo num mundo completamente hostil, Dawn ainda é uma sonhadora. Ela pede informações ao irmão sobre esse cara, e, de mal grado, ele lhe diz que o tal guitarrista sai com qualquer garota, desde que esta esteja disposta a fazer tudo que ele lhe pedir. E a Dawn: “aquilo das relações sexuais?”. O lugar que Dawn mais gosta de ficar, e que mais tarde é destruído pela mãe para que aconteça uma festa de casamento, é o seu clube no jardim, uma espécie de casa na árvore. Dawn o define como “clube das pessoas especiais”, e quando vai perguntar ao cara que ela se apaixonou se ele quer ser vice-presidente do clube, ele diz: “pessoas especiais? Dawn, você sabe o que isso significa? Pessoas especiais são a mesma coisa que retardados”. Se você curte os anti-Sessão da Tarde, bem-vindo à casa de bonecas.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

FALE COM ELA – Momentos que falam

Leia a primeira crônica que escrevi sobre Fale com Ela, há um ano, aqui.

Pra muitos, Almodóvar vem, com o passar dos anos, perdendo as maiores características que o fizeram famoso. O pessoal que prefere o cineasta de começo de carreira, onde ele se dedicava mais à comédia e ao kitsch, normalmente não é lá muito fã de filmes como Fale com Ela, de 2002. Bom, eu já penso diferente. Pra mim Almodóvar amadureceu com o tempo, e está, agora, no ponto máximo de sua carreira. Suas últimas cinco obras (consecutivas!) são, na minha opinião, obras-primas: Carne Trêmula, Tudo Sobre Minha Mãe, Fale com Ela, Má Educação e Volver. Discordo que Almodóvar deixou de lado as situações extremamente bizarras dos seus primeiros trabalhos, nesses últimos filmes. Elas ainda estão presentes, assim como outras de suas marcas pessoais, mas o fato é que Almodóvar amadureceu. Além disso, agora ele está investindo mais no melodrama, gênero que uma porção de diretores tenta fugir ao máximo, com medo de cair na pieguice. Almodóvar não tem medo de ser sentimental, porque, de fato, ele tem controle sobre nossas emoções, sobre as situações impostas por seus roteiros altamente originais. Talvez um dos únicos autores ainda em atividade que se dedicam muito mais ao sentimento que uma imagem ou uma cena traz do que ao choque, que pode levar às lágrimas fáceis. Não existe lágrima num filme do Almodóvar que não seja necessária. Nem dos personagens e nem nossas.

Na história, um enfermeiro cuida de uma bailarina em coma por quatro anos, segundo ele, os melhores de sua vida. No começo, pela dedicação do homem, pensamos que os dois deviam ter uma relação muito próxima, muito íntima. Mas estamos enganados. Num flashback que mostra a vida de ambos antes do acidente que a fez parar numa cama de hospital, descobrimos que os dois mal se conheciam. A casa dele ficava em frente à escola onde ela fazia aulas de balé, e, sendo solitário e passando horas de seu dia na janela, ele se apaixona por aquela desconhecida. Depois de um ou dois encontros meio desastrosos, ela entra em coma. Ele, que já havia feito cursos de enfermagem para cuidar da mãe doente, passa a se dedicar àquela moça. Além dos cuidados básicos, ele também faz algo inesperado: fala com ela. Conta-lhe o enredo de um filme que viu, de uma peça que lhe emocionou, conversa com ela da forma mais natural possível porque, como o próprio personagem diz, como podemos ter certeza de que ela não está ouvindo? E essa é só uma das histórias. Na outra, um jornalista começa a namorar uma toureira, que, num dia em que tem que tomar uma difícil decisão para sua vida pessoal, acaba sofrendo um acidente com o touro, que também a deixa em coma. Agora os dois homens começam a conviver juntos. Quantos filmes ruins Hollywood consegue fazer com uma história dessas?

E Almodóvar, sendo o mais sensível diretor em atividade, sabe o que fazer. Existem momentos em Fale com Ela de uma simplicidade quase banal, que em outras situações nós nem notaríamos, que dirá nos emocionaríamos. Mas Almodóvar adora fazer desses momentos simples algo maior, cheio de poesia. É o caso da troca de roupas da toureira, ou de outra troca de roupas: àquela em que a câmera focaliza por cima a moça em coma, enquanto os enfermeiros a trocam. Almodóvar sabe o que filmar, a hora de filmar, como filmar, qual música colocar ao fundo, se deve ser em câmera lenta ou não, além de como os atores devem reagir a algo. Ele sabe como construir momentos de uma emoção tão verdadeira, mas tão verdadeira, raramente vista no cinemão, que nós perdemos qualquer argumentação. Fale com Ela é, acima de qualquer outro do Almodóvar, um filme de momentos. A mais antológica cena é aquela em que vemos um filme mudo (ele também gosta de usar a metalinguagem de filmes dentro de filmes) onde um homem toma uma poção e encolhe, encolhe, encolhe até... adentrar dentro da vagina de sua amada. Pra nunca mais sair. Começa pelo fato de que Almodóvar não tem nenhum receio de simplesmente dar pausa na trama central pra contar outra trama, que dura quase dez minutos. Ele tem controle sobre seu filme, e não tem medo de que o ritmo do mesmo pise na maionese. Nós deixamos o envolvimento com aqueles personagens que já estamos apegados para acompanhar essa pequena história que, por sinal, faz completo sentido com o enredo principal. Em quantos outros filmes podemos ver um homem entrando dentro de uma vagina gigante? Melhor: em quantos filmes uma cena dessas é poética, e não chocante, impactante? É isso que faz de Almodóvar especial. Ele é único.


Não dá pra negar que grande parte de seus filmes mostram muito mais personagens femininos do que masculinos. Almodóvar não nega que se interessa e que gosta muito mais de filmar as mulheres e suas tramas de solidão, incertezas ou neuroses. Eu demorei um pouquinho pra notar que existe algo em Almodóvar muito mais complexo do que simplesmente uma paixão pelo “universo feminino”. É mais do que isso. Quando vi Tudo Sobre Minha Mãe pela primeira vez, foi paixão à primeira vista, e ficou mais do que claro pra mim de que ali havia uma das maiores homenagens às mulheres já concebidas pelo cinema. Mas tinha mais... Os personagens homossexuais, homens presos em corpos (que sonham em mudar) que não lhes parecem apropriados: aquilo me encucou. Talvez eu só tenha notado essa fusão dos gêneros depois de conferir Fale com Ela. É exatamente isso que Almodóvar parece querer dizer. Apesar de sua paixão assumida pela mulheres, aqui ele mostra os homens de uma forma pouco vista no cinema. Um dos personagens masculinos chora sem dó quando vê um belo número de dança, e depois vamos descobrir que é por ele não poder compartilhar esses momentos com a mulher que ama. Sem contar a questão mais social, já que uma das personagens femininas exerce uma profissão normalmente exercida por homens. Ela é toureira. Fica claro pra mim que Almodóvar quer confundir os sexos, anular as características que o cinemão impôs a cada um dos dois. Isso sem falar no personagem do Javier Cámara, que é, de longe, o mais complexo deles (e o favorito do Almodóvar, de todos os seus filmes, contando apenas os masculinos). Depois de viver anos cuidando da mãe, ele acaba sendo um pouco assexuado. É uma criança inocente, sem maldade. Mas aí ele se apaixona por àquela moça que vê pela janela, e as coisas se complicam, porque uma criança nunca está pronta para um relacionamento adulto. O próprio Almodóvar o definiu, entre outras coisas (já que seus personagens não podem, de maneira nenhuma, serem redimidos a apenas uma expressão), como “psicopata doce”. Ele não tem noção de seus atos, em alguns momentos, e se leva pela emoção. Por isso nós não julgamos suas ações finais. Nós seguimos gostando dele, torcendo por ele. Ninguém, até aqui, havia conseguido fazer um personagem que comete atos como estes, e que, no fim, não cai no nosso conceito. Nós o compreendemos, porque Almodóvar nos mostra seus motivos, nos mostra seu passado, abre espaço em seu psicológico para que o entendamos.

Fale com Ela é uma história de amor. Em todos os sentidos. É uma história de amor entre seus quatro personagens centrais, mas é também uma história de amor entre Almodóvar e seu cinema. Almodóvar ama sua trama, ama seus personagens e suas situações. Ele ama o que faz. Isso fica claro no cuidado com que focaliza cada um dos momentos, como já disse acima, e também na forma como faz sua trama caminhar. Acostumados que estamos com o cinema da expectativa, que nos prepara desde a primeira cena para as reviravoltas finais (às vezes desde o marketing, com frases do tipo “não revele o final”), nos assustamos com o que Almodóvar cria aqui (e não só aqui, já que todos os seus últimos filmes contém essa característica). A história de Fale com Ela (e de Má Educação, mas falo dele mais pra frente) apresenta uma das maiores surpresas que eu já tive o prazer de presenciar em um filme. Só que, o mais espantoso, é que as reviravoltas da trama soam de forma incrivelmente natural. O roteiro vai percorrendo, nós vamos nos envolvendo com os personagens, com as situações, nos emocionando, e, de repente, sem avisar, sem dar margem para uma preparação, ele parte pra outra rota. Demoramos um pouquinho pra nos recompormos, mesmo que essa surpresa não apareça de forma chocante. E ta aí outro ponto. Fale com Ela trata de temas pesados, fortes mesmo. Mas, com a maestria de um gênio, esses temas não aparecem saltados à tela. Nenhum deles é maior do que a história. Nada é maior no filme. Tudo anda em harmonia, em equilíbrio. Da complexidade dos personagens às reviravoltas, tudo é natural, cheio de lirismo. É cinema de amor, feito com cuidado, como um pintor que se dedica a um quadro, como um compositor que gasta horas compondo uma canção. É uma relação de amor de Almodóvar com seu cinema e de nós com o cinema de Almodóvar.

E, se vocês permitem que eu use apenas uma palavra para definir tal obra-prima, diria que Fale com Ela é um filme sobre a comunicação. Não é engraçado como ligamos essa palavrinha à boca e ao ouvido? Ao falar e ao escutar? Mas a comunicação de Fale com Ela não está ligada ao óbvio. Ele, na verdade, quer nos dizer que existem outras formas de se comunicar. Não apenas na fala. Às vezes num som, numa música. Aqui Almodóvar apresenta dois momentos que contam com importante participação da música brasileira: um deles mostra um show de Caetano Veloso, com uma performance verdadeiramente sincera, e em outro, uma canção do Tom Jobim e do Vinicius de Moraes, cantada pela Elis Regina, é tocada ao fundo de uma tourada (Almodóvar faz até das touradas um troço belo, vê se pode?). Há também a comunicação pela dança, pelos movimentos do corpo. O filme abre com duas bailarinas num palco, de olhos fechados, que usam toda a expressão que seu corpo lhes permite para transmitir as sensações, os sentimentos. Um homem, também no palco, tira várias cadeiras da frente das mulheres, pra que elas não se choquem contra esses obstáculos enquanto caminham com seus olhos cerrados. Além de uma metáfora à própria trama do filme, essa representação é também o modo de Almodóvar nos mostrar outras formas de expressão. E o que dizer da homenagem ao cinema mudo, que transmite emoções sem precisar da fala? O maior exemplo dessa mensagem da comunicação é o da própria situação dos personagens. As duas mulheres estão em coma, e, claro, não podem falar. Só que, mesmo não podendo utilizar as falas, elas causam naqueles homens grandiosas sensações. Ambos se emocionam com elas, nós nos emocionamos com elas, e as duas permanecem sem falar. O verbo presente no título do filme não está se referindo apenas ao ato simples de abrir a boca e soltar palavras. É um falar diferenciado, o falar pelas emoções. Coisa que Almodóvar sabe melhor do que ninguém. E está nos ensinando.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

UM ANO DEPOIS...

Esse é o filme e essa é a cena que melhor representam a felicidade. E hoje eu to muito feliz. Com um sorriso no rosto mesmo

É com muita emoção que venho aqui para dizer que hoje o bloguinho está completando um ano de existência! O nosso bloguinho, como sempre gostei de deixar claro, onde eu tento expor um pouquinho minha relação de amor com o cinema. Não gosto que chamem meus textos de críticas, e nem que me chamem de crítico. Crítico, eu? Prefiro que me chamem de “amante do cinema”, ou de “aquela-criatura-que-escreve-sobre-filmes-com-toda-a-paixão-e-emoção-que-lhe-vêm-no-momento”. Ou de Luciano mesmo, pode ser. Ah, o bloguito é nosso, de todos nós, porque, vem cá, o que é um blog sem seus leitores e comentaristas? Pode ser o mais estupendo do mundo, mas, corrijam-me se eu estiver errado, se ninguém o lê, ahn... qual a graça? E eu tento abrir o máximo de espaço pra vocês me darem sugestões sobre quais filmes comentar, sobre novas enquetes, além de joguinhos legais, vídeos, etc. Tento fazer desse espaço o mais aberto possível. Mas os bolos e as barras de chocolate pra comemorar o nosso 1 ano juntos vocês podem mandar pra mim, que eu faço o sacrifício de comer por todos vocês. Vai ser difícil, mas o que não faço pelo bloguinho?

Pra quem nos acompanha desde 3 de novembro de 2008, sabe muito bem das mudanças e dos perrengues que já passamos. Primeiro, comecei escrevendo e postando um texto novo a cada dia. Mas minha vida foi ficando cada vez mais apertada, e, quando eu comecei a ver uma queda na qualidade dos meus textinhos, resolvi mudar. Agora escrevo dia-sim, dia-não. Eu sei que os dias-não são tristes pra vocês (cof, cof), mas pra mim desse jeito ficou bem melhor. Dá pra eu respirar, de vez em quando. Apesar de eu adorar escrever (só não gosto da hora de postar – sempre dá problema com as imagens), todo santo dia fica cansativo. Se bem que meus textos estão ficando cada vez maiores. Não é minha intenção, juro. Eu não me esforço em momento algum pra fazer um troço grande, e assim parecer (só parecer) respeitável. Mas também não sei explicar bem o motivo de meus textos virem crescendo e crescendo a cada dia. Só sei que no começo eu apenas citava algumas coisinhas sobre o filme que estava comentando, falava sobre as cenas que mais me marcaram, às vezes sobre a repercussão dele, etc. Modéstia ao quinto dos infernos, mas meus textos tiveram uma evolução bem notável, não acham? Assim como os comentários de vocês, que vêm ficando cada vez melhores. Como já disse, o que mais gosto no blog, e o que mais acho importante, é a interação entre todos nós. Minha intenção maior ao criar um blog era conhecer pessoas que amassem o cinema tanto quanto eu. E eu cumpri meu objetivo. Fiz grandes amigos aqui. E as discussões que rolam nos comentários são sempre um máximo. É bem comum, num blog, aparecer um chato que não concorda com a opinião de alguém e que parte pra baixaria. Quando comecei isso aqui, um monte de gente me avisou pra preparar o capacete pras pedradas dos fãs de Speed Racer. Mas isso só aconteceu umas duas vezes (e nem foram com os admiradores do filme dos carrinhos). No geral, existem muitas opiniões diferentes, nos comentários, mas todos vocês respeitam os pontos de vista contrários aos seus próprios. Isso me alegra demais!

Ah, e os leitores mais antigos provavelmente se lembrar daquela vez em que, sem querer, eu apaguei 25 postagens, junto com os comentários de vocês referente a elas, sem mais nem menos. Foi uma catástrofe! Depois custou pra eu recolocar os textos, que, felizmente, eu tinha guardados no computador, mas, mesmo assim, os comentários de vocês foram pro beleléu (não me perguntem onde isso fica). Bom, vamos aos números. Em um ano de bloguinho foram mais de 40 mil visitas (se bem que não dá pra confiar nesse contador, porque a técnica dele de contar não é lá muito honesta) e 214 postagens (essa é a 215ª), além de um monte de comentários que o blogger não diz quantos, no total (agradeço enormemente a cada um de vocês, que passam aqui sempre pra deixar um “oi” pra mim ou pra deixar seu parecer sobre algum filme – os comentários são a coisa mais importante pra um blogueiro, podem acreditar). Foram também 8 enquetes (sem contar a que ta acontecendo agora), com uma média de 76 votos pra cada uma delas. E... acho que é isso! Ufa! Torço pra que vocês continuem acompanhando e comentando, porque eu não pretendo parar. Agora, pra finalizar, em homenagem ao bloguinho, vou contar a única, porém engraçadíssima, piada sobre filmes que conheço. Seguinte: um cara chamado Oscar tinha uma horta no jardim de sua casa, e a adorava. Cuidava dela todo dia. Daí, certa noite, uma tempestade destruiu a horta de Oscar, e ele, destruído, saiu correndo, sem rumo, sem destino, desolado... Qual o nome do filme? Oscar sai doido da horta perdida. Entenderam? Ah, gente, Indiana Jones. E vocês que achavam que meu maior dom era escrever crônicas de cinema, né? Isso porque ainda não tinham conhecimento de meus dotes piadísticos. Telefone para contato e agendamento de shows: 3066-66... Favor falar com meu agente. Ah, ano que vem, na comemoração de dois anos do bloguinho, tem mais (piadas). Eu sei, vocês mal podem esperar.

domingo, 1 de novembro de 2009

TIROS EM COLUMBINE – Abaixe esse pedaço de frango, senão eu atiro

Tiros em Columbine é um desses filmes acima do bem e do mal. Quem somos nós, meros mortais, para fazermos qualquer crítica a um dos documentários mais Importantes dos últimos anos? O Michael Moore, talvez o documentarista mais famoso de todos os tempos, alcançou enorme prestígio (e muitos inimigos) quando lançou “Tiros”, em 2002. Ficaram famosas as histórias dos 13 minutos seguidos que o filme foi aplaudido durante sua primeira exibição, e do discurso do Mike ao ganhar o Oscar. Ele disse algo como: “Faço não-ficção em um país que numa eleição fictícia elegeu um presidente fictício que nos mandou para uma guerra fictícia”, e finalizou com “tenha vergonha, Mr. Bush”. Isso porque fora proibido qualquer menção à guerra do Iraque nos discursos da cerimônia. Mas, óbvio, todo mundo já sabia que o Michael não ia ficar calado, se ganhasse o Oscar. E “Tiros” estava sendo tão aclamado, que se ele não levasse o prêmio de melhor documentário daquele ano, o pessoal se revoltaria. Mas esse discurso só foi novidade pra quem não conhecia o autor do best-seller Stupid White Men (Estúpidos Homens Brancos), e àqueles que detestam o Michael e, contra ele, na falta de argumentos, usam sempre expressões do tipo “esse gordo” como ofensas sem fundamento. Vejam o desnível: em Stupid White Men, o Michael, o maior crítico do ex-“presidente”, talvez um dos únicos americanos de esquerda (além de feminista!), fala sobre um planeta dominado por homens (não no sentido generalizado, mas sim àqueles com pênis) brancos que pensam que nos enganam destruindo o planeta pra encher seus bolsos de verdinha e aumentar seu nível de poder (o livro parte da eleição de mentirinha que elegeu o “presidente” Bush). E como vários americanos, irados, respondem a isso? O chamando de gordo, como se isso fosse a maior ofensa do mundo. O Mike realmente deve se importar demais com essas coisas (bocejo). A gente merece...

Mas vamos a Tiros em Columbine, pra muitos o melhor documentário do cara (eu não tenho certeza, já que também adoro Roger e Eu, Fahrenheit e Sicko). Aqui, o Michael parte do fato dos dois alunos que entraram numa biblioteca de uma escola num subúrbio americano, e mataram vários alunos, sem nenhuma razão clara. O filme começa com uma narração nos dizendo que se iniciava mais um dia comum na América: o fazendeiro fez suas tarefas, o leiteiro entregou o leite, o presidente bombardeou mais uma cidade cujo nome não conseguimos pronunciar... Já vão se acostumando, porque o Michael fala de temas sérios, mas sempre com o bom humor ácido e irônico que lhe é costumeiro. O tiroteio na escola de Columbine é só o começo de um leque de questões que o documentário vai abordar. Fala, principalmente, sobre a cultura do medo e da paranóia que existe nos Estados Unidos. Quer dizer: o nível de criminalidade está diminuindo, mas o medo coletivo só aumenta. Os americanos não param de comprar trancas pra suas portas, além de armas pra colocar debaixo do travesseiro (em um caso, literalmente). E, vejam bem, no Canadá, na Alemanha, na Inglaterra e em vários outros países, é vendido o mesmo tanto de armas que nos Estados Unidos. Então porque, ó dúvida, mais pessoas são assassinadas na Terra das Oportunidades? É essa a maior pergunta que o Michael faz durante o filme, e, até o fim, teremos uma resposta.

Pra vocês que acham que documentários são uma grande chatice, não temam: “Tiros” é divertidíssimo, engraçado mesmo. O Michael sabe usar tudo à favor do humor: a narração, a edição, os discursos hipócritas dos conservadores. Por exemplo, depois que nos é narrado os acontecimentos em Columbine, nós conhecemos as consequências do massacre. A principal delas é a paranóia americana, que já era presente antes, e só aumentou. O Michael nos conta um caso real de uma criança de 8 anos que foi suspensa da escola por apontar um pedaço de frango pra professora e dizer “bang, bang!”. O Mike não perde a chance, e inclui seu parecer numa narração: “Realmente, todas as crianças viraram monstros”. Mas, de quem é a culpa? Do Marilyn Manson. Num dos melhores momentos de “Tiros”, o Michael vai entrevistar o cantor de rock, que é acusado pela direita-cristã de ser má influencia para os jovens, e, consequentemente, o culpado pelas mortes em Columbine. Podia ser apenas uma entrevista interessante, onde o Marilyn Manson daria seu parecer sobre as acusações que caíram sobre ele. Mas o Mike vai além. Ele usa a edição para nos fazer rachar de rir com a burrice dos conservadores cristãos. Dois momentos são entrelaçados pela edição sarcástica: no primeiro, a entrevista com o Manson, sereno e muito inteligente em suas colocações; e, no outro, um protesto de um pobre cidadão contra o cantor, alegando que o problema da violência é totalmente culpa dele. Tipo assim: enquanto ouvimos protestos de um ser praticamente comparando Manson ao demônio, vemos o próprio roqueiro na entrevista mais coerente do filme, e, pasmem, nenhum pouco demoníaca.

Para quem costumava dormir nas aulas de História, o Michael apresenta um curta em desenho animado rápido, eficiente e, óbvio, muito engraçado, sobre a trama dos Estados Unidos desde as colonizações até à cultura do medo que se instalou no país. Michael acredita que toda essa paranóia que assola os Estados Unidos, único e exclusivamente, é culpa da mídia. É hilariante quando um âncora de um jornal diz: “Seja discreto. Evite que notem que você é americano”. O Mike, pra corrobar melhor sua tese, vai até o Canadá e, sem visar, sai pela rua abrindo a porta de todas as casas. E todas elas estão abertas. Não existe todo esse pavor inconsciente. Por que na América, apenas? Porque a paranóia gera lucro? Humm, pode ser. Pra finalizar, o Michael vai entrevistar o Charlton Heston, o presidente da Associação Nacional dos Rifles, que fez um discurso pró-armas poucos dias depois de Columbine, e, mais uma vez, depois que um garoto de 6 anos matou sua colega de escola da mesma idade, com a arma que trouxe de casa. Michael o joga contra a parede. Ao perguntar por que nos EUA, por que, Heston responde que isso se deve pelo “nosso passado sangrento”. No que o Michael ataca: “ué, mas a Alemanha e a Ingleterra não tiveram um passado sangrento?”. É claro que, lá pelas tantas, Heston deixa a sala, se negando a finalizar a entrevista, no que deve ser uma das maiores façanhas do Michael. Se bem que eu prefiro um outro momento do filme, quando o Mike entrevista o produtor daqueles programas de perseguição policial (branco) ao criminoso (negro), que fazem a cabeça dos americanos (“uau, deram uma porrada no bandido! Massa! Me passa o ketchup?”). Desculpa, gente, mas tenho que dizer: às vezes eu acho difícil acreditar que o Michael seja americano. Ele faz filmes e escreve livros cheios de humor inteligente (e já começa aí meus questionamentos sobre a real nacionalidade do Mike), nos faz rir e pensar, nos faz querer colocar a mão na massa pra mudar algumas coisinhas, e, acima de tudo, implementa em nossas cabeças a seguinte pergunta: esse é mesmo o país com maior poder da Terra? Oh, estamos perdidos. Mas se existem americanos como o Michael, e se seu humor corrosivo conseguir fazer com que outros americanos levantem o traseiro de seus sofás de couro e o sigam nessa luta contra a hipocrisia, então, aí sim, podemos crer em algo melhor pro futuro desse planetinha. Quantos filmes o Michael Moore precisa fazer até que o primeiro americano note como o resto do mundo ta se rachando de rir deles, e não com eles? Vocês podem achar que eu to sendo injusto, mas, sério, experimentem conversar com um americano, se tiverem coragem. Impressionante como eles acham que o mundo ta girando ao redor de seu umbigo. Se você perguntar pra dez americanos se eles gostariam de vir pro Brasil, eu tenho certeza que pelo menos metade vai responder: “ugh, aquele lugar cheio de índios?”. Não é culpa deles não entender muito de geografia e história. É que não há tempo pra essas coisas sem importância. Estão todos preocupados demais em comprar o máximo de munição pra proteger seu belo país contra esses africanos invasores. Depois de Tiros em Columbine, a gente vai pensar duas vezes antes de comer frango perto de algum americano. Pelo menos eu vou, que não quero meus miolos espalhados por aí.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

ENQUETE: QUAL O MELHOR FILME DO ALMODÓVAR?

María Barranco, Rossy de Palma, Julieta Serrano e Carmen Maura: as mulheres à beira de um ataque de nervos do Almodóvar

Serei bem sucinto (vou conseguir, vocês vão ver). Aproveitando que a estreia nacional de Abraços Partidos, o novo filme de um dos mais aclamados (e com razão) diretores da atualidade, o genial Pedro Almodóvar, está próxima (dia 20 desse mês), vamos para uma das enquetes mais difíceis de votar que já fizemos. Quiçá A Mais difícil. Porque, sério, como escolher um filminho só da carreira do Almodóvar, com no mínimo cinco obras-primas? Impossível sem ficar com dor na consciência. Mas creio que ninguém ficará tão indeciso na hora de votar quanto eu, fã número um do Almodóvar. Se pra escolher quais filmes entrariam na enquete eu já quase entrei em curto circuito, imaginem na hora de escolher apenas unzinho. Seguinte, primeiro pensei em incluir todos os seus longas, que não são tantos, em comparação com outros diretores (só que a carreira do Almodóvar está longe de terminar, eu espero). Mas aí pensei: poxa, pouca gente viu seus primeiros filmes, como Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón (1980), Labirinto de Paixões (82), Maus Hábitos (83), Que Fiz Eu Para Merecer Isto? (84), e A Lei do Desejo (87). Nem o fã número 1 do Almodóvar (moi) teve o prazer de conferir todos esses. E é quase unanimidade: Almodóvar amadureceu com o tempo, e seus primeiros filmes estão longe de serem tão bons quanto os últimos. Então, deixei esses de lado (mas, se tiverem oportunidade, não deixem de vê-los). Da década de 80, a primeira do Almodóvar, inclui apenas os mais famosos: Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (88) e Matador (86). Na década de 90, a mesma coisa. De Salto Alto (91), Kika (93) e A Flor do Meu Segredo (95), apesar de bons filmes, não estão no mesmo nível dos melhores do cara, e pouca gente os viu (nem sei se todos eles estão disponíveis em DVD no Brasil – acho que só Kika). Mas o primeiro dessa década, Ata-me! (1990), não posso deixar de incluir de jeito nenhum, senão vocês me comem vivo. Muita gente ama esse filme. Agora, de 97 pra cá, é óbvio que eu inclui todos. São suas cinco maravilhas, na minha opinião, seus melhores filmes: Carne Trêmula (97), Tudo Sobre Minha Mãe (99), Fale com Ela (2002), Má Educação (2004) e Volver (2006). Posso até ver a cena: o fã número 1 do Almodóvar (já sei, se eu falar isso de novo vocês param de ler) na frente do computador, tentando encontrar um motivo para votar em um desses cinco filmes, e não no outro. Complicado. Vocês têm pouco mais de duas semanas para votar, enquanto ficamos no aguardo do dia 20 (dica: para aliviar o nível de ansiedade, comam chocolate, porque está comprovado cientificamente que ajuda. E revejam os outros trabalhos do Almodóvar. Ver algum desses grandes filmes enquanto comemos chocolate – o que mais podemos querer da vida?).

Obs: releiam a primeira frase desse textinho. Ér... acho que não foi dessa vez.
Obs 2: já escrevi sobre alguns do Almodóvar. Meus textos de Carne Trêmula, Fale com Ela e Volver estão aqui, aqui e aqui, respectivamente. E, até o fim da enquete, quero escrever sobre mais alguns.
Obs 3 (e última, juro): hoje seria a última exibição de Los Abrazos Rotos na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e eu fui comprar o meu ingresso, feliz e saltitante, três horas antes da sessão começar. E, mesmo assim, estava esgotado. Agora só 20 de novembro mesmo. Se me dão licença, vou até ali comprar algumas barras de chocolate.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

E QUE MENTE...

Vocês já viram esse curta intitulado A Mente de Tarantino, de uma dupla carioca de diretores que o pessoal chama (não me perguntem o porquê) de 300ml? Provavelmente já. Acho que todo o mundo já tinha visto esse filme de 15 minutos. Menos eu. Quando meus amiguinhos dizem que eu vivo numa bolha, eu lhes lanço um olhar mortal, e daí eles retiram o que disseram, porque não são bobos. Mas às vezes eu tenho que concordar com eles (que os próprios não me ouçam). Nunca tinha ouvido falar de Tarantino’s Mind, eu, fã do próprio que dá título ao curta. E também gosto do Selton Mello, o protagonista. Fora que ele é bastante conhecido. Foi um dos filmes mais votados num festival de São Paulo internacional de curtas e tal. Opa, até dois dias atrás eu não sabia nada sobre o filminho. Hoje sou praticamente um expert no assunto. Como vocês, que não vivem numa bolha, provavelmente já viram, não vou resumi-lo. Agora, vamos combinar, a ideia de dois amigos (o Selton e o Seu Jorge) sentados num bar discutindo a teoria de que todos os filmes do Tarantino (menos Jackie Brown, que tem roteiro adaptado) são, na verdade, apenas um filme, é muito massa. Vocês podem atacar dizendo que é tudo viajado demais. Algumas coisas sim, é verdade (o que não as desmerece, porque ainda são engraçadas e interessantes). Mas outras... Por exemplo, minha parte favorita é aquela em que o Selton explica que um dos personagens de Pulp Fiction é o mesmo de um de Cães de Aluguel, com, inclusive, o sobrenome igual. Segundo nos diz o Selton, a maleta que o John Travolta e o Samuel L. Jackson vão buscar no começo de Pulp (cujo conteúdo nós não conhecemos – apenas vemos o reflexo de umas luzes brilhantes vindo de dentro dela) é a mesma que o Steve Buscemi leva consigo no final de Cães, contendo os diamantes roubados. Coincidência? Em se tratando da mente do Tarantino? Duvido. Também adoro quando ele diz que a noiva de Kill Bill é a própria personagem da Uma Thurman em Pulp, anos depois. Para estruturar sua tese, o Selton nos lembra que a Uma explica ao John, na deliciosa sequência do bar, que havia participado de um programa piloto onde interpretava uma especialista em... facas. Além do que, as duas personagens se expressam bastante pelos pés (mas isso tem mais a ver com a tara que o Tarantino tem pelos pés da Uma). Ah, e o curta tem mesmo o estilo dos filmes do Taranta, com os diálogos sem conexão com nada de relevante e com o Selton Mello (hilário!) soltando palavrões originais. Mas só é recomendado pra quem já viu os filmes do Tarantino. Quem ainda não viu, só tenho uma perguntinha: vocês vivem numa bolha?!

A mala dos diamantes de Cães de Aluguel?

domingo, 25 de outubro de 2009

O CRIME DO PADRE AMARO – A gente já conhece essa instituição caquética

Esses dias vi O Crime do Padre Amaro na escola, já que esse filme mexicano é baseado numa obra do Eça de Queirós (o vestibular nos aguarda, ó, pressão), com toda a minha sala de, ahn, 35 alunos. Eu pensei: se eles sobreviveram a Denise Está Chamando, a Adeus, Lênin! e a Roger e Eu (não tenho tanta certeza quanto ao último, já que 99,9% do pessoal dormiu de babar e roncar – foi assustador), “Padre Amaro” vai ser fichinha. E foi. Eles gostaram, eu acho. Mais do que eu, talvez. Não que eu não tenha gostado. Gostei sim, e qualquer filme contra a Igreja Católica (porque a gente escreve isso com letras maiúsculas?) merece todo o meu respeito. Mas “Padre Amaro” não é lá muito marcante, e, perdão, não merece o título que alguns lhe deram de “o filme que revolucionou o cinema mexicano”. Cuma? Será que essas pessoas conferiram os bárbaros Amores Brutos e E Sua Mãe Também, ambos anteriores a “Padre Amaro”, ambos filmes mexicanos bem mais interessantes?

Mas tenho um palpite do motivo pelo qual esse longa de 2001 ter sido considerado, na época, um marco para o cinema do país. É que ele fez uma dinheirama ao redor do mundo. Quer dizer, não pros padrões de Hollywood, que a bilheteria total de “Padre” é, certamente, o mesmo custo do cachê do gatinho coadjuvante de Garfield, mas prum filme mexicano, ele fez bonito. E o Gael García Bernal, que vive o protagonista, e que está bem, não brilhante, já era um rostinho conhecido antes do filme. Depois, então, vish, se tornou o ator mexicano mais aclamado atualmente. Pessoalmente, sou fã do Gael, e, mesmo sua carreira estando longe de se encerrar, ele já tem um número de excelentes atuações no currículo pra dar e vender. É sério! Qual outro ator pode dizer que participou de tantos grandes filmes? Mas, é claro, poucos atores (principalmente americanos) aceitariam fazer metade dos papéis que o Gael já fez (vide Má Educação). E, mesmo hoje sendo um ícone, ele ainda não se entregou às comédias românticas do cinemão. Pra mim não é só um dos melhores, como também um dos mais inteligentes atores em atividade. Opa, mas vamos a “Padre Amaro”. Na história, o padre do título é um recém-ordenado que se muda para a cidade de Los Reyes, para ajudar um outro padre, já velhinho. Daí ele vai conhecer toda a corrupção por trás da igreja e, mais tarde, se envolver num caso de paixão carnal com uma jovem. Pra ser sincero, achei tudo café-com-leite demais. Sei lá, imaginava um troço um tiquinho mais ousado, mais diferente. Até no estilo. Ele é, na verdade, muito convencional. Não que isso seja necessariamente um ponto negativo, até porque, é um filme bem feito, mas eu queria inovação na forma da história ser contada. Todas as críticas à igreja são bem-vindas, mas não há nada de novo, nada que nós já não saibamos. Se bem que eu não entendo um monte de coisas no cristianismo. Vamos ficar no básico: como que, mesmo hoje, séculos depois da época em que a igreja comandava e estava acima do bem e do mal, anos depois da revolução sexual, essa instituição continua vivinha da silva? Nunca escondi que acho que um dos primeiros passos para chegarmos numa sociedade igualitária é dando uma bela revisada nas leis de convivência e nas regras de mandamento do catolicismo (e nem vou entrar nas questões da pedofilia e corrupção que acontecem nesse meio). Há quantos anos essas regras foram feitas? Há um tempinho, né? E como a gente bem sabe (alguns fingem não saber), o mundo dá voltas, como diria a música pegajosa e deliciosa de Hairspray, e algumas coisas estão indiscutivelmente datadas. Eu disse algumas coisas? Se eu fosse parar pra falar o tanto que acho o catolicismo (e outras religiões também, mas, de novo, prefiro ficar com o que está mais próximo da minha realidade) machista, xiii, ficaríamos aqui a tarde toda.

A cena em que houve maior alvoroço entre meus amiguinhos foi uma em que o padre leva o manto de uma santa para fazer uma espécie de joguinho sexual com sua parceira. Ele pede para ela se cobrir, nua, com o manto. Foi um tal de “ohhh, como ele pode?”. Vai entender... Só uma curiosidade: minha escola é católica, mas não muito conservadora, e dou graças a isso. Quer dizer, nossa aula de ensino religioso abrange todas as religiões, e tem muito a ver com cada um encontrar a religião em que mais se encaixa, em que mais se sente bem. Tenho um amigo que estuda em outro colégio, também católico, e vive dizendo que, em sua aula de religião, ele é obrigado a rezar não sei quantas ave-marias e pais-nosso, sem dizer nenhum palavrinha a mais. Sem contestação. Isso porque vivemos numa época em que cada um tem o direito de se expressar como bem entender, porque se não...

E não é engraçado como o livro que inspirou o filme, escrito em 1875, tenha temas nenhum pouco envelhecidos, pros dias de hoje? Quem quer prova maior de que nada na igreja mudou durante os séculos de sua existência? Toda uma sociedade lutando por direitos iguais, várias minorias se unindo pra provar que o conceito da palavra “normal” é equivocadamente usado, e a igreja dando discursinho anti-camisinha? Ahh, dá licença. “Padre Amaro” não é “um dos filmes mais controversos já feitos”, como diz o seu cartaz, e nem de longe é melhor que Cidade de Deus, filme que bateu de frente com ele (e perdeu) em várias premiações, mas ele merece certo respeito por, pelo menos, tentar. E, surpreendentemente, tocou na ferida. Ou vocês realmente acham que a igreja ia ficar calada? Há! Aconteceram protestos por parte de católicos mexicanos, condenando o filme. Me digam uma coisa, esse pessoal é burro ou o quê (com todo respeito aos animais originais)? Porque até parece que quem faz esse tipo de protesto não sabe que tudo o que é proibido atrai multidões. Ta aí a bilheteria que não me deixa mentir. E, juro, eu não queria falar sobre isso, mas o texto foi correndo, e, vejam só, acabamos chegando no assunto das coisas proibidas. Diz um dos mandamentos católicos que é proibido desejar a mulher do próximo (porque não “o homem do próximo”? Porque os mandamentos são feitos por homens e pros homens). E a gente escolhe quem a gente deseja, por um acaso? Porque não se concentrar em mandamentos mais dignos, como “não estuprarás”? Ah é, porque a igreja não considera o estupro um pecado tão terrível assim, em comparação com o aborto. Foi mal. O que me faz lembrar de outra coisa: em um dos filmes do Monty Python, O Sentido da Vida, um casal católico com mais de uma dezena de crianças canta, no melhor estilo musical, uma canção cujo refrão repete: “não desperdice o esperma”. E tem gente que acha O Crime do Padre Amaro uma novidade bombástica e revolucionária?

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

UM BONDE CHAMADO DESEJO – Olé! Nada pode censurar tanto desejo

Quase 60 anos depois, A Streetcar Named Desire continua ardente, e ainda é o maior parâmetro de atuações e de "olé!" na censura

Me recuso prontamente a chamar Um Bonde Chamado Desejo, que está próximo de completar 60 anos de existência, pelo título que lhe foi dado aqui no Brasil. Uma Rua Chamada Pecado, como hoje é, felizmente, bem menos conhecido, não é constantemente incluído na lista dos top top clássicos à toa. A história por trás do filme deveria estar registrada em todos os livros de História, pra todo mundo ter conhecimento de como a sociedade vem caminhando, e de como ela era e tratava certos temas há alguns anos. No caso, o sexo, o desejo. Palavras que resumem o filme e que aqui no Brasil foram substituídas por uma só: pecado. Vejam só vocês, o sexo e o desejo eram ligados a arder eternamente no fogo do inferno. Mas as coisas mudaram, certo? Ok, alguns ainda acreditam nessa ideologia, não têm capacidade para mudar suas cabecinhas duras. E já dizia o ditado que quem vive do passado, é museu.

Mas esse ditado só se refere a esses pensamentos ultrapassados, não a obras imortais como “Bonde”. É triste que essa nossa geração viva cheia de preconceitos e não tenha tempo a perder com essas velharias. O que me faz lembrar de um fato que, se não fosse triste, seria engraçado. Uma amiga me pediu O Iluminado, o livro, emprestado, no que eu respondi que, ah, desculpa, eu não tenho, mas tenho o filme, serve? Ela, claramente apavorada, respondeu: “Eca! Não, nem morta. É muito antigo. Deve ser mal feito”. Eu: “Mal feito? Não! E nem é tão antigo assim. É da década de 80”. Ela: “É em preto-e-branco?”. Triste, triste... Tem um diálogo em “Bonde” que resume bastante isso. É quando a Blanche DuBois, uma professora, diz ser muito difícil dar aulas de inglês, já que seus alunos adolescentes não dão a mínima pras obras literárias escritas antes deles nascerem. É o mesmo que acontece hoje, com “Bonde” e com qualquer outro filme dos anos 90 pra baixo (o que explica o motivo dessa maldição que assola a terra, os remakes). Se forem filmes sobre relacionamentos humanos cheio de diálogos então, vish, é melhor desistir.

Mas se você é livre de preconceitos, parabéns, “Bonde” está disponível em DVD com uma versão sem cortes, do jeitinho que o diretor queria que fosse na época (com sorte você o encontra nas locadoras – ou lojas – mas, como bem disse uma leitora querida, a Camila, numa cidade – a dela – em que o filme mais procurado da locadora é Carga Explosiva 2, fica complicado encontrar os clássicos). Mas vamos do começo. O filme é baseado numa peça do Tennessee Williams, que já havia sido montada na Broadway e em algumas outras partes do mundo. Inicialmente, nenhuma produtora queria passar o texto de Williams pro cinema, fugindo de qualquer ousadia e da perseguição da censura como o diabo foge da cruz. Até que a Warner decidiu que, ah, vamos tentar! Pro filme foi chamado quase todo o elenco da peça, incluindo Marlon Brando, da montagem da Broadway, e Vivien Leigh, que fora Blanche numa montagem de Londres, e que já havia vivido uma personagem marcante do cinema há alguns anos, em E O Vento Levou. Williams participou da adaptação, e o diretor escolhido para o projeto foi Elia Kazan, o mesmo da Broadway. Kazan era conhecido por dar completa liberdade aos seus atores. Ele detestava que diretores dissessem que um ator deveria agir assim ou assado. Pra ele, o próprio ator deveria encontrar o personagem dentro de si, e sua versão dele poderia muito bem ser diferente da que o diretor havia pensado. Assim, tudo pronto para o início das filmagens, um órgão que censurava os filmes na época, ao ler o roteiro, exigiu que algumas partes fossem cortadas. Isso porque, pra época, a trama de “Bonde”, em que uma mulher, Blache DuBois, deixa sua cidade, no Sul dos Estados Unidos, para passar um tempo com sua irmã, Stella, e com seu cunhado, Stanley, que não gosta dela, era incrivelmente ousada. É um filme que fala, principalmente, sobre sexo. Blanche, professora de inglês, havia se envolvido com alguns de seus alunos, mais jovens do que ela, e, por isso, fora expulsa de sua cidade (Kazan chegou a cogitar em realmente mostrar essas cenas, mas no fim decidiu por manter do jeito que era na peça, com o passado da personagem apenas sugerido nos diálogos). Stella, mesmo tendo um marido grosso, arrogante e crianção, não conseguia parar de desejá-lo. Quando Blanche chega ao lar do casal, a tensão sexual entre ela e Stanley é muito forte, e só tende a aumentar até o clímax. Além do ex-marido de Blanche, agora viúva, ter sido homossexual. Esperando cortar o máximo dessa pouca vergonha, a censura tirou do roteiro qualquer menção à sexualidade do ex-marido de Blanche. E também queria cortar uma das cenas chave do filme, a do estupro.

Nesse ponto, Kazan e Williams se revoltaram, alegando que não tinha jeito de tirar essa sequência. Os censores pediram para que o estupro não fosse real, fosse apenas um sonho, o que não faria sentido algum. Finalmente, depois de muita insistência, o diretor e o roteirista conseguiram permissão para rodar a cena, contanto que ela fosse feita com “bom gosto”. Ah, e a censura só cedeu com uma condição: Stanley, o estuprador, tinha que ser punido no fim, sendo abandonado por sua esposa definitivamente, fato que não ocorre na peça. Tudo acertado, era ora de gravar.

As filmagens correram perfeitamente bem, até que “Bonde” finalmente estava pronto para entrar em cartaz. Na pré-estreia, uma cena em especial causou enorme alvoroço nos espectadores. A plateia gargalhou nervosamente quando Blanche flerta com um jornaleiro muito mais jovem do que ela. Como esse não era o objetivo, já que “Bonde” é um filme sério, Kazan resolveu cortar um pouco dessa sequência. Como se vê, o público também não estava lá muito acostumado com os temas da peça, o que só vem corrobar a tese de que “Bonde” sempre foi muito à frente de seu tempo. Daí, agora sim, se preparando para entrar em circuito oficialmente, a Legião da Decência, um órgão criado por católicos em 1933, condenou o filme, o que fez vários cinemas se recusarem a exibi-lo. E isso significaria suicídio de bilheteria. Tentando entrar em um acordo, a Warner, sem a autorização de Kazan, cortou mais cenas que a tal Legião considerava absurdas. Talvez a sequência mais famosa do filme, aquela em que Stanley grita “Stellaaa” (parodiada em alguma animação da Dreamworks – Os Sem-Floresta? – onde um animal gerado por computador grita “Stella”, imitando Marlon Brando), foi picotada por essa Legião católica. Cortaram justamente a expressão de Stella ao ouvir seu marido, que mostra todo o seu desejo por ele. Refizeram a trilha sonora dessa parte, tornando-a menos sensual e muitíssimo mais genérica e clichê. Tiraram também uma das falas antológicas, onde as duas irmãs conversam sobre o bonde que passa pela cidade, chamado desejo. Stella pergunta se Blanche já andou nesse bonde, no que ela responde: “Ele me trouxe até aqui, onde não sou bem-vinda”. Kazan ficou decepcionado, mas não conseguiu voltar com essas partes, e o filme acabou sendo classificado pela Legião da Decência com um “B”, de parcialmente condenável.

O impressionante é que, mesmo cortando todas as partes mais explícitas que mostram o desejo dos personagens, num filme que fala justamente – vejam só! – sobre desejo, mesmo assim, ele continuava pegando fogo. Até hoje “Bonde” é considerado um dos maiores exemplos de “olé!” na censura de todos os tempos. Eles podiam cortar o tanto que quisessem, mesmo assim “Bonde” continuaria irresistível. Prova disso é que o longa redefiniu o cinema a uma nova era, à era sem essa indecência não-sei-o-quê-da-Decência. Depois dele, se alguém ainda tinha alguma dúvida de que isso de sair cortando o filme alheio era uma falta de respeito não só com os realizadores, mas com o público também, passou a ter completa certeza. Hoje, felizmente, a versão que vemos é a completa, sem os cortes. E toda essa tramóia da censura é só um dos fatores pra “Bonde” ser um marco. O outro são suas atuações, que é quase unanimidade entre os atores e estudantes de artes cênicas como as melhores de toda a história. Ver Vivien Leigh e Marlon Bando em cena entoando os diálogos imortais de Tennessee Williams é uma experiência única, inesquecível, que algumas pobres almas nunca vão conhecer, por puro preconceito.

Não vou tentar reproduzir aqui alguns dos diálogos do filme, porque certamente cometerei injustiças e vou acabar esquecendo de vários. Só digo que adoro todos. Destaco o momento em que Blanche confessa grande parte de seu passado pra Mitch, um amigo da família, que a põe na parede. Nessa sequência, Mitch acende todas as luzes da casa, deixando Blanche desconfortável, já que ela gostava de estar sempre no escuro, talvez com medo de verem como ela não era mais uma mocinha. Uma bela metáfora, já que é nessa parte que Blanche aparece mais transparente, sem máscaras. Nós realmente a vemos. Outro ponto interessantíssimo é que não há vilão ou mocinho na história. Vocês podem atacar dizendo que Blanche era manipuladora, que pensava apenas em si própria, que tentava acabar com o casamento da irmã. Mas e as coisas que ela sofreu? Presenciou o suicídio do marido, foi expulsa de sua cidade, não é bem-vinda na casa da irmã, é estuprada. Daí chegamos a Stanley, que muitos consideram o vilão, equivocadamente. Por mais que ele seja grosso, trate mal as mulheres em vários momentos e abuse de sua cunhada, mesmo assim, ele vê seu casamento prestes a ser destruído, e ama sua mulher (ou não?). Por isso que seu grito, “Steeellaa”, ficou tão marcado. Nesse momento, se alguém tinha alguma raiva de seu personagem, deixa de ter, porque vê que ele era vítima de si mesmo e de sua impulsividade. Marlon Brando chegou a declarar que detestava Stanley, e que detestava qualquer homem como ele. Mas como era Brando, ele conseguiu dar mais nuances a um personagem que já era complexo, em sua atuação. Se bem que, ao contrário de 99% dos fãs da peça/filme, que preferem a Blanche ou o Stanley, meu personagem favorito sempre foi a Stella. O que não desmerece os outros dois, de forma alguma. Na verdade, os personagens de “Bonde” são alguns dos que mais gosto em toda a história do cinema. O relacionamento de Blanche e Stanley é interessantíssimo porque, primeiro, ela é uma sonhadora, uma romântica, e ele, o completo oposto. Stanley desperta nela o sentimento mais real de todos, poucas vezes visto em um conto-de-fadas: o desejo. Mas a Stella merece meu respeito porque ela vai contra ao que muita gente pensa sobre uma dona-de-casa, sobre uma mulher casada, e, principalmente, vai contra às mulheres “de família” que o cinemão atual cria. Não sei de onde tiraram que uma mulher, após se casar, está morta, não tem mais sentimento algum, não tem mais nenhuma vontade, já está completamente realizada. Corrijam-me se eu estiver errado, mas, na maioria dos casos, um casamento não significa a morte de ninguém. Stella é casada, mas segue viva, e, como tal, está cheia de desejos. Ela deseja o marido com todas as suas forças, morre de tesão por ele. Por isso eu adoro as expressões da Kim Hunter quando ela desce as escadas, porque, naquele momento, vemos como Stella tem ódio do marido ao mesmo tempo em que o deseja. Por mais que ele faça coisas inaceitáveis, mesmo assim, oras, ela é humana, e a carne fala mais alto. O desejo fala mais alto. E ela se entrega.

Anos mais tarde, em 1999, Pedro Almodóvar usou de várias referencias desse clássico (e de outro também: A Malvada) em uma de suas obras-primas, Tudo Sobre Minha Mãe. Mais um motivo pra gente se curvar diante do Almodóvar, por ele ressuscitar “Bonde”. Não que o filme estivesse morto e enterrado, não, longe disso. Mas, como eu disse, nem todos têm conhecimento do que estão perdendo, e fazem o sinal da cruz quando o ano do filme lhes é anunciado. 1951? Sai de mim que eu não te pertenço. Bom, eu faço minha parte apresentando “Bonde” e outras maravilhas a algumas almas perdidas, sempre correndo o risco de ser igualado a um dinossauro por gostar “dessas coisas”. Quer saber, que se dane! Sorte de quem conhece e ama o filme. O resto, aqueles que se recusam ao menos a tentar conferir, esses podem ficar com o último filme do Robin Williams, onde nos é ensinado uma lição inédita, que “o amor verdadeiro é lindo e puro”. Cruzes! Fico feliz de ter à minha inteira disposição todo o desejo desse bonde.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA – No caos do mundo dos homens, onde estariam as esperanças sem as mulheres?

Agora que comprei o DVD e revi Ensaio Sobre a Cegueira (só tinha assistido uma vez, no cinema), me sinto na obrigação de escrever mais umas palavrinhas sobre esse grande filme. Até porque, o primeiro texto que escrevi sobre o longa (também um dos primeiros do bloguinho), ta fraquinho que só ele. Não quero apagar esses meus textos mais antigos, mas sim, com o tempo, escrever coisas melhores sobre alguns desses filmes. Começo com “Ensaio”, que agora já li o romance do José Saramago. Na verdade, o li há um tempinho, e já to doido pra ler de novo. Se bem que é um desses troços inesquecíveis, assim como o filme. O Saramago não vendia os direitos de nenhum de seus livros, mas nem por reza brava. Segundo ele, a maioria dos diretores pensam que só porque têm os direitos de determinado livro podem fazer o que bem entenderem com ele. Mas aí, eis que surge Fernando Meirelles, interessado em adaptar o romance, e o escritor cedeu, que ele não é bobo. Saramago bem sabia que o diretor brasileiro de Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel tinha talento pra dar e vender. Só que, claro, não foi tão fácil como eu faço parecer ser. O F. Meirelles já havia tentado comprar os direitos há alguns anos, em vão. Daí ele resolveu adaptar um outro livro, e fez Cidade de Deus. Anos mais tarde, finalmente conseguiu os direitos. O resultado? Saramago, após ver o filme pela primeira vez, ao lado de Fernando, claramente emocionado, se mostrou mais do que satisfeito com a visão do diretor do livro que lhe rendeu o prêmio Nobel.

Na história, uma epidemia de cegueira se alastra por toda a humanidade. Começa com um homem que, no trânsito de uma grande cidade, tem seus olhos inundados por uma estranha brancura. Fica cego, mas não de uma cegueira comum, de trevas, e sim uma cegueira branca. Numa tentativa desesperada do governo de parar a epidemia, os primeiros a cegarem são mandados para um exílio, um lugar fechado bem parecido com uma prisão, com um manicômio. A única que não cega é a Juliane Moore, a mulher do médico, que vai para este lugar por vontade própria, para cuidar do marido. A adaptação é incrivelmente fiel ao livro do Saramago, até com alguns diálogos iguais, inclusive. Acho que só uma pequena sequência do livro não está presente no filme (provavelmente, por questões de ritmo). Essa fidelidade é justamente uma das maiores críticas que “Ensaio” recebeu. Dizem alguns que ele não tem liberdade própria, que é muito preso ao livro. É verdade que o filme é super fiel à sua fonte, mas ele não deixa de ser criativo, de ter vida própria. Inclusive em aspectos técnicos. A fotografia, abusando de tons brancos, é um personagem à parte, e é responsável por alguns dos mais poéticos e simbólicos momentos do filme. Mas o melhor de “Ensaio” é sua trama corajosa, pesada e cheia de significados. Todo o elenco anda junto para contar essa história. A Juliane Moore dispensa comentários, mas aqui até o Mark Ruffalo apresenta um atuação sincera e tocante. Tem também a brasileira Alice Braga, que a cada dia vem mostrando mais e mais que não é apenas “aquela lá” de Eu Sou a Lenda, e o Danny Glover, cujo personagem ganha nova dimensão no filme. O Gael García Bernal até como vilão (se bem que eu detesto esses títulos de “vilão” e “mocinho”) mostra seu carisma natural. Aliás, a sequêcia em que ele imita o Stevie Wonder foi improvisada pelo próprio ator, que ia sempre cheio de bom humor às gravações. Todo o elenco passou por uma longa preparação antes de começarem as filmagens. Fernando Meirelles disse em entrevista que o que ele mais temia que ocorresse era que “Ensaio” virasse um “filme de zumbi”. Pra que isso não ocorresse, os atores tiveram um preparo especial, onde seus olhos foram tampados para que eles pudessem aguçar e aprender a usar melhor seus outros sentidos. Assim como, em alguns momentos de maior carga dramática, lentes especiais foram postas em seus olhos, para que eles realmente cegassem. No fim, a sinceridade de algumas cenas emotivas, sem nunca ser piegas, é impressionante, e a gente conclui que tanto trabalho valeu à pena. Adoro o instante em que eles presenciam sua primeira chuva depois de muito tempo. É como se lavassem a alma. Dá pra sentir a excitação e a alegria dos personagens.

Mas nem todos gostaram. A maioria dos críticos, principalmente os americanos, detestaram o filme. Foi ele que abriu o festival de Cannes em 2008, com uma recepção bem fria. Acho que esses críticos se sentiram envergonhados com “Ensaio” por ele mostrar a humanidade em degradação. E como a gente bem sabe que americano se choca à toa... Já viu, né? Bom, é claro que algumas cenas, como a do estupro, causam mais do que incomodo. É apavorante ver mulheres sendo tratadas daquela forma, em qualquer circunstância. Mas elas não têm nada de gratuitas. A gente já viu um monte de cenas de estupro muito mais chocantes do que essa. E o Fernando Meirelles não banaliza esse momento, ele não quer o fazer parecer algo natural, sem grande importância. Para isso, era necessário um impacto. E, ao mesmo tempo, a sequência consegue ser sutil. Se isso não for genialidade, por favor, me digam o que é. Se bem que, pra mim, os momentos que precedem e que procedem ao estupro coletivo são ainda melhores e mais significativos. Antes, quando os membros da Ala 3, que tem posse sobre toda a comida, anunciam que só vão liberar os alimentos se lhes forem dados mulheres em troca, todos os maridos de plantão ficam chocados com tal oferta. Alguns homens, no entanto, dizem que, bah, o que é isso, em comparação com morrer de fome? A Alice Braga diz: “Quantos voluntários teríamos se eles tivessem pedido homens?”, no que algum homem responde: “Mas aí não é a mesma coisa”. É claro que é diferente, porque, nesse caso, a preocupação não seria com a dor e o sofrimento físico, e sim com a reputação. Em compensação, o primeiro cego não quer deixar sua mulher ir de jeito nenhum, nem depois que esta se diz disposta a juntar-se ao grupo de voluntárias. São as mulheres que vão ser estupradas, mas quem fica ferido? O orgulho e a dignidade dos machos, lógico.

É verdade que o filme fala sobre o ser humano, no geral. Como a humanidade reagiria em meio a uma catástrofe como essa? Quem seria solidário, num mundo de caos? E a ideia de não dar nome nem à cidade onde o filme e o livro se passam, nem aos personagens, não poderia ser mais acertada. Assim, “Ensaio” quer dizer que essa situação poderia acontecer em qualquer lugar com qualquer um de nós. É um filme de tema universal. Mas fica mais do que claro, no livro e no filme, um tratamento diferenciado entre os homens e as mulheres. Geralmente o pessoal generaliza, mas não é bem assim... Reparem como tem sempre um homem no ambiente para acabar com a paz deste. Eu simplesmente amo como, logo depois que as mulheres voltam do estupro, todas elas, juntas, limpam o corpo de sua companheira, que morreu. É um momento não só de solidariedade, mas também de força. Um tempo depois, a Juliane Moore anuncia a um dos estupradores que agora elas estão em número menor, já que uma das mulheres morreu. “Mas não se preocupe, que ela era um peixe-morto”, diz ironicamente ao agressor, que fica abalado. Os únicos momentos de companheirismo completo no filme, sem nada para atrapalhar, são aqueles que apresentam apenas mulheres. Sei que estarei arranjando encrenca e criando polêmica ao dizer isso, mas um mundo só de mulheres, não seria melhor? Peguem um livro de História qualquer e dêem uma folheada, depois me respondam. No filme, a cena mais feliz de todas é aquela em que três mulheres tomam seu primeiro banho em tempos. Elas conversam despreocupadamente. Toda a esperança contida no filme está nessa cena (e no final). Acaba com aqueles mitos de que duas mulheres conversando é sinal de problema, que um grupinho de mulheres reunidas não pode ter outro assunto em pauta que não fofocas, que mulheres não têm amigas, só concorrentes. Sem contar que a única pessoa que enxerga ser uma mulher não é mero acaso. Gosto de acreditar que existam pessoas tão boas quanto a personagem da Julianne Moore. Ao contrário desses dramas empacotados de Hollywood, Ensaio Sobre a Cegueira realmente nos faz querer ser pessoas melhores, como ela. Todos os horrores mostrados no filme são postos em contraponto com os atos da mulher do médico. E num mundo tão masculino como o nosso, a coragem de mostrar situações onde a mulher se apresente mais forte e solidária que o macho, já fazem dele um senhor filme de respeito.

domingo, 18 de outubro de 2009

PULP FICTION – Overdose de originalidade

Aproveitando a estreia de Bastardos Inglórios, o novo longa de Quentin Tarantino, vou falar um pouquinho desse que pra muitos é seu melhor filme. Grande parte dos críticos, cinéfilos e fãs do Taranta colocam Pulp Fiction no maior dos altares, um degrauzinho acima de Cães de Aluguel e Kill Bill (vai saber porque essas mesmas pessoas costumam ignorar o maravilhoso Jackie Brown). É batata, qualquer lista dos melhores filmes dos anos 90 inclui Pulp entre os mais mais. E seu diretor, entre os mais influentes, com justiça em primeiro lugar. Taranta é a prova viva de que trabalhar numa locadora faz bem. A todos nós, cinéfilos, sufocados e sedentos por um pouquinho de frescor no ar. Daí surge esse ex-atendente de locadora, super nerd, e nos apresenta uma surpreendente obra-prima. Ok, ele já tinha provado todo o seu potencial em seu filme de estreia, “Cães”, mas alguém realmente esperava que essa produção de 8 milhões de dólares (uma ninharia pros padrões de Hollywood) viraria um dos ícones máximos de toda uma cultura cinematográfica? Duvido.

E todas as características do Taranta estão aqui, pro nosso deleite. Eu até compreendo que algumas pobres almas (que deus as ilumine) não gostem do diretor. É uma ideia assustadora, mas aceitável. Isso porque não é todo mundo que entende o consegue se acostumar com seu estilo. Mas vamos do começo. Pulp trata de três (ou quatro?) histórias, com algum personagem em comum entre elas. E tudo de forma não-linear, marca do Taranta. Quem viu “Cães” ou Jackie Brown e se assustou um pouco com as idas e vindas da trama, provavelmente vai ficar encabulado com Pulp. Começa com uma mensagem nos explicando o significado de “Pulp Fiction”, revistas feitas com papel barato e com conteúdo de qualidade discutível. Depois vemos dois assaltantes (o Tim Roth e a Amanda Plummer) num restaurante, conversando casualmente. Mal podemos imaginar que ambos estão escondendo uma arma e estão prestes a começar um assalto. Em seguida, somos levados a dois gângsters (o John Travolta e o Samuel L. Jackson) que, enquanto se encaminham a uma casa para fazer uma cobrança, conversam sobre trivialidades. É esse, pra mim, o maior charme dos filmes do Tarantino. Seus diálogos. Onde mais a gente pode ver dois mafiosos conversando sobre hambúrgueres? É o que faz de seus personagens e de suas situações tão reais e, ao mesmo tempo, tão engraçadas. Quer dizer, tudo é muito realista, afinal, nós, mortais, conversamos sobre essas coisas. Ou vai dizer que não? Mas no cinema, até aparecer o Taranta, todos os diálogos se referiam apenas ao que era importante à trama. Nenhum personagem ia ao banheiro se não houvesse um motivo ultra-importante para isso. Nos filmes do Taranta, os personagens vão ao banheiro porque eles são seres humanos, oras, e tem suas necessidades fisiológicas. Sei que é difícil acreditar, mas gângsters também precisar se aliviar, de vez em quando. Nem todos têm essa ousadia, é claro. Ou alguém imagina o James Bond entoando algum diálogo tarantinesco? Mas se esses diálogos e esses personagens são reais, porque eles são engraçados? Porque a realidade é engraçada, oras. E porque a gente não ta acostumado em ver assuntos do nosso dia-a-dia sendo entoados por pessoas que, com sorte, não fazem parte do nosso dia-a-dia. É por isso que é tudo tão cativante. Nós nos identificamos mais do que nunca com eles. Em alguns momentos, inclusive, os personagens não têm o que dizer, e segue-se aquele famoso silêncio constrangedor. Eles têm que encarar esse silêncio, aquelas intocáveis pessoas na telona. Eles contam e ouvem piadinhas sem graça. Tudo isso traz Pulp e seus personagens mais pra perto da gente.

A outra trama, provavelmente minha favorita, mostra um dos gângsters, o John Travolta, em uma missão especial, levando a namorada de seu chefão (o Ving Rhames, que até a metade do filme, mais ou menos, só aparece de costas ou da cintura pra baixo, mantendo sua imagem quase mítica) pra se divertir. Isso acontece pouco depois que ouvimos certo boato de que o tal gângster-mor empurrou um homem da janela porque ele fez massagem nos pés de sua noiva, a Uma Thurman. Ou seja, já ficamos tensos, imaginando o que raios vai acontecer nesse encontro. O que a gente imagina? Que eles vão ter um caso? Que vão fugir juntos? Isso seria o de praxe, num filme comum. Mas não estamos falando de um filme comum. Estamos falando de um filme do Tarantino. E nos filmes desse gênio, a mais previsível das ações se transforma em imprevisível. O John leva a Uma pra jantar, e lá eles conversam, apenas. Amo os diálogos dessa cena, pra mim estão entre os melhores e mais inspirados do Taranta. É o exemplo máximo daquilo que eu falei, dos personagens conversarem casualmente, independente se eles são gângsters ou lutadores de kung-fu. É nessa parte também que se encontra a famosa sequência da dança protagonizada pelo John e pela Uma. Aliás, a trilha sonora é um item fundamental, como em todos os seus filmes. Aquela música que a Uma dubla minutos antes de ter uma overdose, “Girl, You’ll Be a Woman Soon”, eu acho um máximo. Nessa marcante cena da dança já começamos a desconfiar da obsessão do Taranta pelos pés e pelas mãos da Uma (e passamos a ter certeza absoluta disso depois de Kill Bill). Outro fator que está super presente em todos os filmes do cara, principalmente aqui, e que muita gente critica, é seu humor negro afiadíssimo. Poucos diretores além do Taranta (e dos irmãos Coen) conseguem misturar tão bem a tensão, a violência e o humor. Em algumas sequências nós nem temos certeza se devemos rir, se essa é a intenção. Por exemplo, quando o John tem que apunhalar uma seringa no coração da Uma, que corre perigo de vida, a gente não se aguenta de tanta tensão. Todos os ângulos de câmera, as pausas, a contagem, tudo é muito bem manipulado pro público gritar com a tela: “Vai logo, sua besta!”. Mas, mesmo assim, o Taranta consegue colocar humor na situação. Não que esse humor nos faça relaxar um pouco, faça dessa sequência menos impactante. Na verdade, a junção desses dois itens forma Pulp Fiction do jeitinho que ele é. Outro bom exemplo é quando o John, sem querer, atira na cabeça de um cara, dentro de seu carro (neste que deve ser o tiro mais imprevisível de todos os tempos, junto com aquele do personagem do Tim Roth, em “Cães”). Qual sádico ri de um homem levando um tiro no meio da cabeça, e tendo seus miolos arremessados por todo o capô de um carro? Mas toda a situação acaba sendo engraçada, pelo modo como acontece. Os dois gângsters assustados, tão surpresos quanto a gente, sem saber o que fazer, e o modo como o tiro é dado. Taranta faz da cena hilária, aquele doente.

E temos ainda mais uma trama meio paralela. O Bruce Willis vive um boxeador que é pago para perder uma luta. Mas ele a ganha, e foge com o dinheiro. Aquela perseguição no meio da rua é de uma freneticidade de causar inveja em qualquer filme de ação lotado de explosões e efeitos especiais. A gente vibra. E ri, de novo, na “hora errada”. Quando o Bruce Willis está procurando uma arma para atacar seu detrator, por exemplo, e a cada virada ele encontra um objeto melhor, deixando o outro de lado, essa sequência é hilária. E notem o contexto: tem um homem sendo estuprado no recinto ao lado, e nós sabemos disso. E rimos da situação. Adoro também aquela tramóia do relógio, aquele flashback da infância do Bruce, com participação especial do Christopher Walken. Amo Pulp Fiction inteirinho, não tem jeito.

E as idas e vindas da trama aqui estão em sua melhor forma. Por exemplo, em dado momento, em mais um instante inusitado, um personagem é baleado e morre. Um personagem importante. Mas, mais tarde, ele volta. Não que ressuscite, mas é que os fatos nos são mostrados de forma não-cronológica, tornando tudo mais interessante. E a gente aceita isso numa boa. Não achamos estranho que aquele personagem tenha “voltado da cova”, porque, àquela altura do campeonato, já nos acostumamos com o estilo do Tarantino. E já nos apaixonamos. Aliás, chuto que deve ser muito divertido pros atores trabalhar com ele. Vendo seus filmes, sempre tenho a ideia de um diretor-amigo, sabem? Não sei exatamente o porquê. Talvez por todos os atores estarem sempre totalmente à vontades. Os diálogos sem relação direta com a trama, por exemplo, soam tão naturais que até parece que os atores estão improvisando. Até o Taranta dá as caras, na divertidíssima sequência em que os dois gângsters tem que limpar o carro, depois do assassinato-acidental (e também gosto muito da participação do Havey Keitel, nesse momento). A(s) história(s) de Pulp Fiction até parecem ser simples. Mas Tarantino transforma seu filme em uma obra grandiosa, pretensiosa e mais do que genial. Não é exatamente pela trama, mas pelos vários detalhes e toques de mestre, que Pulp deu certo. E como deu. Fez milhões ao redor do mundo, faturou o Oscar de roteiro original e entrou no subconsciente da cultura pop mundial. Pra nunca mais sair.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

SEVEN – OS SETE CRIMES CAPITAIS – O mundo é um lugar bom e vale a pena lutar por ele?

Vou falar um pouquinho de Seven, que deve ser meu favorito do David Fincher, que nem de longe é um dos meus diretores favoritos (por falar nisso, recentemente revi Benjamin Button, e gostei menos do que quando vi pela primeira vez, assim como houve um tempo que eu apreciava bem mais O Quarto do Pânico e Clube da Luta). Ele ficou reconhecido mundialmente por esse suspense de 95, já que antes só havia dirigido uma terceira parte de Alien (que eu fiz questão de não ver). Claro que depois de Seven o diretor também cometeu mais bons filmes, e hoje ele é super aplaudido por boa parte da crítica. Alguns o consideram um dos diretores mais promissores da atualidade. Menos, gente, menos. Essas pessoas que o elevam aos céus geralmente esquecem de mencionar o pavoroso Vidas em Jogo, uma bomba monumental lançada depois de sua consagração com Seven. Quanto a este, gosto muito. Só não aceito comparações com O Silêncio dos Inocentes. Principalmente quando essas comparações o colocam num patamar maior do que o longa de 91. Mil perdões, mas Seven é um ótimo filme, enquanto “Silêncio” é uma obra-prima, um clássico, um dos maiores thrillers da história. É sacanagem comparar.

Sem comparações, Seven é original, com uma trama interessante, bem contada e atuada. A gente só tem que reclamar que depois dele vieram inúmeros filmes de serial killers onde um agente do FBI tem que procurar pistas em locais desertos, à noite (sem jamais acender a luz). Mas isso não é culpa de Seven. Em sua história, dois policiais passam a investigar e a seguir pistas de um assassino que parece matar suas vítimas conforme os pecados capitais. Tipo, o primeiro cadáver encontrado é o de um cara que foi obrigado a comer até explodir (ahn, literalmente). Daí, depois da gula, segue-se a preguiça, a inveja, a vaidade, a luxúria, a ira e a avareza, não necessariamente nessa ordem. E é tudo bastante instigante. A fotografia dá o tom. Meio obscuro, meio pessimista, a paisagem caótica e o clima até nos faz pensar em um neo-noir, ou algo do gênero. E não posso falar de Seven sem mencionar seus aspectos técnicos. A fotografia é realmente de babar. Ou eu queria dizer “de chocar”? Tudo muito claustrofóbico. A maquiagem de todos os cadáveres (principalmente o da gula e o da preguiça) é incrivelmente realista. Nada é gratuito, ao contrário desses torture porns que se vêem por aí (O Albergue, Jogos Mortais, etc). Isso porque aqui há uma trama, existe um motivo pros vários closes desconcertantes naqueles cadáveres. Há algo bem maior por trás de tanto sadismo.

Mas o que mais gosto no filme é a relação entre os dois protagonistas. Não sei se vocês já notaram, mas nesses thrillers policiais atuais a gente sempre vê uma dupla composta por um homem e uma mulher, brancos, heteros e solteiros. No começo eles não se dão lá muito bem, mas o filme não vai terminar sem que ambos troquem juras de amor e beijos apaixonados. Depois se casam e vão para a cama. Se possível, necessariamente nessa ordem, que é pra ganhar o joinha da direita cristã. Sério, esse tipo de relacionamento amoroso previsível cansa demais. Em Seven a relação entre os parceiros é muito mais interessante. O Morgan Freeman vive um policial prestes a se aposentar, cético, inteligente e sem muita esperança na humanidade. Isso porque ele já viveu demais, já viu muita coisa, ele sabe que esse mundinho não presta. Está mais do que cansado das coisas que presencia todos os dias. Já o personagem do Brad Pitt é um policial jovem e impulsivo que vai substituir o Morgan. Ele representa a nova geração, ainda inocente, com muita coisa a aprender. E que não sabe controlar suas próprias emoções (coisa que a gente saca logo no começo, quando descobrimos seu passado policial, e vamos confirmar na última sequência). Fica claro que daqui a alguns anos o personagem dele vai estar igualzinho ao do Morgan. No fundo eles não são tão diferentes assim. Só viram e vivenciaram coisas diferentes, um de mais, o outro de menos. Daí, quando os dois se juntam pra desvendar esses crimes em série, a gente pensa, inicialmente, que essa parceria não vai dar muito certo. E não é que dá? A inteligência e a racionalidade de um versus a impulsividade de outro. As duas coisas se equilibram. O problema é quando um desses itens acaba pesando mais do que o outro.

Curiosamente, alguns anos depois, em 2007, o mesmo David Fincher viria a dirigir outro filme sobre serial killers, o muito bom Zodíaco. E aí vocês pensam: ih, isso de repetir a fórmula que já funcionou uma vez não é lá muito honesto. Mas o incrível é que Zodíaco é completamente diferente de Seven. Os objetivos de ambos são distintos. Zodíaco ta mais pra um filme sobre obsessão do que pro famoso “quem é o assassino?”. O clima, os personagens, a fotografia, a montagem, o ritmo. Tudo é diferente nos dois filmes.

Por falar nisso, adoro o ritmo de Seven, que não deixa a peteca cair em momento algum. Sem cenas desnecessárias apresentando personagens desimportantes. Seven vai direto ao ponto. E nada está lá por acaso. Até algumas cenas que podem parecer desconexas, como a do jantar, no fim fazem total sentido, se mostram bastante importantes. E Seven tem clima, isso não dá pra negar. O item mais importante num filme desses, na minha opinião. Pra nos deixar tensos, pra nos manter envolvidos até o final. E, por falar nele (sem falar demais, não temam), acho muito inteligente. Não da ideia do final, exatamente, mas do modo como ele é conduzido. É até surpreendente, mas o David Fincher não o faz parecer apenas uma pegadinha no espectador, como grande parte dos filmes de terror hoje em dia fazem. O final não é um item à parte, o filme não foi pensado a partir do desfecho. Na verdade, ele está muito bem amarrado com todo o resto, pega a gente de surpresa, mas sem parecer forçado. Na realidade, tudo é bem sutil. Quer dizer, foram-nos mostradas durante o filme todo imagens chocantes de cadáveres, então por que raios não podemos ver aquele item fundamental, na última cena? Porque assim, sugerido, é muito mais interessante. Ele nos dá as cartas, e deixa nossas mentes fazerem o resto. Até porque, qualquer imagem chocante jogada na tela ficaria muito aquém de qualquer expectativa. Vai dizer, assim não é muito mais assustador? Pra finalizar, deixo aqui a última (e melhor) frase do filme. Alguém diz: “O mundo é um lugar bom e vale a pena lutar por ele”, no que o personagem do Morgan Freeman responde: “Concordo com a segunda parte”. Depois que vejo Seven, eu meio que preciso urgentemente assistir a um musical. Qualquer um. Só pra dar uma equilibrada.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

BASTARDOS INGLÓRIOS – A palhaçada da Segunda Guerra, por Quentin Tarantino

Confesso que, mesmo sendo fã do Tarantino, mesmo estando com altas expectativas para seu novo filme, mesmo assim, eu consegui me surpreender muito com Bastardos Inglórios. Vindo de um dos diretores que salvaram a década de 90 do fracasso de originalidade total, eu aguardava no mínimo algo bom. Mas não tão bom. Talvez pelas críticas mornas que andei lendo, talvez pela péssima recepção que o filme teve em Cannes (o diretor voltou com ele pra sala de edição, depois do evento), eu já estava abaixando minha bola, com medo de esperar demais e acabar caindo do cavalo. Não imaginava que o Tarantino tinha feito mais um grande filme. E não é que ele fez? Bastados Inglórios é ge-ni-al.

Na história, um grupo de soldados americanos judeus tem como objetivo matar o máximo de nazistas que puderem, se disfarçando dos próprios para conseguirem seu feito. Tudo isso na França ocupada pelos alemães. Parece simples, né? Pode até ser. Acho que um diretor menos talentoso conseguiria transformar a história de “Bastardos” num filme banal, insignificante até, sem muito esforço. Mas o Tarantino enche seu longa de toques de gênio. A começar pelo capítulo um. Nele, acompanhamos um “caçador de judeus” indo procurar uma família inteira fugitiva numa fazenda. Ele entra, senta, faz algumas perguntas ao dono do local enquanto bebe leite. Daí a câmera do Taranta, bem devagar, sem pressa, desce um andar, e, voilá, descobrimos que os judeus estão literalmente embaixo do nariz do nazista. Embaixo do assoalho. Agora, pra quem ainda não viu, imaginem essa cena. Imaginaram? Agora imaginem essa cena, só que na ótica do Quentin Tarantino. A gente já viu algo parecido em várias produções sobre o holocausto, mas o Taranta tem um estilo próprio inconfundível, e ele faz de “Bastardos” algo muito maior do que simplesmente um filme sobre a Segunda Guerra. Esse é só o capítulo 1, e já dá o tom, já nos mostra o que esperar. As quase duas horas e meia seguintes estão todinhas entupidas de reviravoltas, tramas paralelas, personagens que se encontram e que se desencontram. Só que tudo no melhor estilo tarantinesco. Eu nem pisquei.

Concordo que muitos diretores com estilo próprio acabam se esquecendo, por vezes, de coisas fundamentais. Tipo a direção de elenco. Não é o caso, é claro. Todos os atores estão bárbaros. O Brad Pitt está muito bem, caricato e claramente divertido no papel. Gostei de seus exageros. Mas, pra mim, quem rouba a cena mesmo é o Christoph Waltz, como o caçador de judeus que citei acima. O cara ta fantástico! Cruel, mas meio debochado, engraçado em alguns momentos. Mas sem perder o tom sério. Só discordo de quem afirma que a cena em que ele deixa a garota fugir mostra como, no fundo, havia um lado bom nele. Lado bom? Perdão, eu até acredito que tenham existido sim, nazistas com alguma pontada de arrependimento e até piedade (o Polanski mostrou isso em O Pianista, lembram?), mas o seu Coronel Hans Landa não tem nada de bom. Ele deixa a menina escapar porque tem certeza de que ela não tem nenhuma chance de sobreviver ou de vir-lhe a causar alguma dor de cabeça futura. Está enganado, é claro, porque a gente conhece o Taranta e sabe que ele não vai perder a chance de colocar uma pitada de vingança em seu filme.

E grande parte de suas características estão presentes aqui. A não linearidade do roteiro um pouco menos do que em seus outros trabalhos, mas ela também dá as caras. Adorei os flashbacks relâmpago, super rápidos, parando determinada cena e voltando no passado para mostrar um fato que ainda não conhecemos, pra podermos compreender melhor a cena principal. E existe um Q de Pulp Fiction, de vários núcleos de personagens mais ou menos paralelos que se encontram no final. Ah, e pra mim esse é seu filme mais violento. Isso não é uma reclamação, é mais uma constatação. Vocês podem atacar mencionando Kill Bill, que, realmente, era bastante violento. Mas a violência de KB era mais tosca, mais de cartoon. Enquanto aqui, bem, aqui o troço é um pouquinho mais sério. Quer dizer, por “sério” entendam que eu estou me referindo ao sangue, às cabeças esfoladas e aos couros cabeludos arrancados, porque seu humor negro está mais presente do que nunca. Tem todo aquele jeitão meio debochado que ele tanto gosta de tratar a violência. É por isso que “Bastardos” é especial. Poderia muito bem ser um dramalhão sobre o holocausto com narrativa convencional, o que o transformaria em mais um no meio de tantos. E quem pode imaginar um filme sobre a Segunda Guerra que nos faça rir? O melhor exemplo disso é a caricatura que o Tarantino faz do Hitler. O personagem é estressado, estouradinho e panqueca das ideias, do jeito que a gente desconfia que o verdadeiro tenha sido. Lembram do que o Chaplin fez do Hitler em O Grande Ditador? Então, é parecido.

Mas a melhor coisa de “Bastardos”, como não poderia deixar de ser, são os diálogos. Se você ainda não se convenceu em ir conferi-lo, vai aqui um toque: em quantos filmes você tem a oportunidade de ver um nazista dialogando sobre as diferenças de um rato e de um esquilo? Não em muitos, né? E tem também aquela cena em que um grupo de falso-nazistas jogam uma brincadeira de cartas na mesa de um bar com um nazista real, prestes a desmarcara-los. Essa cena é um show. E reparem como ela é longa, sem perder o ritmo ou a tensão em momento algum. É por isso que a violência do Tarantino não me incomoda. Porque há uma construção, ela não é gratuita. Quero dizer, em um filme de ação convencional que a gente vê aos montes por aí, um arma na mão de um cidadão americano em busca da paz é um perigo. Morrem uns vinte coadjuvantes por minuto. O final dessa sequência do bar, em “Bastardos”, é super violenta, mas nós ficamos mais de dez minutos numa constante e crescente construção de clima. Pra cada bala, há um motivo, um diálogo e uma situação por trás. Aliás, se a gente for reparar bem, existem várias sequências e cenas longas aqui, todas cheias de diálogos. Algumas tensas, outras engraçadas. Outra as duas coisas. Ou então, o que dizer do momento em que o Brad Pitt e seus comparsas devem fingir um sotaque italiano pra poderem enganar um nazista? Essa foi a sequência que o cinema mais riu, e é realmente engraçado vê-los tão desengonçados, se esforçando, enquanto o nazista fala italiano fluentemente. Mas, mesmo assim, é uma cena muito tensa. Tememos por eles serem capturados. E o Tarantino nos faz rir (sem nos fazer relaxar). Imperdível!

Só tenho uma reclamação. Em dado momento, um momento importante, algoz e vítima se reencontram. E nós, grudados na cadeira, já esperamos ansiosos pelo que vem a seguir. E o que vem? Um flashback de uma cena que já vimos, nos lembrando que, no passado, esses dois já haviam se cruzado. Eu me senti ofendido. Até parece que o Taranta ta duvidando da minha inteligência, nesse momento. Estragou o que seria uma cena incrível. Mas essas são implicâncias minhas com um grande filme. Hoje as críticas ainda não estão lá muito entusiasmadas, mas anotem essa informação confidencial vinda direto do futuro: não vai demorar muito pra “Bastardos” se tornar um clássico. Ok, ok, tem quem amou o filme tanto quanto eu, mas essas afirmações sempre são seguidas por um “porém”. Todo mundo anda o colocando anos luz atrás de Pulp Fiction, Cães de Aluguel e até Kill Bill. No meu caso, fico com todos, por favor. Pra viagem.

E é um máximo que, durante todo o filme, várias línguas sejam usadas. Quem diria, Tarantino também é cultura. Imagino que os americanos tenham aprendido muita coisa quando conferiram “Bastardos”. Como assim, existe outra língua além do inglês? Eu sei, também estou chocado. A gente que aprendeu que até os extraterrestres falam a língua ianque. Quando algum personagem alemão ou francês de “Bastardos” entoa seus diálogos em inglês, existe um motivo pra isso. Mas na maioria do tempo eles estão falando suas línguas originais mesmo. E, óbvio, em se tratando de Tarantino, aguardem várias referências. Tem quem não goste do Taranta por achar que ele é um diretor que pega vários estilos já consagrados e junta em um só filme, e isso é copia e cola, não tem nada de original. Eu respeito quem pensa assim, mas, gente, como se fosse fácil juntar estilos diferentes e criar um estilo único. Todas as homenagens de seus filmes só servem pra deixá-lo ainda mais interessante, mas sem essas referências, eles seriam igualmente geniais. Aqui Tarantino homenageia o cinema mundial. Ele lembra os esquecidinhos que não é só um país que sabe e que faz cinema.

Confesso que, durante todo o filme criava-se uma expectativa tão grande a cerca do evento derradeiro, que eu tava até começando a ficar com medo do desfecho não cobri-las. Mas estava enganado... de novo. A sequência final é de tirar o fôlego. Há toda uma construção de ritmo e tensão. Existem quatro coisas acontecendo ao mesmo tempo em quatro lugares diferentes, todos interligados. Uma coisinha que aconteça em um desses lugares com uma dessas pessoas acaba, consequentemente, mudando o rumo da outra. E nós não nos decidimos sobre qual das ações mais estamos interessados, mais queremos ver. Saímos de uma e já vamos pra outra, sem deixar a peteca cair. E é tanta tensão acumulada que, quando o fim chega, com todas as quatro tramas culminando num único e antológico fim, nós vibramos. Acho que, nessa hora, eu quase gritei, pulei da cadeira. Agora sei o que os pré-adolescentes que gostam de brincar de carrinho sentiram ao verem Transformers 2 (me dá sono só de lembrar). E quem imaginaria final melhor (e mais surpreendente) para o personagem mais marcante do filme, o do Christoph Waltz? Aquela sacada de “marcar os nazistas” só podia ter vindo da mente (meio perturbada, e demos graças a isso) do Taranta. Quando os créditos subiram, eu tinha uma certeza: que ele sabe melhor do que ninguém do que o público gosta. Porque, afinal, antes de qualquer coisa, Tarantino era esse público. O ex-atendente de locadora que, de tanto ver filmes, acabou fazendo seus próprios, entende das nossas necessidades. Nós queremos cinema original, queremos coisas novas. Nós estamos pagando para nos envolvermos com aqueles personagens e com aquelas situações. O público quer é diversão. Tarantino se diverte fazendo seus filmes, e nos lembra, com Bastardos Inglórios, que o cinema é entretenimento, afinal. E ele ainda dá uma lição que parece ter sido esquecida: entretenimento não é sinônimo de burrice ou de mediocridade. Nós não merecemos isso. Taranta é amigo de seu público, ele quer agradar a todos que deixam suas casinhas na esperança de ver algo novo na telona. A última frase do filme (e não se preocupem, não vou estar estragando nada), é a seguinte: “essa é minha obra-prima”. Vish, não é que é mesmo? Mais uma pra coleção.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

CONTOS DE NOVA YORK – Três gênios e um filme pouco genial

Woody Allen e sua caricatura da mãezona salvam Contos de Nova York

Esses dias assisti Contos de Nova York, de 89, pela primeira vez, cheio de expectativas. Poxa, é um filme que reúne três curta-metragens (de 40 minutos) de três diretores, todos com suas tramas passadas em Nova York. E não são três diretores de aluguel que se vêem aos montes por aí. São três dos grandes: o Woody Allen, o Coppola e o Scorsese. Mas confesso que não gostei nadinha do filme, achei até chato. Já começa pelo fato de que as três tramas não têm tanto a ver com a cidade, assim (com exceção, talvez, da do Woody). Quero dizer, elas se passam em Nova York, mas não há nenhum momento antológico envolvendo algum ponto da cidade. Não há nenhuma cena parecida com a do prólogo de “Manhattan”, do próprio Woody, talvez a maior homenagem que a cidade já ganhou.

A do Scorsese é a primeira, e se chama Lições de Vida. É bonitinha e tal, mas a gente espera mais do realizador de Taxi Driver (e entra aquela velha história: dá pra separar um autor de sua obra? Acho que não). Na trama, um pintor tem que decidir o que fazer de sua vida amorosa, agora que sua assistente deu um ponto final em sua relação. Há sequências interessantes, e a trilha sonora é bem bonita, mas, no geral, não é lá grandes coisas. Se bem que grande parte da crítica, pelo que andei lendo, considera esse o melhor segmento do filme. Comparado ao próximo, pelo menos, esse Lições de Vida é praticamente uma obra-prima. O segundo curta, do Coppola, eu juro que não entendi. Não que seja ruim. É, na realidade, pavoroso, vergonhoso de tão ruim. O que era aquilo? Um filminho infantil? Acho que deve estar aí o motivo de Contos de Nova York ser fraquinho, no geral. É que falta uma conexão de clima entre os contos. Todos são de tons muito diferentes. Fica estranho. Claro, são diretores autorais de estilos próprios, mas, pô, qual foi a intenção do Coppola ao dirigir esse A Vida sem Zoe? É praticamente um filme infantil de segunda. Esses que são feitos direto pra TV americana e que aqui passam na sessão da tarde, sabem quais? Podia muito bem se chamar “Uma Hóspede do Barulho”, pra vocês terem ideia do nível. E isso depois que a gente acompanhou uma história bem adulta sobre relacionamento e obsessão, que é o curta do Scorsese. Entendem o que quero dizer com a falta de conexão? E é ainda mais triste descobrir que ele foi escrito pelo próprio Coppola, em parceria com a Sofia Coppola. A Sofia tem o dom de escrever histórias de uma sensibilidade incrível (vide As Virgens Suicidas), e nem preciso falar nada do Coppola como diretor, já que a década de 70 foi do realizador de Poderoso Chefão e Apocalypse Now. Logo, é incompreensível pra mim de onde surgiu esse conto. Pra piorar, no fim, quando os pais ausentes de uma garota rica voltam pra casa, ambos tem tratamentos diferenciados. A mãe é uma víbora mesquinha que está pouco ligando pra filha, enquanto o pai é um herói, um exemplo de pessoa. Ué, eu pensei que os dois eram pais ausentes. Sem mais comentários.


O melhor conto, e, talvez, o que salva o filme de ser um fiasco total, é a do Woody Allen. Já disse que sou fã do Woody mais de uma vez, e suas tramas sempre me cativam. Ainda mais uma tão honesta e com um clima tão despretensioso como esse Édipo Arrasado. Deve ser uma das maiores homenagens às mães que o Woody já fez. Na trama, o personagem/persona do Woody tem uma mãe que sempre lhe causa enorme constrangimento. Tudo muda quando ela é chamada por um mágico ao palco em seu show (cena que nos remete ao recente e divertidíssimo Scoop) e, ao entrar num caixote, desaparece. Mas desaparece mesmo, já que nem o mágico sabe explicar onde foi parar a senhora. Gags como a da mãe que mostra fotos do filho pequeno pelado na banheira pra suas namoradas devem fazer muita gente se identificar. É uma graça, e tem todo o estilo delicioso do Woody. Mas aí fica a questão: será que vale à pena ver um filme de 2 horas por apenas 40 minutos dele? Não sei não. Vale pela curiosidade, pelo menos. Mas não esperem tanto quanto eu esperei. Hoje em dia ele é meio cult, mas eu não gostei.

HAIR – Deixemos o Sol entrar

Acho que eu tenho pena de quem detesta os musicais, porque, vejam só que tristeza, essas pobres almas perdem maravilhas como Hair por puro preconceito. Esse musical do Milos Forman adaptado de uma peça da Broadway completa agora 30 anos de existência. E continua incrivelmente vivo, nenhum pouco datado. Não sei se posso dizer isso com felicidade, já que preferiria que as guerras tivessem ficado lá pra trás. Infelizmente, não foi assim. E a mensagem de Hair, totalmente anti-guerra, segue irretocável. É um desses filmes acima de qualquer crítica, de temática universal.

E olha que eu nem tenho certeza se ele é meu favorito do Milos Forman (também amo Amadeus e Um Estranho no Ninho), e não é o musical que eu mais aprecio. Mas é um clássico indiscutível. A história começa com um caipira deixando sua casa em direção à Nova York, com o objetivo de se alistar na guerra do Vietnã. Quando ele chega, conhece uma moça da alta classe pela qual se apaixona, e um grupo de hippies que tentarão convencê-lo a desistir dessa história de guerra (semelhanças com Across the Universe não são mera coincidência, já que esse também grande musical ta cheio de referências a Hair). O primeiro número já é arrebatador, provavelmente um dos mais marcantes. Nele vemos hippies e policiais (montados em seus cavalos) sincronizados em uma coreografia de cair o queixo, ao som de Aquarius. Aliás, números musicais de arrebentar é o que não falta em Hair. Todas as músicas são incríveis (algumas não vão sair da sua cabeça por um bom tempo, já vou avisando), e as coreografias, idem (pra mim é um dos musicais com as coreografias mais inspiradas de sempre, junto com West Side Story). Não sei direito o motivo dos críticos americanos o terem recebido com tão pouca animação, na época de seu lançamento. Opa, acho que eu tenho um palpite. Hair critica o conservadorismo de uma maneira tão, mas tão inteligente, que deve ser um ultraje pra esse tipo de gente assistir ao filme. Quer dizer, Hair parece querer nos dizer que esse puritanismo todo é tão ridículo que o melhor que a gente tem a fazer é levar na brincadeira. Tipo: só pode ser piada, né? E ele faz piada com os conservadores. Ou então, o que dizer da divertidíssima sequência em que os amigos hippies entram numa festa, de penetras? Essa parte se finaliza com um inspirado número musical, onde um dos personagens cabeludos sobe na mesa do banquete e lá dança e canta I Got Life (cena que nos faz lembrar de Rent). É hilário que uma senhora da alta classe se identifique com o hippie, suba com ele na mesa e o acompanhe na coreografia. Muito bacana a ideia do Milos Forman de fazer a voz discordante da festa ser justamente uma mulher de idade (se bem que ela não abre a boca. Seu rebolado e seu sorriso falam por um todo). Uma vergonha pros jovens, mas muitas vezes é essa a verdade. Os tempos mudam, mas nem todas as cabeças conseguem acompanhar essas mudanças. Ta aí Hair que não me deixa mentir. Na época de seu lançamento, o filme foi muito perseguido pela censura. Inclusive no Brasil, onde ele veio a estrear apenas alguns anos mais tarde. E a peça homônima dos anos 60 sofreu mais ainda. Os produtores do espetáculo receberam processos por parte de pessoas que se chocaram com tanta “obscenidade”. Ninguém merece.

E talvez seja por isso que Hair até hoje siga com o merecido posto de grande musical. Por sua ousadia. Poxa, gente, ele veio logo depois de Grease. E ta cheinho de cenas e sequências que ficam mais engraçadas quando a gente nota que o Milos Forman sabia, enquanto filmava, que aquilo iria desconcertar os americanos conservadores. Ele brinca com essa ideia, se diverte com ela. Por exemplo, todo aquele número em que as mulheres brancas cantam como os negros são sexy, e as mulheres negras cantam a mesma coisa sobre os homens brancos, e todas são, ainda por cima, acompanhadas no gogó pelos soldados do exército, é a prova viva do que eu to falando. Já dizia Nabokov que existem pelo menos três temas que são extremamente tabus para os americanos. Um deles, na voz desse grande escritor, é: “o casamento de um branco e uma negra (ou vice-versa) onde ambos sejam gloriosamente felizes e tenham muitos filhos e netos”. Quem sou eu pra discordar?

Um dos segredos de Hair ser tão encantador é que ele conta com personagens muito carismáticos. Todos os hippies são um poço de simpatia, e a gente gosta deles logo no começo, quando usam o pouco dinheiro que têm para poderem realizar um sonho pessoal. Eles alugam um cavalo. É isso que os faz tão especiais. O que eles querem, afinal? Eles querem se amar, se divertir sem ter que destruir a vida do outro pra isso, querem paz. O corte de cabelo deles (ou melhor, a falta de corte) é só um símbolo de suas inconformidades com a sociedade. Uma forma de protesto, talvez. Ao sistema. À guerra. E a gente vê na tela o tanto que isso incomoda todos que andam às suas voltas. Pra mim um dos diálogos que mais exemplificam essa cultura é quando uma das hippies conversa com a mulher de seu amigo, que acaba de conhecê-la. A hippie está grávida, e, ao ser questionada sobre quem é o pai, ela responde que não tem certeza, está em dúvida entre dois caras. E ela diz isso da forma mais normal possível, porque, afinal, quem disse que isso é anormal? Quem inventou o significado da palavra “normal”? O que é ser anormal? A moça, é claro, se espanta, porque alguém a ensinou que isso é sim, anormal. Assim como todas as pessoas estão vivendo com a ideia imposta de que a guerra é algo não só super normal, como necessário. E mais de uma vez algum personagem que segue direitinho às leis impostas de como é a maneira certa de se viver (que maneira certa, cara pálida? Guerreando?), ameaçam cortar as madeixas de nossos heróis. O cabelo deles é a prova de como o que é diferente incomoda às pessoas. Por exemplo, no momento em que eles são presos, um policial pergunta para o hippie que protesta contra cortarem seu cabelo: “Você sente atração sexual por outro homem?”. No que ele responde, claramente divertido com a situação (e vemos mais uma vez aquilo de levar esse puritanismo como se fosse engraçado – e é mesmo): “Ta perguntando se eu sou homossexual? Não, não sou, mas confesso que eu não expulsaria o Mick Jagger da minha cama”. E o policial: “Então porque você não corta esse cabelo?”. A resposta vem com um número musical, e não teria maneira melhor pra se terminar uma cena dessas. Sério, como tem gente que reclama das pessoas cantarem “do nada” em musicais, como? É perfeito!

Mas, claro, essas gracinhas se equilibram com algumas partes mais sérias, mais tristes. A mulher do hippie negro que voltou cantando Easy to Be Hard é de arrepiar. E o final é muito triste. Isso porque toda aquela sequência do grupo indo salvar um de seus amigos, que foi parar no campo de treinamento do exército, é divertidíssima. Se no começo desse terceiro ato nós nos lembramos dos horrores mostrados em “Nascido para Matar”, logo, logo estamos em outro clima, naquele de “putz, como a guerra é ridícula!”. Mas, no final, cai a nossa ficha. A guerra é ridícula, mas ela existe, é real. E mata. Apesar disso, o filme ainda termina com uma pontada de esperança, com a última música, onde várias pessoas cantam Let the Sunshine In (Deixe o Sol Entrar). É um desses filmes que nos enche de esperanças na humanidade, que nos faz crer que algum dia o amor voltará a fazer o mundo girar. Ok, não é pra tanto, que Hair é lindo, mas não faz milagres. Ou faz?

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

MAIS FILMES PRA VOCÊS DESCOBRIREM

Como milhares de leitores (dois) disseram que estavam com saudades desses meus joguinhos estilo “descubra o filme”, resolvi fazer de novo. Depois dos maiores clássicos dos anos 80 e 90, dessa vez peguei filmes variados, sem uma década específica, talvez com a esperança de conseguir fazer um troço um tiquinho mais difícil e desafiador. Se bem que essa nem é a intenção. Qualquer cinéfilo sabe sobre qual filme essas imagens pertencem só de bater o olho nelas. Mas, mesmo depois de vocês descobrirem todas as fotos, vamos discutir sobre esses filmes. Quero saber a opinião de vocês. A única coisa que eles têm em comum entre si é que eu amo todos. Sem exceção. Alguns, inclusive, são filmes meus de cabeceira. E vocês, gostam deles? Se continuarem rolando comentários animados, prometo colocar minha cuca pra funcionar e invento um joguinho mais criativo, pra próxima.















quarta-feira, 7 de outubro de 2009

E SUA MÃE TAMBÉM – Cheiro de coisa nova no ar, arriba!

O grande E Sua Mãe Também, filme mexicano de 2001, é um pouco sobre várias coisas. É um filme poderoso, daqueles em que cada cena, cada narração, parece ter um significado. É um cinema meio explosivo, cheio de coisas a dizer. Se não viram ainda, vejam, mas vejam sabendo que ele tem seu ritmo próprio. Na história, após despedirem-se de suas namoradas, que partem para a Itália, dois garotos conhecem, numa festa de família, uma mulher, e, de brincadeira, a convidam para ir com eles a uma tal praia paradisíaca. Mas, claro, essa praia nem ao menos existe. E qual é a surpresa dos dois quando a moça aceita o convite. Eles não entendem o porquê, mas tratam logo de conseguir um carro emprestado. E pé na estrada.

Mas nós, voyers, sabemos o porquê de uma moça bem-sucedida e madura aceitar partir com dois desconhecidos numa viagem dessas. Ou pelo menos, sabemos parte de seus motivos (a outra parte fica reservada pro desfecho). Um deles é a infidelidade de seu marido, que confessa tê-la traído. A personagem da Maribel Verdú faz uma dessas enquetes bobinhas de revistas, para descobrir em qual categoria de mulher ela melhor se encaixa. Ao descobrir, pelo resultado da revista, o que mais ou menos já sabia, que é uma pessoa presa numa vida que não gosta, com sonhos frustrados e cansada da rotina, ela vê no convite dos dois uma oportunidade de se libertar. E aí segue-se um road movie. “E Sua Mãe” podia até ser um típico filme de estrada sobre auto-conhecimento, mas vários detalhes fazem da obra do Alfonso Cuarón (do também ótimo Filhos da Esperança) muito mais especial. Por exemplo, a narração em off. É poética, crítica, cheia de lirismo. E a gente nem liga que a história principal seja interrompida pra que a narração nos conte algum fato que, pasmem, não foi mostrado na tela. Essas falas em terceira pessoa são realmente importantes, acreditam? E são delas que saem as melhores sacadas. Por exemplo, quando um novo personagem surge, um pescador que os três protagonistas contratam como guia, a narração onisciente dá o seu parecer. Ela conta que aquele homem, dias depois, virá a ter sua casa demolida para a construção de uma indústria naquele local. E, mais tarde, o pescador irá trabalhar na tal indústria. E nunca mais voltará a pescar. É esse tom político e social crítico, mas ao mesmo tempo sutil, que permeia o filme. É uma história de auto-descobrimento sim, de amizade, de sexo, de tudo isso. Mas é mais. É cheio de pormenores, de pequenos detalhes. Ou então, o que dizer dos porcos que atacam o acampamento dos aventureiros? A narração dá conta de contar o futuro até desses animais.

E isso ainda é meio pano de fundo. A trama principal também ta cheia de verdades a serem ditas, de toques interessantes. Eu simplesmente adoro toda a sequência em que os dois amigos brigam no carro, após descobrirem que um transou com a namorada do outro. A mulher os interrompe dizendo algo como: vocês homens vivem brigando sobre quem transou com a namorada do outro, mas no fundo o que vocês querem mesmo é transar entre si. Todos esses temas são sérios, é um filme denso e rico, mas, mesmo assim, ele até tem um clima despretensioso, em alguns momentos (ajuda que o Gael García Bernal e o Diego Luna tenham uma super química juntos). E nenhuma das cenas de sexo estão lá gratuitamente. Quem diz que o filme quer simplesmente chocar realmente não notou como toda uma diferença social de um país é tratada em curtas e por vezes irônicas narrações. Não que “E Sua Mãe” tenha medo de desagradar aquelas pessoas que não podem ver pobreza na tela, já que, claro, elas pagam para ir ao cinema para ver luxo. Não é isso. É que assim, desse jeito, sutil, é bem mais interessante. E, acreditem, toca na ferida, nos faz pensar e refletir, muito mais do que se enchesse a tela de imagens impactantes. Não dói, mas incomoda, sabem? Ele me lembra bastante aquele curta maravilhoso e obrigatório do Jorge Furtado (diretor de Saneamento Básico e O Homem Que Copiava), Ilha das Flores (assistam aqui, em duas partes). Em sua obra-prima (que não é à toa que hoje é item fundamental a ser exibido em todas as escolas), Furtado questiona sobre o que faz um ser humano não ter os mesmos direitos de outros, se todos nós temos o polegar opositor, afinal. Mas com uma linguagem pra lá de inusitada. “E Sua Mãe” trata das diferenças dos problemas de típicos jovens burgueses e dos problemas das classes mais baixas do México. E ainda conta com um triste e belo final surpreendente, que nos faz entender os motivos da protagonista feminina ter embarcado naquela loucura. No fim, não tem como não se perguntar: como seria o filme se fosse americano? Provavelmente bem diferente, e não to falando só de aspectos técnicos (a fotografia meio crua o deixa incrivelmente realista). Mas damos graças aos céus que ele não é americano (e batemos na madeira enquanto gritamos: “xô, remake”), e a sensação gloriosa de um cinema bem menos quadrado do que aquele que estamos acostumados a ver já vale à pena. Não estranhe se você sentir um cheirinho de coisa nova no ar. A gente ta (mal) acostumado com filmes totalmente infantilóides que acham que nos trazem alguma mensagem edificante. E nada melhor do que nos desacostumar com filmes como esse. Uma pérola.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

SALVE GERAL – Brasil no Oscar?

Semana passada entrou em cartaz Salve Geral, e de lá pra cá eu já ouvi vários comentários do tipo: “mais um filme brasileiro sobre favela e prisão?”. Mil perdões, mas essas pessoas pensam antes de falar? Curiosamente, são as mesmas que imploram por uma terceira parte de Se Eu Fosse Você, aquele poço de originalidade (e que, de quebra, não mostra nenhuma pobreza. Aí sim, o Brasil sai bem na foto lá fora). Agora, posso me gabar só um pouquinho? Salve Geral estreou em circuito na última sexta, mas eu já o tinha conferido há mais de duas semanas, na pré-estreia oficial (!). É que meu tio ganhou alguns convites pra essa exibição super especial, e lá fomos nós, na esperança de encontrar algum ator conhecido. Eu já tava até fantasiando como seria se me sentasse do lado da Andréia Beltrão no cinema. Mas não foi bem assim. Na verdade, o cinema inteiro foi fechado pra esse evento. Foram 7 ou 8 salas lotadas exibindo o filme na mesma hora. O elenco tava lá, assim como o diretor Sergio Rezende, mas nós não conseguimos localizar nenhum deles. Acho que minha super visão altamente avançada para encontrar atores globais no meio de multidões falhou nesse dia, deve ter sido isso.

Mas vou falar do que eu vi na tela, porque ao vivo, pff... Eu gostei de Salve Geral, mas não muito. A história se passa naqueles dias em que o comando do PCC tomou São Paulo, lembram? Eu me lembro bem. Me lembro de toda hora aparecer uma nova notícia de mais um ônibus incendiado na capital, me lembro do toque de recolher na segunda-feira pós-dia das mães, quando a cidade literalmente parou. Mas o filme começa um pouquinho antes disso. Ele mostra como os prisioneiros se organizaram para conseguir o que conseguiram (não teriam conseguido sem o uso de celulares, por exemplo), até a ascensão do PCC. Mas, claro, há também uma trama dramática no meio disso tudo, pro público se identificar. E nela a Andréia Beltrão vive uma mulher que acaba de se tornar viúva e que está passando por dificuldades financeiras. Seu filho se envolve numa briga de rua, mata uma pessoa e é preso. A partir daí a protagonista vai tentar tirar seu rebento da prisão, e acaba se envolvendo com o “partido”. Entra na jogada a Denise Weinberg como uma advogada corrupta que tem como frase de cabeceira “é muito mais fácil contratar um péssimo juiz do que um bom advogado”. Eu até gostei dessa trama. Não é piegas, o que me deixa bastante surpreso. Mãe que perde filho e tem que recuperá-lo em filme com a marca da Globo? Logo imagino muitas cenas de sofrimento gratuito postas pro público ir aos prantos. Mas até que Salve Geral é sutil nesse ponto, e isso fica bem claro principalmente na cena final. Ajuda que a Andréia Beltrão seja uma grande atriz. Comecei a reparar nela mais recentemente, quando assisti aquela mini-série dirigida pelo Fernando Meirelles, Som e Fúria, sabem? Não me lembro de ter visto algo tão bom na emissora do plim-plim há tempos. E a atriz brilhava.

Essa história da mãe professora de piano se embrenhando pelas redes da corrupção para tirar o filho de trás das grades funciona bem. Só que, mesmo assim, há uma certa irregularidade na naturalidade do filme. Em alguns momentos tudo é bastante realista e interessante, mas em outros... Reparem naquele menino do computador. Seus diálogos perdem em naturalidade pra os de qualquer personagem do último filme da Xuxa. É fora de tom total. Mas, pra mim, o maior defeito de “Salve” ta no seu ritmo. Não sei não, mas a impressão que ficou é que o roteiro do próprio Sergio Rezende quis mostrar coisas de mais. Ficou corrido. Falta um momento ao filme. Aliás, falta o momento, aquele pelo qual Salve Geral seria lembrado. Sei que não deveria comparar e tal, mas em “Carandiru”, por exemplo, aquela sequência do massacre é meio inesquecível (mas lá quem estava por trás de tudo era o Hector Babenco, então são outros quinhentos). Talvez esse seja o motivo de Salve Geral não ser muito marcante. Chega uma hora que o ritmo do filme fica inalterável, não sobe e nem desce de tom. E o clímax? Se bem que, mesmo com esses probleminhas, vale bastante à pena ir conferi-lo. Ou se não, qual sua outra opção? Os Normais 2? Ught! Só que fica aquela questão: esse realmente foi o melhor filme nacional do ano, pra ser escolhido entre tantos outros pra tentar uma vaga no Oscar? No geral, é um filme correto, mas não passa muito disso. Será que Salve Geral tem alguma chance de entrar pros finalistas do Oscar? Será que daqui há, sei lá, dois anos, alguém vai mesmo se lembrar dele? Nhááá...

sábado, 3 de outubro de 2009

MINISTÉRIO DA SAÚDE ADVERTE: TER UM BLOGUINHO VICIA

Se eu já me considerava viciado no bloguinho antes, imaginem agora que instalei aqui o SiteMeter. Fiquei tão orgulhoso de mim quando consegui instalá-lo sozinho. Ta, sozinho, sozinho, não. Tive algumas ajudinhas. Ok, meu amiguinho fez tudo pra mim, e eu fiquei só olhando. Mas tive que aprender a usar, e isso foi na marra. Pra quem não conhece, esse é apenas um dos vários programas que fazem praticamente a mesma coisa (o mais usado, acho, é o Google Analytics). Com ele dá pra ver um montão de coisas legais sobre o blog. Primeiro, tem um mapa mundi mostrando os pontos de onde cada leitor está entrando. Tem gente até em Portugal nos visitando. Além disso, o SiteMeter apresenta vários gráficos muito interessantes. Tem um que mostra os horários do dia em que o bloguinho recebe mais visitas. Só o instalei há uma semana, mas já posso dizer com certeza que os horários variam bastante. Tipo, no primeiro dia que instalei vi que o horário mais visitado foi às 18h. Anteontem, meio dia foi a hora que vocês mais compareceram. Já ontem, bem, ontem quase todas as visitas se concentraram às 4h da manhã. Agora, às 22h é, quase sempre, o horário menos visitado. O que vocês fazem nesse horário que não estão aqui, hein, hein, hein? Dormindo? Ta bom, sei! Não precisam mais mentir pra mim, porque agora eu sei de tudo, sou o olho que tudo vê. Sei que vocês ou tem insônia ou tem uma compulsiva vontade de ler meus textinhos às 4 da madrugada.

Tem até um gráfico mostrando o tempo de duração que cada leitor ficou no blog! Mas isso é complexo demais pra minha cabecinha. Um dia eu consigo lê-lo. Por enquanto prefiro ficar com os básicos, tipo qual o dia do mês e da semana que o blog mais recebeu leitores. Ah, enfim, recomendo que todos os blogueiros instalem em seus devidos blogs. Brincadeiras à parte, é super fácil de instalar e mexer, mesmo pra quem conhece pouco ou nada de inglês. Qualquer dúvida vocês podem tirar com o expert no assunto aqui, cof cof. E nem contei a melhor parte ainda. Sabiam que com essa nova ferramenta eu consigo ver como determinado leitor caiu no bloguinho? Muita gente entrando aqui graças ao Cinema e Cultura (muito obrigado a todo o pessoal de lá). Mas o mais legal é ver o que determinado leitor pesquisou no Google pra cair aqui. Nunca podia imaginar que tanta gente encontrava o blog por esses sites de busca. A maioria busca algum filme e acaba chegando aqui, o que me deixa bem feliz (bastante gente buscando Anticristo e O Silêncio de Melinda, e caindo nas minhas respectivas crônicas sobre esses filmes, aqui e aqui), mas tem uns que procuram umas coisas muito bizarras. E o Google as manda pra cá. Por exemplo, uma pobre criatura pesquisou “fantasia ,bota,peruca hannah montana”, e o Google realmente achou que ela poderia encontrar o que desejava no meu bloguinho? “filme em que o bebe demonio mata babas”? Esse leitor ta se referindo a O Bebê de Rosemary, A Profecia ou Halloween? Porque eu não saquei. “cobras gigantes” e “luta com sexo” são só algumas dessas buscas que apareceram aqui em menos de uma semana que eu estou viciado no SiteMeter. Imaginem daqui a um mês o que eu não vou encontrar. Mas, tentarei ser paciente com essas pessoas. Alguém pesquisou: “pq michael myers mata”. Bem, tentando levar a sério, digamos que existem vários motivos. Motivo número 1: ele é o vilão de um filme de terror. Compreende? Motivo número 2:... Ahhh, desisto! Olhem isso: “qual a medida certa do titanic”. Eu te respondo só se você me responder: por que raios você quer saber? E algumas buscas reveladoras: “rose que viveu uma grande história de amor no titanic tá viva”. Eu sei! Também estou chocado. Mas a melhor, até agora, é essa, de um leitor muito, muito exigente: “eu quero assistir agora no computado e de graça o filme harry potter e o enigma do príncipe”. Alguém deveria ensinar pra ele o significado da palavrinha mágica “download”. Resumiria, no mínimo, metade de sua frase. Ai, ai... E tem gente que me pergunta qual a graça de ter um blog. Ta aí a graça.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

DE OLHOS BEM FECHADOS – Sonhando de olhos abertos

Um único olhar da Nicole Kidman traz mais um monte de significados para De Olhos Bem Fechados (1999)

É meio impossível analisar De Olhos Bem Fechados ignorando todo o seu contexto. Primeiro, essa foi a última obra de um dos gigantes do cinema, Stanley Kubrick. Então, já começa por aí. É claro que na época ninguém fazia ideia de que este seria o longa que finalizaria a carreira do gênio por trás de 2001, Laranja Mecânica, O Iluminado, Barry Lyndon e Lolita, entre outras obras-primas. Mas todos os cinéfilos estavam certamente muito ansiosos. A última obra de Kubrick, Nascido para Matar, já tinha mais de dez anos. O diretor sempre teve fama de ser perfeccionista ao extremo, chegando a ser quase insuportável pros atores trabalhar com ele. Kubrick já estava filmando “De Olhos” há mais de 2 anos. Ou seja, este já era o filme mais aguardado daquele ano, disparado. Daí, pra tristeza geral, Kubrick morreu pouco antes de sua estreia (deixando dois projetos em aberto: A.I., mais tarde tocado pra frente pelo Spielberg, e um filme sobre o Napoleão), mas não antes de dizer que este era seu melhor trabalho até aqui. Nesse ponto, não preciso nem falar como estava a expectativa geral, né?

E, finalmente, o filme estreou. E foi uma decepção. De público e de crítica. Não tenho tanta certeza sobre o porque, exatamente. Talvez por aquela velha história de quanto maior a subida, maior a queda (é isso?). Em se tratando de Kubrick, ninguém esperava menos do que mais uma obra-prima. E De Olhos Bem Fechados não é uma obra-prima. É um ótimo filme, e eu o adoro, mas tenho que admitir que ele está sim, cheio de pequenos defeitos. Como “defeito” e “Kubrick” raramente ficavam juntos numa mesma frase, esse pode ser mais um motivo da péssima recepção do filma na época. Já li inclusive que antes de seu lançamento, ninguém sabia muito sobre o que ele se tratava. Foi uma produção feita entre quatro paredes, com todos os cuidados pra nadinha vazar. Até o trailer contava simplesmente nada sobre a trama. Sabia-se apenas que era um filme com os dois astros Nicole Kidman e Tom Cruise, contendo muitas cenas de sexo. Seus temas reais eram desconhecidos antes de sua estreia. E, quem diria, depois dela também. Acho que até hoje não se sabe exatamente sobre o que ele trata. Sobre o labirinto assustador da mente humana? Ah, isso não conta, já que todos os trabalhos do Kubrick falam disso. É um filme cheio de interpretações diferentes, e, talvez, o mais complexo do Kubrick até aqui. Ok, não posso dizer com certeza, já que o final de 2001 deve ter gerado várias teses, assim como o de Laranja Mecânica e o de O Iluminado causam até hoje inúmeras discussões. Mas que De Olhos Bem Fechados é o mais estranho do Kubrick, ah, isso é.

Mas é mais do que estranho. É inquietante, intrigante. A gente termina de assistir e sente um certo vazio, uma certa ânsia por respostas. Como se nada daquilo que foi mostrado nas quase três horas fosse o suficiente. E não é mesmo. Talvez esse seja o motivo pro filme ser um bocado viciante. Eu já o assisti inúmeras vezes, e sempre que termino tenho vontade de ver de novo. De entender o que, oh, céus, Kubrick quis dizer com tudo aquilo. Mas vamos com bastante calma. A história começa com a Nicole Kidman e o Tom Cruise se preparando pra uma festa. É genial que nos primeiros minutos, onde vemos os dois se aprontando, já conseguimos sacar que a relação daquele casal não é das melhores, talvez pelo modo como eles se olham (ou melhor, não se olham). Desconfiamos de que qualquer fato pode abalar os alicerces desse relacionamento. E estamos certos. Na festa, enquanto a Nicole paquera e é paquerada por um moço que a tira para dançar, o Tom faz a mesma coisa com duas outras garotas. Mas a gente sente bastante diferença nos dois flertes. O Tom parece estar bêbado, e leva tudo aquilo mais na brincadeira. Enquanto na conversa da Nicole com o senhor charmoso, bem, nessa nós sentimos maior perigo. Na noite seguinte, após se drogarem casualmente, o casal começa a devanear sobre a festa. No meio da discussão, a Nicole faz uma confissão chocante. Ela confessa que, certa vez, quase largou o casamento e a família por um homem que tinha visto apenas de relance. Claro, no fim, ela não o fez, mas o Tom fica claramente abalado. É nessa hora que ele vê seu posto de homem da casa, de manda chuva, destruído. Ele não tinha tanto controle da situação como pensava, afinal. É nesse instante que o filme realmente se inicia. O Tom sai pelas ruas de Nova York, tentando entender alguma coisa que nem ele sabe direito o que é. Tentando entender o que o sexo é capaz de fazer com a cabeça do ser humano, talvez. Talvez...
A partir daí De Olhos Bem Fechados quase vira um filme episódico, onde o Tom começa a se envolver com prostitutas, casos de pedofilia, cafetismo, e até com uma seita ultra secreta. No fim, tudo não dá lá muito certo, e até um suposto caso de assassinato entra no meio da trama. E a trama até parece normal, fácil de se acompanhar. Tudo bastante linear, com os fatos acontecendo um em seguida do outro, bonitinho. O maior problema é compreender os temas, o que tudo aquilo está querendo dizer. Existem muitas possibilidades. A mais interessante, e a que eu mais me identifico, é a que diz que De Olhos Bem Fechados é um filme principalmente sobre a diferença entre os sonhos e a realidade. No último diálogo entre o Tom Cruise e a Nicole Kidman isso fica bem claro. Ou quase. O que, no decorrer do filme, realmente aconteceu? O que não passou de um sonho da cabeça perturbada do personagem do Tom? Ou melhor: realmente importa? Sonho e realidade são mesmo assim tão diferentes? E quando eles se confundem? A Nicole nem ao menos chegou a transar com o marinheiro que viu de relance, mas, ao confessar que pensou em largar tudo por uma noite com ele, seu marido, o Tom, já começa a imaginar sua mulher nos braços de outro. Enquanto ele caminha por Nova York, procurando suas respostas, vemos takes de sua mente imaginando a Nicole e o tal marinheiro juntos. Sendo que isso nem ao menos aconteceu. Ué, se ele fantasiou, sonhou essa parte, não podia muito bem ter sonhado todo o resto? Pra mim é um filme sobre como podemos sonhar de olhos abertos, e de como podemos fingir fugir da realidade fechando os olhos.

Mas a sequência mais instigante, e, com certeza, a mais marcante, é a da seita. No final, a gente não sabe se ela realmente aconteceu, se não passou de um sonho ou se aconteceu, mas foi forjada (como nos põe a pensar o último diálogo do Tom com o Sydney Pollack). Mas que é uma sequência incrível de tensa, ah, isso é. Aliás, De Olhos Bem Fechados inteirinho é um filme tenso. Com aquela trilha sonora peculiar e com todo aquele clima de que algo está para acontecer, Kubrick nos mantém de olhos arregalados, se me permitem o trocadilho. Essa da seita, em especial, foi feita pra deixar o público desconfortável. A gente quase grita pro personagem do Tom: “sai daí, sua besta!”. E ele não sai, o teimoso. O instante em que todos os envolvidos da seita descobrem que ele era um intruso, ui, acho que meu coração para por alguns segundos. E eu nunca mais olhei pra essas máscaras de carnaval do mesmo modo. Mas o que mais se fala dessa cena, como não poderia deixar de ser, são sobre as cenas de sexo explícito. Inclusive, toda aquela interminável (que, não parece, mas dura menos de 1 minuto) e assustadora sequência em que o Tom caminha entre as salas onde está ocorrendo a orgia, foi censurada nos Estados Unidos. Não me perguntem como, mas os atos sexuais foram tampados por computador. Engraçado, em 71 aconteceu algo parecido em outro filme do Kubrick, Laranja Mecânica, onde os peitos das mulheres foram censurados por aquelas barrinhas pretas, sabem quais? Logo, o pobre público inglês teve que se contentar em ver o filme com várias dessas barrinhas pulando na tela. Mas felizmente de lá pra cá as coisas mudaram, e hoje não temos nada parecido. Opa, eu disse as coisas mudaram? Perdão, devia estar sonhando. Agora, falando sério (eu vou conseguir, vocês vão ver), eita povinho fresco, não? Apesar de eu achar sim, toda essa sequência bem desconfortante, isso não se deve exatamente pelas cenas de sexo. É por todo o clima, construído com o objetivo de nos fazer ficar mal. Durante todo o tempo em que o personagem do Tom ta na mansão, não sei vocês, mas eu me sinto muito vulnerável. Como se estivesse lá. E, já que toquei no assunto, o Kubrick tem um currículo bem invejável de olés na censura, não? Lolita, Laranja Mecânica, todos filmes que causaram polêmica em suas épocas. Todos contendo temas tabus tratados com incrível naturalidade por Kubrick. Mais um motivo pra gente reverenciá-lo.

E toda a parte técnica está perfeita. Desde a fotografia limpa e refinada (contrastando com várias das situações), até os figurinos do pessoal da seita. E aqueles famosos planos geométricos do Kubrick também estão presentes. Ah, sabiam que, apesar de várias cenas importantes se passarem nas ruas de Nova York, o filme não foi rodado lá? Na verdade, um cenário foi construído na Inglaterra, retratando a cidade. Será que isso tem alguma ligação com o fato do Kubrick detestar viajar de avião?

Agora, se me permitem, vou falar das coisinhas que não gosto. Primeiro, pra mim, os atores estão todos muito bem (mas não brilhantes; com exceção da Nicole, que ganha o filme por aquele monólogo da confissão). Só tenho uma reclamação: todos eles entoam suas falas extremamente devagar. É sério! Os diálogos acontecem de forma muito lenta e pausada pro meu gosto. A gente só não dorme porque tudo é muito interessante. Outra coisa: Kubrick morreu antes de participar da montagem do filme (ele sempre estava presente na pós-produção de seus trabalhos). Dá pra notar. Toda a edição é meio esquisita, não de um jeito bom. O ritmo é um pouquinho prejudicado. Mas o maior descontentamento geral não me incomoda. Pelo contrário. O pessoal costuma não gostar por simplesmente não compreender o filme, em sua totalidade. Poxa, ele não foi feito para ser completamente entendido. Quem conhece a carreira do Kubrick sabe do que eu to falando. De Olhos Bem Fechados é um filme que nos instiga em cada detalhe. São várias coisas a se pensar. O que passa pela cabeça do Tom quando ele descobre o que o dono da loja de fantasias fazia com sua filha? O que a máscara representa? E aquele momento em que a Nicole nos narra o seu sonho então, vish, aquele lá abre mais um leque de possibilidades. Qual era o objetivo do personagem do Tom, afinal? Qual é a verdade sobre o fim da seita? E o mais abrangente: o que, de tudo aquilo, era real? Pode estar longe de ser o melhor trabalho do Kubrick, e certamente não é uma obra-prima, mas qual outro filme levanta tantas questões assim? Eu tenho a sensação de que Kubrick encerrou sua genial carreira com chave de ouro. É bem raro um diretor fazer um filme novo e nos fazer esquecer de todos os seus outros trabalhos enquanto o assistimos. De Olhos Bem Fechados é uma obra única, assim como todos os seus outros filmes. Enquanto assistimos, o isolamos do resto do currículo do Kubrick, fugimos de comparações. Mas, ao final, ao juntarmos o último longa com os outros 12 filmes (em mais de 40 anos de carreira, pra vocês terem ideia do perfeccionismo), temos uma certeza: Kubrick morreu feliz. Pelo menos, feliz com seu legado, e com todos os pontos em aberto que deixou pra nós podermos discutir. Assim, ele estará sempre vivinho da silva.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

MS. 45 – Ovos fritos

Abel Ferrara homenageando o De Palma (que, por sua vez, já homenageava o Hitchcock) na sequência final de Ms. 45

Vocês conhecem Ms. 45, esse filme B de 81 dirigido pelo Abel Ferrara e conhecido no Brasil como Sedução e Vingança? Provavelmente não. Então, deixem-me resumi-lo pra vocês em uma única expressão: um trash feminista. A história se foca numa tímida moça muda que acaba sendo estuprada duas vezes num mesmo dia. No filme tudo é bastante rápido. Nos primeiros 10 minutos já fomos apresentados aos personagens que nos interessam e a protagonista já sofreu as duas violações. Acontece que, no desespero, ela acaba matando o segundo estuprador, dentro de seu apartamento. A partir daí, ela começa a ter uma grande repulsa pelo sexo masculino, e nesse ponto Ms. 45 se assemelha bastante a outro filme, Repulsa ao Sexo. E não é mera coincidência não, já que o Abel Ferrara nunca escondeu que o Polanski, diretor de “Repulsa” (e de outros clássicos, como O Bebê de Rosemary, Chinatown e O Pianista), é e sempre foi uma de suas maiores fontes de inspiração. A maior diferença, talvez, seja que Repulsion é um suspense psicológico bem sério e com um clima bastante sufocante. Enquanto Ms. 45, ah, esse é um trash. Muito mais uma brincadeira divertida do Abel Ferrara.

Seguinte, depois do incidente, nossa heroína passa a ter enorme prazer em matar homens. Qualquer um. Passa a ser tipo um hobby pra ela, sabem? Claro, no começo ela até parece seguir uma certa linha, matando apenas os seres do sexo masculino que aparentam ser uns crápulas. Mais tarde ela sai matando todos os homens, sem precisar de um motivo específico. Não que Ms. 45 queira influenciar as mulheres a pegar uma pistola e sair por aí atirando em qualquer um do sexo oposto. Não é isso. Mas que Ms. é um prazeroso grito desabafante de ódio àqueles que crêem que a mulher pede para ser estuprada, ao andar de mini-saia, ah, isso é. Um filme sobre castração. Se bem que ele ta muito longe de atingir qualquer grande discussão ética do tipo: “é correto fazer justiça com as próprias mãos?”. Na verdade, é um trash e ponto. Daqueles bem senta-e-curte-o-pograma. Ah, e, já vou avisando, qualquer mega fã do Abel Ferrara que venha me apedrejar por eu estar chamando seu filme de, oh, que horror, de trash, bem, poupe-nos. Como se ao classificar um filme desse modo eu o esteja diminuindo. Nada disso. Existem várias provas vivas de que o Ferrara queria sim, fazer um trash. Se não, o que dizer da cena em que um mendigo encontra o braço de um homem no meio do lixo, ou da sequência em que o cachorro da vizinha mala come os restos mortais moídos de um dos cadáveres? Opa, provavelmente os assustei. Mas sabem que Ms. 45 nem é assim tão violento e sanguinolento? Sem muita carnificina, o Abel Ferrara parece adepto de uma violência mais direta, sem torturas ao público. Um trash diferente, mas ainda assim um trash.

Outro fator que classifica Ms. 45 como aqueles filmes que não devemos levar tão a sério assim é o modo como a protagonista se transforma durante a história. Em um dia ela ainda é uma tímida moça que acaba de sofrer nas mãos daqueles canalhas e que mal sabe pegar numa arma, no outro já é uma femme fatale com uma pontaria de fazer inveja a qualquer James Bond. Intencionalmente brega e risível. E ta cheio de toquinhos legais. Como, por exemplo, quando a protagonista, já no auge de sua obsessão, beija cada uma das balas com um batom vermelho antes de colocá-las dentro da arma. Logo depois aponta a mesma pro espelho, numa clara homenagem a Taxi Driver. Não é à toa que essa é a cena mais marcante do filme. Mas também adoro a sequência final, na festa de halloween. Tudo em câmera muito lenta, brincando com nossos nervos, em mais uma homenagem, dessa vez a Carrie – A Estranha (e à sequência pré-banho de sangue do mesmo). Nessa festa a protagonista está vestida de freira, é claro, porque o Abel Ferrara não perde a chance de incluir algum elemento religioso do cristianismo em seus filmes (mais sutilmente em Ms. e em O Rei de Nova Iorque, e bem mais explícito em Os Viciosos e, principalmente, em Vício Frenético, por exemplo). Um freira empunhando uma pistola e matando todos os homens que vê pelo cominho, tudo em câmera lenta? Em qual outro filme podemos ver algo parecido com isso?

E é justamente nessa matança final que fica mais do que claro que Ms. se trata de um filme feminista. A protagonista não mata qualquer um. É preciso ter algo no meio das pernas pra se tornar sua vítima. E, mesmo assim, existem mais algumas restrições. Tipo, a última e genial cena, o último take mesmo, envolvendo o cachorrinho da vizinha, tira qualquer dúvida que nós ainda possamos ter. Definitivamente, Ms. 45 merece meu respeito. Gosto de como o Abel Ferrara pega um roteiro simples e o enche de pequenos simbolismos. Minha gracinha favorita envolve o segundo cara que estupra a protagonista. Ela chega em casa, após sofrer o primeiro abuso na rua ( o primeiro estuprador, por curiosidade, é interpretado pelo próprio Abel Ferrara), e encontra um invasor em seu apartamento. Ele a agarra e começa a estuprá-la. Mas a protagonista, num ato de desespero, alcança o ferro de passar e dá com ele na cabeça do crápula. Nessa hora há um corte. Logo depois da moça atacar seu estuprador, a edição muda de ambiente. Estamos na casa da vizinha, e ela parece estar preparando alguma coisa no fogão. Sabem o quê? Ovos fritos. Dois, pra ser exato. Fim do caso.

Obs: escrevi esse texto na sexta e o Polanski foi preso no sábado por ter abusado sexualmente de uma menina de 13 anos (fato ocorrido há mais de 30 anos!). E eu o citei aqui. Sinistro... Mas isso é assunto pra um outro dia.